A batata quente

O candidato à presidência, José Serra, vem batendo, por assim dizer, no governo da Bolívia, em razão do narcotráfico. Demais candidatas ainda não se pronunciaram. Serra me parece sóbrio, é um democrata, com larga experiência administrativa e política passando pelo movimento estudantil e movimento pelas Diretas Já, foi Deputado Constituinte, ministro, prefeito e governador da cidade e do Estado de São Paulo. Vamos aguardar o que tem a dizer sobre esse problema, crucial, do narcotráfico, na entrevista pela TV Cultura às dez da noite, hora local, na próxima segunda.

Em nenhum momento eu seria favorável à repressão radical ao plantio de coca, pois o uso das folhas é vital para a sobrevivência humana em elevadas altitudes, sem a coca não teria existido civilização nos Andes. Por outro lado, o seu processamento para conversão em pó cujo uso gera não só dependência como transtornos da personalidade e aumento da crimi-nalidade, merece, no mínimo, uma atenção mais forte por parte dos governos, que lidam com o problema como uma batata quente, jogando de uma mão para a outra.

A toda hora lemos notícias de apreensões, de forma aleatória e isolada, na base da denúncia “anônima”. A impressão que temos é que os infelizes desavisados são denunciados pelos mesmos que lhes venderam a droga. Acham que podem entrar de gaiatos no navio, ficam pensando que o Castelo do Drácula dá passaporte pra Disneylândia.

A atração que o narcotráfico exerce parece ser inevitável para algumas pessoas, sem distinção de classe social, faixa etária e ramo de atividade. Dinheiro ganho sem obrigações com o fisco é o paraíso para pseudo-empresários, políticos ines-crupulosos, e outros; é saída para trabalhadores e desempregados que querem consumir e não têm dinheiro.

Mas o assunto ainda é tratado como tabu. Ora, desde que os homens existem na terra e que trabalham, também produzem substâncias para se entorpecer com as mais variadas finalidades. Algum anestésico Deus deve ter dado a Adão para poder retirar sua costela e fabricar Eva, condenando-a depois a parir com dores, negando-lhe a anestesia. Quando Prometeu, da mitologia grega, roubou o fogo dos deuses para dá-lo aos homens, teve como castigo ficar acor-rentado a uma rocha e ter seu fígado bicado por uma águia todos os dias, que se regenerava durante a noite, e assim sucessivamente, até Zeus apiedar-se dele. Desde então, os homens passaram a roubar tudo de Deus, inclusive os anestésicos e hoje, a mulher não pare mais com dores.

O haxixe é muito difundido no oriente e norte da África, produzido com as inflorescências da Cannabis Sativa ou Cannabis Indica, a maconha. Na religião hindu é considerado presente dos deuses. Os shaivas, devotos de Shiva, o fumam em cachimbos para meditação e elevação espiritual. Na mitologia hindu conta-se que Shiva, um dos deuses da tríade sagrada, ao chegar a um banquete preparado por sua esposa, Parvati, babou ao ver tantas delícias e de sua baba surgiu a  Cannabis indica. Interessante que eles, os religiosos da tradição hinduísta não usam alho nem cebola como tempero porque esses condimentos aumentam o apetite sexual. Eles costumam usar gengibre, açafrão e outros.

O Soma, bebida sagrada entre hindus, não se sabe até hoje de que é feita, provavelmente de um cogumelo, causa efeitos semelhantes. Os indígenas do México e Guatemala, pré-colombianos, usam a mescalina, também extraída de um cogumelo. O ópio na China, o San Piedro no Peru andino, a ayausca, na Amazônia Legal, são outros exemplos. O uso de entorpecentes é uma questão histórica, humana, cultural e precisa ser entendido em sua complexidade, antes de tudo.

Na nossa cultura o katchup é uma droga, causa hiperacidez estomacal, coca-cola é outra droga. Tudo que se consome nos supermercados são drogas da indústria química alimentícia, com efeitos devastadores em longo prazo. E a droga maior de todas parece ser o automatismo da máquina. Sexta à tarde a cidade fica em polvorosa, todo mundo sai da máquina e corre para os bares, beber cerveja, inventada pelos escravos egípcios para se entorpecerem de tanta exploração. Nunca haverá trabalho com exploração sem a embriaguez como consorte.

Em alguns países as drogas são liberadas para venda e os impostos são recolhidos. No caso do Brasil, católico na origem, e evangélico ao nível das massas, esse tipo de solução seria impossível. Mas é uma afronta, para nós, a quem o Leão controla centavo a centavo, saber de tanta dinheirama livre do fisco. E pior, mobilizando a criminalidade e a violência.

Penso que algum tipo de frouxidão nos mecanismos de repressão e policiamento dos costumes precisa acontecer. Uma edição da Veja, deste ano, que li num consultório, traz reportagem sobre o fato de que os adolescentes homossexuais estão assumindo sua opção para a família e colegas de escola, de modo que o tabu desvaneceu e com ele o preconceito. Os drogados, pelo fato de se esconderem, ficam paranóicos, passam a ver amigos nos inimigos e a tratar como inimigos os verdadeiros amigos. É preciso que eles possam falar sobre. E depois, são iscas ambulantes as quais os peixes não querem morder. Todo caçador que se preza busca a caça onde ela vai comer.

No entanto, a repressão nunca foi e nunca será a solução. Os presídios estão lotados de pessoas, de ambos os sexos, de diversas idades que são, na realidade, dependentes químicos, a mercê de doenças infecto-contagiosos, de criminosos de outro tipo e, provavelmente com possibilidade de acesso à droga. Quando liberados, voltam ao mesmo círculo vicioso.

Existe ainda aquela idéia tola de que tal fato jamais ocorrerá “em minha família”, só na dos outros. Famílias que murmuram e condenam aquelas que têm um membro drogado. Quando se dão conta a erva daninha também entrou no seu lindo jardim.

O problema é que os filhos de pais ricos seguem para as clínicas fora do Estado e isso é um luxo, às mães dos pobres só resta olhar os hematomas quando os visitam no presídio, já que seus filhos  passaram também a assaltar, aliciar e até a matar, pela droga.

É preciso novas estratégias, fomentar estudos, elaborar perfis, sintomatologia, danos colaterais, antídotos, enfim, tratar o tema como matéria médica, contemplando os aspectos sociais, econômicos e culturais. E, preparar melhor as famílias mais vulneráveis. O Estado bate e assopra, manda o cacete nos pobres e paga os bons samaritanos para aconselhamento.

 

 

 

Assuntos desta notícia

Join the Conversation