Do alto dos saltos

Em nome da governabilidade, o PT deu mais de dez ministérios para o PMDB. Situação mais cômoda, impossível! O PMDB não precisa “colocar a cara para  bofete”, como se diz em linguajar chulo. Para que se expor, se é possível acomodar os seus no governo e,  sua bancada majoritária continuar dando as cartas? Michel Temer é o candidato a vice na chapa de Dilma Rousseff, uma senhora enferma que aceitou contracenar enquanto personagem criada por Lula, um manipulador. Entre os aliados do presidente, Collor de Melo, que foi da Arena, do PDS, do PMDB, do PRN, do PRTB e agora está no PTB. Collor passou oito anos de “castigo” em Miami, onde possui  residência, punido pelos escândalos envolvendo superfaturamentos nesse conluio entre governos e empreiteiras, com uma lista de assassinatos. Voltou senador, presidente da comissão de infra-estrutura do senado, o balcão de negócios com empreiteiras.

No período da Ditadura Militar havia um fio que separava de um lado os bons, de outro, os maus. Entrou Collor com muita ajuda da mídia, em especial, a Rede Globo e a revista Veja que deu o pontapé inicial estampando na capa: “O Caçador de Marajás”, uma grande jogada do Collor contra usineiros para se projetar nacionalmente. Entra FHC, o príncipe da USP, filho de militar que resolveu ser sociólogo, e que se projetou nacionalmente ministro do bom mineiro Itamar Franco, a pedra no meio do caminho que a revista Veja começou a atacar, ridicularizar com charges destacando seu topete, sua foto em camarote da Sapucaí ao lado de uma moçoila fogosa.

FHC tratou logo de violentar a recente constituição, suada, sofrida, conquistada pelos movimentos so-ciais – a luz no final do túnel depois de tantos crimes perpetrados pelo Governo contra trabalhadores e estudantes – comprando votos, inclusive de três parlamentares acreanos, para permanecer no poder mais um mandato após a aprovação pelo Congresso  da reeleição para cargos executivos. Durou pouco a festa da democracia brasileira.

A democracia na Grécia clássica era um instrumento político manejado por iguais. Não existia farsa: a democracia era exercida entre os burgueses, os donos da cidade, quanto aos estrangeiros, trabalhadores e mulheres ficavam fora, sem demagogia.  Nunca existiu e nunca existirá democracia entre desiguais. Ainda mais no Brasil, onde os cargos eletivos sempre foram disputados e ocupados por grandes proprietários de terras e a compra de votos como padrão. Mesmo no governo Lula, que chegou ao poder por pactuar com o empresa-riado nacional, que também apoiou e até financiou os governos militares e seus assassinos, os parlamentares que honraram seu compromisso de legislar em função da classe trabalhadora, foram isolados e alguns chegaram a sair do próprio PT como a ex-senadora Heloísa Helena.

A coisa está tão embananada e desavergonhada que os partidos, nesta campanha que se inicia, fizeram alianças nos estados, de acordo com as conveniências locais e regionais. O PMDB sai com o vice da chapa de Dilma Rousseff e, no Acre, se coliga com o PSDB. Da mesma forma, o PV que no Acre sempre foi um satélite do PT, com seus “verdes” ocupando cargos no Governo, continua firme na Frente Popular, enquanto a Marina Silva está em campanha, pelo Verde, à Presidência, contra Lula. A confusão é tão flagrante que, em todo discurso que faz, a boa e complacente Marina sempre faz referência aos seus companheiros  Jorge e Tião Vianna que apóiam Dilma como é sensato e,  em especial, ao atual governador,  seu irmãozinho que recebeu  Kátia Abreu, em sua recente visita ao Acre, com sorrisos de orelha a orelha.

Kátia Abreu, senadora que lidera o DEM, ex-PFL, lidera a bancada ruralista que deixa os ambientalistas sem dormir, neste país. Ela veio ao Acre, saudar e confraternizar com os pecuaristas locais, com convicção, tranqüilidade, segurança, como se o Acre fosse a  terra do boi. Disse que arroz não dá em árvores, nem boi se cria em florestas. Representa os interesses dos pecuaristas brasileiros num momento em que o Brasil é o quarto maior exportador de carne do mundo. Centrada na lógica do mercado, nos lucros do negócio da pecuária, está pouco se lixando para o fato de que um boi consome trinta e seis litros de água por dia! Não dá a mínima atenção às produções científicas, aos relatórios dos organismos internacionais que apontam para o enorme risco para a sobrevivência humana e de todos os seres vivos que é a produção de centenas de toneladas de carne bovina, que ocupa oitenta por cento de solos destinados à agricultura. Não se dá conta de que a Amazônia é um sistema orgânico, que a destruição da floresta altera o ciclo das águas, mata rios e igarapés e que, nesse passo, nem boi, nem ente nenhum terá água suficiente para sobreviver.

Kátia Abreu, do DEM que está com Serra, foi recebida com honras e salvas. Dilma Rousseff não tem expressão, não é empresária, não é dona de complexos de rádio e TV, não é grande pecuarista nem lidera partido como Kátia Abreu, não tem projeto nenhum a não ser prolongar o governo Lula por mais anos que a sua saúde permitir. Não tem nem coragem de vir ao Acre, terra da Marina Silva.  Kátia Abreu está preocupada com Marina Silva? Está apostando alto e caminha para ocupar a presidência na próxima jogada. Está pouco se lixando para a problemática social, não sabe o que é sonho, nem utopia, coisa que pelo menos a Dilma Rousseff sabe, pois, pegou em metralhadora para lutar contra os Governos Militares. Kátia Abreu pisa em tudo isso do alto dos seus saltos. Pisa no novo Acre, a nova pátria dos rodeios.

Por outro lado, ouço queixas sobre o fato de que a boa Marina que deu passos largos não atentou para os pequenos passos, não se voltou para nossa cidade, carregada de cimento, paraíso da construção civil e imobiliárias que raspam tudo para erigir suas pesadas caixas de concreto, elevando os preços dos imóveis e eliminando as áreas verdes urbanas. Não teve pena nem dó de meia dúzia de gatos pingados, os educadores ambientais que não têm pernas para dar uma virada nos maus hábitos dos acreanos que convivem com lixos, por toda parte, nas periferias e meio rural como se tivessem parentesco com urubus. Como é possível que a cidade mais ar-borizada do mundo seja Paris, no coração da Europa? E que a segunda seja João Pessoa no Nordeste combalido pelos canaviais?  E que Rio Branco nem apareça na relação?

No Acre tantas alianças foram feitas, tantas concessões foram feitas, que as utopias e os sonhos viraram fumaça. Recentemente, uma pessoa  alertou, a mim,  para o estranho fato de que agora também os secretários do Governo estão lançando seus próprios candidatos. Não se trata de uma desejável descentralização do poder e sim de uma constituição de feudos. A governabilidade que antes era ameaçada pela oposição, exte-rior ao governo, agora está amea-çada por governistas, em separado, que pretendem ficar escudados por seus deputados, ancorados em empresários e empreiteiros, mantendo seus cabos eleitorais na qualidade de vassalos. Ou o próximo governador vai ficar refém das cobras criadas ou vai colocar coleiras nos cães, expressão usada por Geisel quando assumiu, para corrigir os desmandos de Médici.

 

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