Entregou-se para ir tomar café…!

Nossa amiga Ana ficou seis horas à mercê de um provável psicopata que entregou-se, pouco antes das sete, à polícia, que passou, por sua vez,  toda a madrugada frente à casa – não sei quantos homens eram – para ir tomar seu café, no presídio, é claro. Ou seja, quando sentiu fome, ele decidiu se entregar. Afinal, desde o começo, sabia que estava perdido. Mas pleiteava, para si, “uma saída honrosa”. Sabia que estaria protegido, abrigado, alimentado e que não sofreria um arranhão sequer. Sabia que a sua própria integridade física estaria bem guardada. Saiu da casa com tranqüilidade, sentindo-se provavelmente, um astro de cinema. Foi tomar café e dormir o sono dos justos, às nossas custas. Depois falou à imprensa.

Pouco antes de invadir a casa da Ana, ele, perseguido pela polícia após render o vigilante do PS – segundo disseram, para tentar concluir a tentativa de assassinato de duas mulheres, no dia anterior e que estavam internadas naquela unidade de tratamento – alvejou com três tiros na cabeça e mais três pelo corpo, um homem que estava em sua casa e abriu a porta para verificar a agitação fora do normal em seu quintal.

A psicopatia é um desvio mental grave caracterizado por desvio de caráter, ausência de sentimentos genuínos, frieza, insensibilidade aos sentimentos alheios, ausência de remorso ou culpa por atos cruéis, manipulação, egocentrismo e inflexibilidade aos castigos e punições. Mas o psicopata não se torna, necessariamente, um assassino. Ele é capaz de entender o que é o amor, o ódio, a paixão, todos os sentimentos, só que ele mesmo  não sente nada. É capaz de passar uma vida inteira simulando. O ponto central é que ele só se preocupa com o que é melhor para ele, sempre, e caso se sinta ameaçado, encurralado, matar é uma coisa natural como vestir uma camisa.

Os psicopatas são pessoas aparentemente normais. O distúrbio é mais comum em homens e passa a se manifestar na vida adulta, após os dezoito anos. Um método padrão já foi desenvolvido, por um cientista portu-guês, para analisar e fazer diagnóstico. A doença, também chamada de sociopatia, pode ter diversas causas, de ordem genética, orgânica – disfun-ção cerebral – e ambiental – traumas de infância. No entanto, o assassino deste caso, passou por avaliação feita por uma psicóloga, segundo li na nota divulgada pelo Governo na imprensa. Um psicólogo que avalia um presidiário que vai retornar para as ruas deveria ser o mais qualificado possível e estar, obviamente, equipado para realizar os procedimentos padrão.

Segundo uma psicóloga, amiga minha, nos Estados Unidos não se permite que psicopatas assassinos, depois de capturados, retornem às ruas. Em alguns estados, inclusive, a pena de morte dá o caso por encerrado. Isso porque, segundo ela, os psicopatas são irrecuperáveis, pois a ciência não dispõe ainda de nenhum tratamento seguro e eficaz para isso. Naqueles estados, são promovidas verdadeiras caçadas a esses tipos, por parte de todo o sistema policial, quando evadidos, como ocorre também com terroristas. Um terrorista, seja qual for a sua ideologia, também mata inocentes para atacar o sistema.

 Em estados da América do Norte, um presidiário com possibilidade de retornar ao convívio social, após cumprimento de pena em regime fechado, recebe permissão somente no caso de uma comunidade aceitá-lo como vizinho. Sem uma residência consentida pela vizinhança, não sai. E ainda assim, na sua porta é afixado papel com informação sobre o tipo de crime qualificado que o levou à prisão, em especial, em casos de pedo-filia. E a sua rotina é, de fato, mo-nitorada por policiais destacados para esse tipo de tarefa.

Sabe-se que o sistema de Segurança Pública, neste Estado, é abençoado por verbas vultosas, está muito bem aparelhado e equipado, vários agentes receberam cursos, mas, a nossa população não deposita o mínimo crédito para ele. O que pensar? Uma mulher fica por seis horas a mercê de um sanguinário, em sua própria casa, com vários homens, responsáveis pela Segurança Pública, armados, frente a sua casa, sem fazerem absolutamente nada para livrá-la do assassino, é uma prova cabal de que o sistema, apesar de demandar tantos investimentos, é flagrantemente falho.

Embora estivessem preocupados com a integridade da vítima, deixaram passar tempo demais, não pensaram que mulheres podem ser violentadas, e, reagirem valentemente, nessas ocasiões; o comando não fez nenhum plano, não se deu conta que o assassino, extremamente perigoso já havia descarregado a arma contra um inocente, desavisado, em vez de voltar a arma contra seus próprios perseguidores, como seria racional; não deu um telefonema para especialistas em seqüestro nos grandes centros, pedindo orientação, pois como já vimos pela televisão, coronéis do Bope no Rio e em são Paulo resolvem esse tipo de ocorrência em menos de uma hora; não acordaram o piloto do helicóptero para fazer barulho, distrair o criminoso, e,  levá-lo a pensar que seria atendido em suas exigências.

Enfim, as forças do Estado sob seu respectivo comando, não sa-biam o que fazer nem como fazer e nem recorreram a quem sabe. Não têm noção, como no sistema de saúde, do que venha a ser emergência e urgência. E que nesses casos, o tempo é o primeiro elemento a ser pensado quando se quer salvar alguém. E que a “saída honrosa” a qual o criminoso se referia, era a morte da Ana. Na hora de divulgar uma nota não têm nada a apresentar, só que mantiveram o equilíbrio.

 Tudo que foi divulgado, pela imprensa, denota que se o assassino quisesse ter passado mais horas na casa, mais horas os policiais teriam ficado lá, sem nenhum plano, sem que nenhuma ordem fosse dada, até que ele resolvesse sair, como aconteceu.

Eu vi as imagens de uma mulher policial chinesa, à paisana que enfrentou um tresloucado que fez refém uma mocinha, na porta de um shopping, ferindo-a repetidas vezes com uma ponta de tesoura. Ela jogou uma garrafa de água mineral e numa fração de segundos em que ele se distraiu deu um único tiro, fatal. Com presteza  e rapidez.

Sendo nossa sociedade do tipo onde a exclusão social dá o tom, não há socialização da renda e, capitalistas como o Ratinho obtém licença federal para extrair mogno e obter lucros estratosféricos, ao custo de 150 quilômetros quadrados de nossas florestas, em meio à pobreza geral, que pelo menos, os homens de armas fizessem jus ao ofício e, defendessem aqueles que lutam para sobreviver, honestamente e,  não têm culpa no cartório.

 

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