As asas da águia

Uma coisa que sempre me preocupou é a falta de clareza dos candidatos em geral, a cargos de governador e presidente, quando se referem á educação. Aparentemente, o problema se resume a aumento de verbas e durante décadas isso foi mote de lutas e reivindicações, até chegarmos ao patamar de vinte por cento do orçamento para a educação. Quando este é o setor mais importante de toda sociedade,  pois,  o modo como ela permanece sempre a mesma ou promove mudanças. Tanto é que, para todos os educadores, é claro e inegável que a cada geração as possibilidades de mudança são perdidas devido ao engessamento do setor, ao conserva-dorismo das práticas e em especial, das formas de gestão. Muito pior ainda, quando o gestor se diz “apaixonado” pela educação confundindo o seu interesse pessoal em exercer controle no setor com o verdadeiro significado da paixão que, na minha visão, traduz um espírito de euforia e jovialidade.

A compositora chilena, Violeta Parra, melhor que ninguém, traduziu o estado de paixão com a canção “Volver a los diezessiete”,  despues de vivir um siglo…Muito melhor um gestor que não se sinta tão apaixonado e, mais aberto às inovações, menos preso às políticas oficiais e mais aberto às sugestões e experiências daqueles que estão na linha de frente, no caso, os professores.

Os professores são pessoas, antes de tudo, criativas, abertas às inovações e possuem um incrível senso de oportunidade quando têm contato através de publicações as mais variadas que oferecem focos luminosos para a sua prática de ensino. O plano de ensino deve ser tão somente uma base, uma direção, mas as estratégias para a sua execução podem ocorrer em sua mente das formas mais variadas, muitas vezes, através de uma idéia, de uma iluminação que ocorre a qualquer momento, em qualquer lugar, sem um padrão pré-estabelecido. Na minha concepção, o professor é, antes de tudo, um artista. Um artista, também é, por afinidade, um educador, seja no campo da sua experiência quanto às técnicas utilizadas, seja na visão de mundo, na interpretação da realidade que a sua obra induz. Da mesma forma, a cultura, em seu sentido amplo, como o conjunto das suas mitolo-gias, costumes, fazeres, a par com o ambiente na-tural, deve ser o fundamento para toda política educacional e cultural no sentido de se resguardar de forma dialógica, o pluralismo cultural e a singularidade. Pois não pode existir pluralidade sem singularidade.

Outro ponto dessa questão que me angustia é o isolamento do nosso Estado e a sua im-permeabilidade às pesquisas e inovações no campo educacional, a exemplo do que ocorre em estados desenvolvidos, centros culturais por excelência, como Rio de Janeiro e São Paulo.

Há poucos dias, num consultório, folheando uma revista Cláudia de outubro de 2008, encontrei uma entrevista feita por Liliane Oraggio com o terapeuta Roberto Gambini que ouviu e registrou, durante onze anos, quarenta mil sonhos de crianças, na fase da pré-escola, em diferentes níveis sócio-culturais: um bairro nobre da cidade de São Paulo, uma favela, jacarezinho, da cidade do Rio e uma aldeia Camiurá. Ele que era advogado e sociólogo, após uma depressão entrou em contato com a psicologia junguiana, tornando-se terapeuta pelo Instituto Junguiano, de Zurique, estando, hoje, com 32 anos de consultório.

O que tem a ver os sonhos das crianças com a política educacional? Segundo ele, os sonhos revelam o mundo interno das crianças, como lidam com os desafios do crescimento, na relação com os pais e a escola, e também, podem revelar as tendências das crianças. Temos que reconhecer que isso se trata de uma inovação e de um desafio para profissionais da educação. Teremos sempre que esperar cinqüenta anos para o Brasil assimilar as inovações ocorridas na Europa e cem anos para o Acre assimilar as inovações ocorridas em grandes centros do nosso país.

Freud é um dos pontos de mutação da cultura ocidental, apresentou para a humanidade um fato que sempre existiu, mas, que nunca havia sido falado ou nomeado, o de que todas as pessoas representam um duplo: um consciente e um inconsciente. O inconsciente é aquele que produz os sonhos e também motivações, inspirações, intuições e tudo o mais que foge ao controle e à racionalidade. É ele que puxa o nosso tapete quando tudo parece caminhar bem e nossa vida arrumada, dele que vêm certas erupções do temperamento, inclusive. Vá dizer aos chefes de Estado que deveriam empregar psicoterapeutas nos presídios que eles irão lhe olhar com estranheza. O fato é que os presidiá-rios são aquelas pessoas típicas da frase célebre de Jesus: “eles não sabem o que fazem”. E o Direito é positivo, como dizia o velho professor, o que significa que a lei é um muro de contenção que separa a ordem da desordem, quando ambas são sinais de um processo histórico de evolução, quando se sabe que os indivíduos refletem ou reproduzem as boas ou más condições do seu meio.

No filme Excalibur, de 1979, sobre a lenda do rei Artur, baseado na psicologia junguiana, e demorou onze anos para ser finalizado, o jovem Arthur indaga ao mago Merlin: quem é você? E Merlin: “para uns, eu sou um sonho, para outros, um pesadelo”..

Para Roberto Gambini que publicou, há dois anos, As Vozes e o Tempo, pela Ateliê Editora, as pessoas estão, hoje em dia, obcecadas pela ação, mas esta, disse ele, a ação sem conexão, de nada serve. As pessoas podem estar obstinadas com a ação, seja no âmbito do poder, seja no âmbito profissional, seja até mesmo no campo religioso, mas não estabelecem conexão com seu interno, como se vivessem, o tempo todo, voltadas “para fora” para suas projeções de ascensão, fortuna, beleza exterior, presas ao aspecto feno-menológico. Quando o inconsciente puxa o tapete caem no fundo do poço como acontece com a mulher que se esmera em ser a boa e fiel esposa e, de uma hora para outra descobre que o marido possui uma segunda família. Há pessoas que não conseguem se realizar num relacionamento e envelhecem frustradas sem saber que existem livros de Freud e Jung por toda parte e que, com eles, poderiam ter analisado seus problemas de relacionamentos com o pai ou com a mãe e, entendido, afinal, que sempre partiam para um relacionamento projetando ou reproduzindo o modo problemático como se relacionou com seus pais.

O mais interessante na análise de Gambini é a constatação de que estamos todos perdidos em meio aos mitos tecnológicos, aqueles que dizem que “se a comida e a água acabarem teremos que fazê-las artificialmente”; “se o ar ficar irrespirável, criaremos cidades em bolhas”. Mitos que não resolvem, não estabelecem conexão como os mitos genuínos que renovam a nossa coragem para entender a força da vida: “o dragão da maldade persegue a mulher até o fim do mundo, mas a ela foi dado o poder das asas da águia”. Decifre.

 

 

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