Entre negrinhos e negrões

Éramos um bando de negrinhos retintos, tisnados, tizius, bem mais acima de marrons, quase azuis. Íamos e vínhamos, de cá pra lá e de lá pra cá, quase incessantemente, do nascer ao por do sol, sim, porque à noite havia zoada de zabumba, sanfona e pandeiro. Os mais velhos se animavam e dançavam e cantavam Barracão de zinco pendurado no morro, tradição do meu país… Os demais, de oito a quinze ou dezesseis de idade, ficavam olhando e sonhando com o dia em que teriam como par numa dança a Idaléia, ou a Lurdinha, ou a Marissanta, ou a Zeneide, dentre outras meio beldades das redondezas.

Namorávamos de longe com as do nosso tope. Dizia-se muito, mas um beijo sequer que fosse não havia. As mocinhas eram muito desconfiadas, porém bonitas para as nossas preferências pouco exigentes.

Compúnhamos uma tropa de dez a doze, entre negrinhos e negrões, dependendo do final de semana. Se fossem os dias da paixão e morte de Cristo, a programação era maior, considerando-se o terço rezado nas noites da quinta e da sexta. O feriado do Dia das Mães era de muita folia porque só voltávamos para casa na segunda-feira pela manhã, às cinco.

Se era inverno, juntavam-se até mais meninos e meninas. Lá de casa íamos eu, o Motinha e o Jorge, este ainda bem pequeno, mas sob os cuidados da Neurides, da família de lá, que morava em nossa casa, na cidade, para estudar no Colégio Divina Providência. No velho sítio, denominado Colônia, encontrávamos à nossa espera a Tereza, a Marlene, a Maria Pelé Ferreira, o Valdir, o Negão, o Mauri, o Manoel, o Zé Ferreira Pelé, o Chiquim Tapirema e o Baco. Às vezes, também os meus pais iam. Os pais deles  –  Constância e Jaime, este denominado pelos próprios filhos Coronel – encarregavam-se da organização geral. E não havia quitutes, a não ser nos dias mais significativos, quando sabo-reávamos macarrão com queijo ralado e costeletas de porco, com os cuidados de praxe para não estragar a barriga.

No geral, era bóia mesmo, na base do ovo com arroz ou com torresmo ou com macaxeira e mais leite de gado e tapioca e pão de milho, isto, pela manhã, às seis do sábado, uma vez que chegávamos na sexta à tardinha.

Encastoávamos os anzóis, arrancávamos minhocas e íamos, em grupos, para o igarapé. As meninas não iam. Uns seguiam para o rumo de cima. Outros para mais abaixo, outros para bem longe e assim por diante. Nas cabeças encarapinhadas, sem medo de ser feliz, cedinho, esfregávamos sabão em barra do tipo Coqueiro, aquele rajado, o nosso shampoo, para que, às onze, sob sol a pino, quando estivesse concluída a pescaria,  pudéssemos lavar os cabelos que já estavam na casa do sem jeito; eram muito ruins mesmo, do pixaim para o quase ou para o pior.

Metíamos as mãos em locas de onde retirávamos traíras, muçuns e até cobras que eram mortas a terçado. Fazíamos seis ou oito enfieiras de peixes  –  a maioria caícos, peixes pequenos, como o cará, o jiju, a piaba, dentre outros  –  e voltávamos prontos para fritá-los, com tripa e nó, mas misturados à farinha da boa.

A horda, antes silenciosa para não espantar os peixes, quando chegava ao poção, o ponto final da pescaria, transformava o igarapé num lamaçal, tal o furdunço feito. Alguns maiores, à força, pegavam os pintos dos menores e saíam arrastando-os até que estes dissessem a senha:

 – Você jura a bandeira, seu cabra?

– Sim. Eu juro a bandeira! – Aí eles soltavam a piroca do menor em meio às gargalhadas dos demais.

Algumas vezes, em companhia dos mais velhos e dos adolescentes das duas casas (não a de Grimaldi muito menos a de Orleans), participei da apanha do arroz. Pior é que tal tarefa ainda hoje é realizada, tradicionalmente, ali pelo fevereiro ou início do março, quando as águas não baixam em vista da quantidade enorme das chuvas amazônicas. De lascar, entretanto, é que, no meio de um igapó ou de uma lagoa qualquer, há sempre belos pés do cereal e lá estão também as formigas vermelhas, pequeninas, emboladas com medo da água e prontas para o ataque. Elas entram pelas mangas das camisas compridas e fazem a pele arder devido à mistura do suor com a água estagnada.

A batida do feijão é outra atividade muitíssimo pesada. Para retirá-lo das vagens, o mais forte de todos os alimentos tem, antes, ainda no roçado, as ramas emboladas e colocadas nas cabeças dos tocos para a secagem natural. Depois de seco pelo sol, é levado para o terreiro da barraca, ou da vivenda, onde é colocado em cima de lonas ou de velhos lençóis amarrados em forma de trouxas ou sacos. O papel do velho agricultor, o Jaime de Barros, então, era bater na ramagem seca até que todo o cereal fosse para o fundo do tecido. Aí, a poeira que sai das folhas e vagens senta no corpo suado e dá uma coceira por demais inquietante. Depois, de posse de uma peneira grande, é a vez de peneirar, ou seja, jogar o feijão para cima para que o vento leve o entulho que está misturado aos grãos, no saco… Tudo isso antes de comê-lo, com ou sem o gorgulho.

A irritação da pele é provocada pela russara e é mais ou menos a mesma que vem da palha da cana-de-açúcar. A diferença é que, no caso do feijão, o agricultor está à sombra e, no caso da cana, o freguês está no meio do sol quente executando a primeira fase, a do corte, também muitíssimo cansativa. Há, no entanto, a alegria da hora de ingerir a garapa ou morder a rapadura, esta, elaborada com espe-cialidade da dona-de-casa, a D. Constância, esposa do Coroné. (Pense numa mulher constante, trabalhadeira e ritmada!)

Arrancar macaxeira ainda é outro trabalho e tanto, em vista da dureza do solo especialmente no verão. Mas o transporte é feito sobre o lombo de bois e a fabricação da farinha já é uma festa porque congrega as moçoilas da redondeza.
A casa era de assoalho lisinho, limpo com muito zelo, e paredes de madeira nobre, com uma sala imensa, avarandada, bem ao estilo da colônia, onde ficamos versados na arte da dança do xote, do samba, do forró, da valsa e do bolero, dentre outros. O quintal da vivenda era enorme à cerca do qual estavam a casa de farinha e o paiol. Havia porcos, galinhas, patos, capotes e, no campo, umas cabeças de boi. A plantação de tabaco espalhava-se por todo o terreiro e a renda obtida com a sua comer-cialização, parece-me, valia à pena.

Outra fonte de renda garantida para a grande família dos Ferreira de Barros era o imenso abacaxizal, tratado com cuidado por aquela negritude cheia de sonhos e energia. Àquela época, devido ao tamanho da fartura em meio ao verão, não descascávamos os abacaxis, mas os partíamos ao meio, na vertical, e raspávamos a polpa com uma colher… Dos deuses, principalmente se houvesse a oportunidade de um pouquinho de leite condensado de mistura!

Um dia, então, participei de uma aventura incrível. Da cidade fui para a colônia por um caminho, o mais perto. A volta, no entanto, ocorreu por uma estrada tosca, em uma carroça carregada de abacaxis. Lembro-me de ter saído rumo à cidade às quatro da manhã. O terreno era esburacado e até um tanto perigoso. De manhãzinha, o Zé colocou querosene no eixo da carroça para que fosse produzido um som bem agudo e estridente com o qual ele ficava quase em êxtase. Chegamos à cidade por volta das nove e, em meia hora, todas as duzentas frutas já haviam sido vendidas. Que bom! Na minha terra, em se plantando tudo dá, com a graça do Pai da Criação. (Cabe aqui uma referência triste a esse Zé, o Pelé, bom de bola e de verso, morto de morte morrida nessas andanças da vida com a qual Deus nos presenteia).

Éramos pobres reais, sem nenhum dinheiro, mas respeitando muitos valores, nós, lá de casa, e esses irmãos da Colônia Porto Manso, em Xapuri. Ali foi que aprendi que o divertimento pode nada custar se o espírito não for tão exigente.

Veja que diversão! Andar sobre o Macaco, um boi preto com aparência ainda juvenil, era o máximo. Montávamos nós, uns três ou quatro escurinhos cuja tez se confundia com a cor do pelo do animal. Melhor era que ele, apesar de bem novo, nunca perdia a paciência, e lá íamos nós.

Lembro-me bem o método sobre como os bois eram (são) amansados para o trabalho na agricultura. Amarram-no a uma zorra, uma espécie de carroça sem rodas, e alguém vai fustigando o bicho com um chicote e ele vai arrastando aquela coisa pesada pelo meio do campo e aprende direitinho a fazer a sua parte em uma tarde, e não mais que isso. Se o animal, garrote ou garrota, é fujão, colocam-lhe um apetrecho em forma de uma estrela de três pontas no pescoço que não o deixa ultrapassar as cercas. Se gosta de se esconder com medo do laço, botam-lhe um chocalho que o denuncia no esconderijo. Bom é notar que, realmente, nem a vaca sabe a força que tem… Se soubesse…

Lá também era assim. Numa sexta-feira santa, então, fomos visitar umas vizinhas morenas de cabelos lisos e bem bonitas, numa colônia vizinha. Chegamos lá aí pelas nove da manhã e não encontramos viva alma. O pai, viúvo, tinha-as levado em passeio na casa da avó, na cidade. Um dos nossos, então, aquele que caminhava de volta mais atrás da turma, resolveu mexer com uma vaca parida enorme que pastava solertemente próximo ao portão da casa. A bicha já saiu no nosso rumo aceleradamente e nós metemos o pé na carreira através de um caminho que era formado por um corredor que servia de limite entre as duas propriedades. Era arame farpado de um lado e de outro. Naquele aperreio, a única alternativa encontrada foi dar um vôo rasante por debaixo do fio mais baixo. Raspei as fuças nas raízes do chão, mas não tomei nenhuma chifrada.

Divertíamo-nos bastante também nas caçadas de baladeira. Matávamos uma pipira, uma maria-chorona, um azulão, um bentevi e mais alguns pássaros menores, e pronto, já estava feita a caçada. Aí pelas cinco da tarde, pelávamos os bichos e os fritávamos em banha de porco para serem devorados na janta com arroz e farofa de tripa de galinha. Uma beleza!

E vinha a hora da pelada. A bola era oficial, de couro legítimo, comprada na Casa Galo. Vinham uns vizinhos e algumas poucas vizinhas e os times mistos se batiam por mais de uma hora, até escurecer. Lá vi o Pelé e a irmã dele, também Pelé, baterem um bolão. Lá conheci muita gente da vizinhança, dentre os quais o amigo Josué Fernandes, hoje desaparecido no fulgor das batalhas da vida comum.

Como sobrava energia, à noite dançávamos ao toque de um grupinho musical formado ali em casa mesmo. Não era nem necessário ter o que comemorar. Comemorávamos, sim, a felicidade e o tempo bom. Em outras oportunidades cheguei caminhar no escuro, na mata, por caminhos íngremes, por até hora e meia de distância, em busca de um bom forró onde o divertimento e as paqueras estavam garantidos.

Domingo à tarde, era a volta para casa e para os compromissos juvenis que resultaram no sucesso de muitos. Minha avó e minha mãe, ansiosas, já me esperavam para que, juntos, assistíssemos à Santa Missa, à noite, quase como ainda hoje.

Agora, estamos dispersos porque os caminhos da vida são assim mesmo, diferentes. Cada um vai por onde Deus acha melhor… Importa, sim, a busca incessante da felicidade.
Beijos e abraços, irmãos!

* José Cláudio Mota Porfiro é cronista de Xapuri.

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