Chico Xavier

Eu vi o filme Chico Xavier e saí com uma sensação nítida de que tinha um irmão na terra a quem eu não conhecia, o próprio. E uma visão mais clara do que vem a ser o espiritismo. E ainda, um traço de orgulho nacional pelo desempenho magistral de Toni Ramos, Ângelo Antonio, Nelson Xavier, Cristiane Torloni e Cássia Kiss. É óbvio que o filme não poderá ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro porque a Academia de Hollywood é nicho de judeus e a sociedade norte-americana protestante na origem. Poderá ser premiado em Cannes, pois, a França é menos dogmática e país de Allan kardec, o sistematizador da doutrina espírita.

Alguma coisa eu já sabia acerca do espiritismo como o viés cienti-ficista ao modo do século dezenove, quando os homens estavam empolgados com o progresso, a invenção da locomotiva e outros. E, que a invasão do Egito, por Napoleão Bona-parte, propiciou uma onda de egiptologia na França, com destaque para as teorias de reencarnação e transmigração de almas. E que o francês Allan Kardec passou a fazer uma investigação científica sobre fenômenos tipo deslocamentos de objetos além da física a par com o fato da mediunidade, em localidades dos  Estados Unidos, a partir de relatos que teria recebido.

E que na base de todas as religiões existe, de forma clara, a comunicação entre os viventes e o outro mundo de onde se originaram as respectivas mensagens com suas teorias e códigos morais. Moisés ouviu a voz de Deus no Monte Sinai, Maomé recebeu visitas do anjo Gabriel, o mesmo que anunciou à Maria, mãe de Jesus, a imaculada concepção. Entre os povos indígenas, é o pajé aquele que realiza a comunicação com o mundo dos espíritos. Irineu Serra, siste-matizador da doutrina do Santo Daime, também conversou com uma Deusa a qual ele chamou de Santa Clara e também ouvia espíritos. O papa, nomeado como o santo pontífice tem essa prerrogativa de personificar a ponte entre o mundo dos humanos e Deus.

Para mim ficou claro, após ver o filme, a razão pela qual os espíritas atribuem  à doutrina que praticam, propagam e estudam, o cumprimento da promessa de Jesus quando anunciou que enviaria, para todos, o Consolador. A psicografia, uma espécie de canal de comunicação com os desencarnados, através de uma pessoa qualificada como médium, é uma evidência de que a morte não é o fim ou aniquilamento, de que existe outra dimensão onde as pessoas que já faleceram se encontram, em diversas situações, conforme o caso. O filme, que é baseado na história de vida e testemunhos da atividade espírita de Chico Xavier, enfoca a transformação que se opera nas pessoas quando têm, por meio das cartas psicogra-fadas, evidencias de que seus entes queridos, já falecidos, continuam sua jornada em outra dimensão. A ciência, baseada na materialidade, ainda não conseguiu atestar nada disso.

Luc Ferry, filósofo e ministro da educação na França no início desta década, fala que o grande problema da humanidade sempre foi o confronto com a idéia de que morreremos todos, cada um ao seu dia e hora. E que esse problema é tratado de formas opostas pela filosofia e pela religião. Ambas, contudo, buscam uma espécie de salvação, que para a filosofia consiste em adquirir liberdade de pensamento e expansão de consciência ao ponto de aprender a morrer, ao passo que pela religião busca-se a salvação através de um outro, Deus, pelo caminho da fé. Leiam Aprender a Viver, filosofia para os novos tempos, publicado pela Editora Objetiva do Rio de Janeiro, do referido filósofo.

Segundo Luc Ferry, para os antigos filósofos gregos existe uma inteligência divina que regula a natureza e que precisamos aprender a viver de acordo com ela, de tal modo que saberíamos morrer chegando a hora, por compreendermos que dissolvidos, por assim dizer, em átomos,  retornaría-mos ao cosmos, sendo essa a concepção deles de vida eterna. Aceitar a própria dissolução de forma cons-ciente como um retorno ao cosmos era o objetivo dos filósofos gregos. Desse modo ele explica também porque o cristianismo desabou o edifício da filosofia grega com a sua promessa da continuidade da pessoa, em si, no outro mundo, bem como a possibilidade de reencontrar-se com seus entes queridos. Fato é que uma vida inteira não deve ser suficiente para estudar e compreender o esforço intelectual dos doutores da Igreja Católica para construir esse monumento colossal que é o cristianismo.

Há um ditado popular que diz haver mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia. Mas fato é que toda teoria funda um código de moral e ética. O cristianismo nascido da leitura e interpretação dos evangelhos preconiza, antes de tudo, o amor ao próximo. Em todas as manifestações religiosas nascidas dessa fonte comum, isso é incontestável. Os católicos buscam a comunhão universal. Irineu Serra alertava para a necessidade de se manter o centro livre, ou seja, a região do plexo solar onde está localizado o coração, sede das emoções e sentimentos, deve estar livre dos entulhos do ressentimento, do rancor caso se queira a felicidade e o bem comum. As religiões sinalizam, mas, o tráfego humano na terra é uma profusão de desastres.

A existência de Chico Xavier foi de completa vivificação dos ensi-namentos contidos nos evangelhos, de renuncia total pelo bem do próximo, atendendo aos chamados do plano que estava posto para a sua vida ao qual ele não tentou fugir nem duvidou em nenhum momento. Não há apologia a dogmatismos, fanatismos, preconceitos e aversão as outras religiões, em formas de existência como a de Chico Xavier onde a fé aparece combinada com renúncia e sacrifício. O mesmo se configurou com os santos católicos, como Santa Tereza de Ávila e São Francisco de Assis. Com sua humildade típica, Chico Xavier disse de si mesmo: “eu sou apenas um carteiro”. Ele psicografou milhares de cartas e trouxe consolo para milhares de lares. Ele que, na infância, órfão de mãe, foi duramente humilhado e espancado pela própria madrinha de pia batismal, a quem foi confiada a sua guarda.

O filme é impecável, envolvente, empolgante, sutil, como se uma linha mestra conduzisse, de forma subliminar, as imagens e as respectivas emoções direto ao coração. De modo que a compreensão do que foi a passagem de Chico Xavier na terra traz do fundo do poço para a luz, transborda o coração de ânimo e força. Afinal o que nos deprime são os maus exemplos. Um soldado sérvio obrigou um infeliz avô a comer o fígado de seu neto ainda com vida. Há pessoas que planejam de forma consciente, fazer tanto mal quanto possível ao seu próximo. A história é um palco sanguinolento de sofrimentos causados pelos homens aos seus semelhantes. As pessoas só conseguem afirmação pessoal e fama, na maioria das vezes, a custa da eliminação do outro. Chico Xavier é uma ilha nesse oceano de maldade.

 

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