A doce e amarga vida de leitora

Meu olhar saltou e por alguns milésimos de segundos demorei a processar a manchete bem ali, a minha frente, na página aberta da internet: morre o escritor português José Sa-ramago, esta manhã, em sua casa, na ilha de Lanzarote. Eu achava que ele era eterno, que não morreria. Pousei meus olhos na alta prateleira, em busca dos títulos de Saramago, entre os romances que sobreviveram  aos empréstimos, coisa que no Acre é uma questão de alto risco, para eles, primeiro,  porque as pessoas pedem emprestado, mas, não lêem, segundo que, por não lerem, no todo ou em partes ou de maneira nenhuma esquecem-se dele e principalmente do fato de que não fizeram o esforço de entrar numa livraria – que no Acre só sobrevivem, por sua vez, às duras penas, da movimentação das vendas de didáticos, uma vez por ano – para comprá-lo.

Estava lá, o Evangelho Segundo Jesus, comprado em março de 1992, de José Saramago quando tive a surpresa de entrar em um universo inusitado com um estilo incomum. É certo que o emprestei, uma ou duas vezes, algo que me custou um pouco de insônia, mais pelo receio de vir a esquecer para o quem o havia emprestado. Há quem proteja suas jóias, eu protejo meus livros.

Coisas absurdas já me aconteceram, como o fato de ter emprestado um livro de realismo fantástico que amava ler e reler, para uma amiga, sendo que,  meses depois, quando o pedi de volta ela me deu um exemplar recém-comprado, confessando que não me devolveria o mesmo livro, o meu, porque estava cheio de anotações minhas, nas margens das páginas, à grafite. Um tipo raro e estranho de afeto, e, eu nada pude fazer a não ser ficar muito desapontada. De outra feita, outra “amiga” levou vários livros emprestados, da minha casa, e tendo brigado com o marido, músico, despejou seus instrumentos de cima da ponte, sobre as águas incultas do rio. Para vingar-se, ele fez o mesmo com os pertences dela, levando junto os meus  pobres livros, inocentes.

Gosto de indicar livros, de emprestar ou dar de presente quando presumo que essa ou aquela leitura tenha a ver com essa ou aquela pessoa das minhas relações. Ganho livros de presente, até mesmo uma coleção inteira, dos prê-mios Nobel de literatura até 1977, de uma funcionária da prefeitura que me conhecia só de vista e estava se desfazendo de coisas. E se alguém me dá de presente um Saramago, é porque me conhece bem.

O que torna um escritor grande é a sua vasta cultura o modo como recorta a realidade e a interpreta de um modo pessoal, com estilo, defendendo teses, muitas vezes. Sara-mago em algumas obras apresenta uma reinterpretação instigante das sagradas escrituras, fato esse que lhe custou o auto-exílio e notas de repúdio por parte do Vaticano. Vendeu milhões de livros e foi o único escritor português a ganhar o Nobel de Literatura. Não posso comentar Caim, um dos seus recentes livros publicados no Brasil, porque ainda estou com ele a dar voltas e voltas na minha cabeça.

Saramago não é leitura para quem se apega demasiado às suas crenças e sente muito orgulho pessoal. É para quem sabe que por mais que se faça, por mais que se realize, existirá sempre à espreita o mistério insondável da existência, o “nada sei, nada sou” essa  sensação de estranhamento no mundo.
Em O Evangelho Segundo Jesus ele narra a velha história de José e Maria, desde a concepção de Jesus até o sacrifício, tomando-os como personagens, demasiado humanos,  com suas inquietações, sujeição às leis e costumes da época, em sua simplicidade e extremada pobreza, com suas vozes interiores, seus monólogos, sonhos e infinitas solidões.

“Não sou anjo de perdões”, é uma frase proferida pelo anjo – que acompanha todo o processo desde o início – para Maria, quando esta lhe pede que perdoe José que,  ouvindo a conversa entre soldados romanos, soube que o pestilento Herodes, louco e sanguinário tinha dado ordens para que matassem todas as criançinhas abaixo de três anos, na pequena cidade de Belém, correu esbaforido até a cova onde se encontrava Maria e o recém-nascido Jesus, abafando o fogo com terra, escondendo-se na escuridão, enquanto ouvia os gritos dos outros pais vendo as lâminas dilacerarem seus rebentos.

José, o bom carpinteiro, obediente e curvado aos anciãos da sinagoga, passou a sofrer de pesadelos noturnos, quando via, a si mesmo, vestido de soldado romano saindo a matar o próprio filho. Sua alma estava perdida, para sempre, ou melhor,  a possível paz que havia nela, num desacordo flagrante entre a moral que procurava ostentar em seu cotidiano e lida, aprendida na sinagoga e sua atitude em não ter ido avisar os outros pais para que fugissem com suas crianças para o deserto.

Saramago, comunista, narra a conversa tida numa barca, em meio ao nevoeiro, entre Jesus, Deus – vestido de judeu rico – sentado na proa e, o Diabo, que se travestira de pastor e anjo, por todo o romance, sobre a necessidade do sacrifício de Jesus porque o Deus dos judeus que preside as três grandes religiões monoteístas, não mais queria ser Deus de um povinho só – metódico, a seguir as tradições e avesso à inovações, a sacrificar suas vacas, ovelhas, rolinhas, conforme as posses, nas sinagogas – e sim o Deus do mundo todo. Embora, ele, Deus, que sabe de tudo que aconteceu e de tudo que ainda está para acontecer, já se mostrasse constrangido por já saber daquele Deus tardio, Alá, dos maometanos.

Jesus indaga a Deus: se  eu vir a sofrer tortura e morte infame, depois de propagar que sou teu filho e tu, o único Deus, haverá paz e glória na terra?Como se quisesse saber: valerá a pena? Deus, reluta em responder,  passando em seguida a discorrer sobre longuíssima relação de centenas de milhares que morrerão queimados, esfolados vivos, esquartejados, por causa de Deus, pela construção da Igreja Católica, pelas Cruzadas, pela Inquisição, seja depois, pela intolerância e guerras religiosas como vimos nos dias de hoje.

O Diabo, cuja aparência, no livro, parece irmão gêmeo de Deus, pede que se mude a ordem dos acontecimentos, quer ser perdoado, retornar às hostes celestes, de onde foi expulso, ele, Lúcifer, o anjo caí-do, devido à inveja, o suficiente, para se evitar tanto horror, dor e sofrimento na terra. Deus responde que não, afinal, sem ele, o Diabo, ele não teria razão para ser Deus. Da mesma forma como todo homem é pecador, sendo o pecado, a outra face da moeda. O fulcro da obra é a dialética oriental: “toda face tem um dorso, quanto maior a face, maior o dorso”. O mal e o bem nada mais são que a ausência um do outro. Saramago é um ficcio-nista original, que se permitiu ressaltar as incongruências do Antigo Testamento.

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