Artesão usa a própria casa para auxiliar seringueiros doentes

O local é de difícil acesso. O asfalto da rua principal logo acaba e tem início uma sequência de ruas de chão de barro. Procuramos pela casa de número 59 da travessa Cancão de Fogo, bairro Taquari. O simples mencionar do nome do morador é suficiente para arrancarmos da vizinhança as dicas necessárias para chegar ao endereço.
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Perguntamos pelo artesão Edivaldo Paz, o homem que transformou a própria casa em abrigo para famílias oriundas dos seringais que buscam tratamento de saúde na Capital ou estão de passagem para outros estados, também em busca de cura.

Filho e neto de seringueiros, Edivaldo decidiu trabalhar em prol dessas pessoas depois que fez uma visita à Reserva Extrativista Chico Mendes, em Xapuri, onde acabou morando por quatro anos. Durante o período em que ficou lá, ministrou cursos de artesanato e atuou na prevenção de doenças, utilizando seus conhecimentos na área de saúde.

“Quando eu já estava de volta a Rio Branco houve uma epidemia de leishmaniose dentro da reserva. Por se tratar de uma doença que precisa de cuidado permanente, os seringueiros tiveram que vir para a Capital e tinham a minha casa como referência, assim começou tudo”, lembra.

O projeto já dura 14 anos. É tocado junto com a esposa Rosélia de Aguiar. Os filhos – 18, 14 e 4 anos – também abraçaram a causa. Trata-se da Casa de Apoio e a Saúde do Seringueiro. A construção é em alvenaria e não pára de crescer. Novos cômodos vão sendo agregados conforme a disposição de recursos.

O sonho de Edivaldo é construir um alojamento com 100 dormitórios para oferecer mais conforto às famílias que se abrigam no local. Espaço não falta. O terreno é enorme, cercado de vegetação, bem característico aos localizados na zona rural.

O projeto já está pronto e pelas estimativas preliminares deve custar em torno de R$ 150 mil. Montante que Edivaldo admite não ter, mas acredita ser possível dar vida a esse sonho através de trabalho e a ajuda da comunidade.

Atualmente, cerca de 35 pessoas estão abrigadas na residência do artesão. Para acomodar tanta gente, ele e a família abriram mão do conforto e da privacidade e passaram a viver nas mesmas condições dos hóspedes. Os três filhos dormem numa única cama e o casal num pequeno quarto nos fundos da casa.

“Eles nos apóiam e gostam de ajudar, não se importam de terem que dividir apenas uma casa”, garante Rosélia. Segundo ela, a família já se adaptou completamente a nossa situação e luta unida para que o projeto prospere mais ainda.

 José da Silva: um hóspede especial
Um dos moradores da casa é o José da Silva, 56 anos. Ele foi deixado no local há cinco anos pela própria mãe e em virtude do falecimento dela, três meses após o abandono, acabou ficando de forma permanente.

Em decorrência das necessidades especiais, José tem um quarto só seu. Fica de vista para a sala de entrada, de forma que ele possa visualizar todos os visitantes, como ocorreu com a nossa equipe. Para Edivaldo, ele já faz parte da família.

A alegria de estar no local é logo demonstrada através de um belo sorriso. Não há hóspede ou visitante que não se contagie com a vontade de viver de José, que por causa das limitações físicas precisa do auxílio de uma cadeira de rodas para se locomover.

Elisângelo Lima: em busca de cura para filha
Elisângelo Lima, 26 anos, é oriundo de Cruzeiro do Sul.  Ele está na Casa de Apoio há pouco mais de uma semana. Veio junto com a filha Kariane, de apenas dois anos. A menina tem um problema de nascença no coração e aguarda autorização do Departamento de Tratamento Fora de Domicílio (TFD) para seguir viagem até Goiânia (GO), onde passará por cirurgia.

A doença é rara – conhecida vulgarmente com furo no coração – a partir de um toque no peito da criança é possível sentir que o seu coração bate de forma diferente das pessoas normais. Apresenta um barulho diferente, como se estivesse cheio de ar comprimido.

De acordo com Edivaldo, uma outra garotinha com o mesmo problema, aqui mesmo da Capital, já passou pela Casa de Passagem, e obteve a cura depois de realizar uma cirurgia em Goiânia. Elisângelo está otimista e espera poder voltar logo para casa e reencontrar os outros dois filhos.

Sobrevivendo através da arte
Parte da alimentação consumida na Casa de Apoio é doada pelo Projeto Mesa Brasil, desenvolvido pelo Serviço Social da Indústria (Sesi). O restante é comprado a partir das vendas dos artesanatos produzidos pelos moradores.

São bio-jóias, animais em semente, bola ecológica, bolsas, camisetas e uma variedade de artigos de decorações. As pessoas ou entidades interessadas em aprender a confeccionar os produtos podem contratar Edvaldo para ministrar o curso, que varia de R$ 10,00 a R$ 100,00.

Ele também trabalha através de parceria com escolas. Ele ministra o curso para os alunos e recebe doações como agradecimento. Quem tiver interesse em contratar os cursos ou mesmo de ajudar a Casa de Apoio e a Saúde do Seringueiro pode entrar em contato pelos telefones 9964-2153/9964-1287 ou se preferir pode fazer uma visita diretamente ao endereço já mencionado no início da reportagem. 

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