Sobre o destino comum

Eu ouvi, esta semana, parte das entrevistas feitas aos candidatos a governo, no programa da Eliane Sinhasique, impressas, em seguida, neste jornal. A idéia de Bocalom sobre incentivar a produção de soja no Acre me pareceu bastante sensata pelos seguintes aspectos: já existe produção de soja, em grande escala, em nosso Estado; segundo, nosso país não oferece nenhum modelo alternativo que se possa seguir afora esse de produção em grande escala, para exportação, de um só produto a ocupar áreas extensas.

Mais interessante seria se o candidato apresentasse uma visão mais socialista e ambiental ao mesmo tempo, tipo realizar um planejamento para a produção de soja que envolvesse o maior número possível de pequenos e médios proprietários rurais que detém parcelas de terra sem nenhuma utilização, as capoeiras, por falta de capital e de apoio, em vez de sacrificar mais porções das florestas.

Não há como providenciar exame laboratorial de todos os solos em nosso Estado porque somente a Embrapa dispõe de um laboratório, com ou dois funcionários, não podendo atender demanda tão grande. Mas para a promoção do setor agrícola, seja com a finalidade da exportação, seja para o mercado interno, não é possível planificar sem estudos sobre os componentes químicos presentes e ausentes no solo, seu pH,  possibilidades de irrigação, formas de combate às pragas, entre outros.

Não existem técnicos agrícolas em número suficiente para tanto, um segundo problema, o que demanda a instalação, de imediato, de escolas de técnicas agrícolas para dar início à formação dos adolescentes que moram em meio rural, havendo, para isso, engenheiros florestais e agrônomos sendo formados, pela Ufac, todos os anos e que podem atuar como faci-litadores nessa aprendizagem. Sem prejuízo para esses jovens no tocante à aprendizagem das demais disciplinas do ensino básico. Em razão de um novo olhar que eles passarão a ter para com a terra onde sua família habita e labuta. E não serem estimulados a se evadir para a periferia da cidade e cair nas malhas do narcotráfico.

A soja é matéria-prima para vários derivados da indústria alimentícia e o Governo bem que poderia, ainda, atrair fabricantes de óleo de cozinha para o Acre, por exemplo. Havendo produção de soja, de forma planificada, poderá surgir também produção de arroz e feijão, em grande escala. Mais importante ainda é que a convergência dos interesses para a produção agrícola, de forma significativa, pode diminuir a pressão sobre as florestas, tornando produtivas as áreas já degradadas que são vastas. É nesse sentido que deve ser pensado um grande projeto de incentivo ao setor agrícola e não com a predisposição a desmatar, como o candidato Bocalom pareceu demonstrar.

E depois, a conservação das florestas não depende mais de decisões de governos locais. A Amazônia é estratégica para a sobrevivência do planeta e todos os países do mundo estão com seus olhos voltados para ela. Quaisquer incentivos a desmatar para exportar madeira atrai concorrência, contrabando, exploração ilegal, protecionismos e tudo o mais que não presta.

Sobrevoar Manaus é assistir a um dos maiores espetáculos da terra, a visão do paraíso verde, com a floresta verdejante cercada de águas, lado a lado com o inferno urbano. Na Universidade Federal do Amazonas não é possível caminhar a pé, pois os blocos estão espalhados em meio à floresta e o acesso tem que ser de ônibus ou de carro. Mas tudo isso só é possível porque a Zona Franca fez convergir todas as forças produtivas para a indústria de eletrônicos, de maneira que não existe pressão sobre a floresta. Mesmo assim, anos atrás, acompanhei, pela TV os acalorados debates entre Artur Virgílio e Mercadante porque este queria acabar com  a Zona Franca de Manaus para fortalecer a indústria de monitores de São Paulo.

Eu não sou economista, mas não vejo ninguém melhor qualificado vir a público debater, apresentar propostas de forma sistêmica, coerente e organizada, o que é uma coisa muito inquietante, diga-se de passagem, ainda mais quando estamos às véspera das eleições e o nosso destino comum pode ficar comprometido de forma irremediável.

A idéia de Tião Viana de trabalhar para diminuir as desigualdades sociais é muito bem-vinda, precisa dizer, nos próximos debates e, ou entrevistas, como pretende fazer isso. Mesmo porque sendo o que apresenta melhor currículo, pois é um cientista, tem maiores possibilidades de enfrentar todos os problemas que vêm por aí, em especial com a conclusão da estrada para o Pacífico.

Eu também achei pertinente a proposta de Rodrigo Pinto de vir a ser criada uma Universidade Estadual. Não há possibilidade de ampliação de vagas na federal e existem muitas famílias sobrecarregadas com pagamento de mensalidades para a faculdade dos filhos, afora todas aquelas que não têm possibilidade nenhuma. A universidade precisa ser fortalecida no campo da pesquisa nas ciências da natureza que não recebe verbas do Governo Federal e depende de agências financiadoras estrangeiras ou empresas privadas, com recursos apertados, esporádicos, sem condições de avançar porque não existem laboratórios nem recursos substanciais. Precisa ser desonerada desse encargo de formar pessoal para o Estado, papel que vem exercendo há quarenta anos, como uma fabriqueta e tornar-se um centro de excelência na pesquisa científica de produtos da floresta não madeireiros, por exemplo.

Eu não tenho preconceitos contra esse ou aquele candidato, penso que é um direito legítimo, comum a todos, o de concorrer a um cargo eletivo. O problema é que não podemos mais nos dar ao luxo de permitir que pessoas despreparadas cheguem ao governo, mesmo porque estamos à beira de uma hecatombe social que resulta da falta de uma planificação na economia que garanta oportunidades para um maior número possível de pessoas. O que afeta a um, afeta a todos, hoje sou eu, amanhã é você, a sofrer danos pela ação de pessoas marginalizadas, desesperadas, destituídas de valores morais, mesmo porque a moral fica fragilizada quando há tantos maus exemplos conjugados com a falta de dinheiro. Se aqui habitamos temos um destino comum e a responsabilidade deve ser compartilhada.

Assuntos desta notícia


Join the Conversation