Dias de folga (!?)

Li, nestes dias, nas Gazetinhas, que “trabalhar demais faz mal à saúde”. Não sei se o Silvio estava de brincadeira ou ironizando os “trabalhadores” organizados em categorias que vivem em constantes greves, trazendo caos à cidade de Rio Branco.

Entendo que o dia de descanso (domingo) bem como qualquer outro dia de  folga, no calendário mensal, é uma oportunidade dada ao cidadão que trabalha, é claro, de recarregar as baterias, através do usufruto de uma reflexão espiritual, como remédio para a pressa, o estresse e a secularidade da vida moderna, ou que se divirtam, num lazer salutar, junto a familiares e amigos. No entanto, na prática, o que se vê é o uso desordenado desses feriadões prolongados. O que pontifica, infelizmente, é o consumo desenfreado de drogas e bebidas alcoólicas, causando acidentes automobilístico, assassinatos terríveis e tudo mais em mazelas sociais.

O que torna óbvia a assertiva de que muitas pessoas não estão sabendo tirar proveito da folga de suas atividades profissionais, em benefício da vida e do bem-estar social. Isto é, muitos não sabem utilizar o lazer de modo construtivo. Em muitos aspectos somos uma sociedade que perdeu o significado e a arte do verdadeiro lazer. Nas últimas décadas, o caráter coletivo, a ética e a consciência pública das pessoas têm sido desgastados cada vez mais pela mídia pública e a indústria do entretenimento. Então, já no segundo dia desses intermináveis feriadões, dá aquele tédio que termina num aborrecimento generalizado.

 Arnold Toynbee (1889-1975), no passado, já antevia esse desastre: Acredito, dizia ele, que a questão essencial consiste em saber o que as pessoas farão com o seu tempo de folga. A grande maioria de nosso povo, alerta o eminente historiador, não está emocional e ou psicologicamente pronta para dispor de tempo livre. Passam quase o tempo todo vendo televisão ou disputando jogos eletrônicos. O alerta, em outras palavras, se consuma nos dias atuais em que são visíveis as mazelas oriundas de mentes e corpos ociosos. Hoje, mais do que na época de Toynbee, o crescimento rápido do entretenimento despudorado produz mais crimes, mais destruição de lares, mais problemas psicológicos do que poderíamos imaginar.

Outra reflexão hipotética sobre o assunto é: se a classe média cada dia mais empobrecida, em função do arrocho tributário que assola o Brasil, “provocado pelo desemprego, pela onda de terceirizações e pela deterioração dos salários” reduz o seu consumo de lazer e entretenimento, o que se pode esperar da massa que só dispõe, e quando dispõe de um aparelho de tevê ligado em canal aberto, de segunda-feira a domingo, com as suas programações apelativas. O povo em geral só é refém dessa “cultura de entretenimento” definida como mercadoria empacotada, única e exclusivamente pela ausência de oportunidades no campo: da educação; da mão-de-obra especializada; do emprego fixo e de salários dignos (para não citar outras injustiças sociais). Em função disso, já é possível ver o potencial de crime entre nós, ao examinarmos o vandalismo, o banditismo da juventude desocupada, nos quadrantes da cidade de Rio Branco.

O funcionário público municipal assassinado a pauladas, neste último fim de semana, por dois jovens desocupados, que se dizem usuários de drogas, é um exemplo crasso do que afirmo.

A aparente conquista por melhores salários e menor carga horária de trabalho, conseguida através de décadas de luta, por milhões de pessoas no mundo inteiro, visando um bom lazer, tempo para a família etc., começa a ruir em função da má utilização do tempo disponível.  Muitos não encaram isso como um problema, mas os psicólogos, psiquiatras e sociólogos estão começando a compreender que a questão poderá ser o principal problema psicológico das futuras gerações. Se tais previsões vierem a efetivar-se na prática, a vida logo se tornará, virtualmente, uma seqüência só de divertimento sem qualquer trabalho. Que faremos, então, com todo esse tempo disponível? Alguns têm proposto que devemos repensar a natureza e o propósito das férias. Outros acreditam, como enfatizamos acima, que devíamos olhar as “folgas” como oportunidade para descanso e renovação genuínos e, assim, como meios para restringir a “impulsão” individual e da sociedade engendrada por uma ética de trabalho que se tornou imprópria.   Mas, o melhor conselho, é ainda o de Shakespeare: “Se todos os anos fossem de férias, divertir-se passaria a ser tão aborrecido quanto trabalhar”.

 * Francisco Assis dos Santos é professor e Pesquisador (de gabinete) em Filosofia e Ciências da Religião. E-mail: [email protected]

 

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