O instinto do poder

Estava entre pessoas amigas quando uma delas passou a falar sobre os programas de evangélicos, veiculados por canais de televisão, aos quais ela assiste de madrugada, quando perde o sono. As cenas descritas me pareceram tão estapafúrdias e grotescas que não fiz nenhum comentário porque me invadiu uma enorme tristeza, por lembrar que as emissoras são concessões públicas e que um minuto na televisão custa o olho da cara.

E mais, fiquei a imaginar os anos de pesquisa e inventividade por parte dos cientistas russos e norte-americanos, no século passado, para a construção do mundo atual, monitorado por satélites e ainda, os elevados custos de tudo isso, para que se permita tanto desperdício.   

Assisto a muitos programas dos canais de televisão da França, da Espanha e de Portugal, porque pago a Sky e, tenho observado que não se vê propagandas de carros, como ocorre nas emissoras brasileiras, que estimulam não só o consumo como o apreço por dirigir em alta velocidade, nem aqueles filmes da indústria norte-americana que estimulam o uso de armas de fogo. E, nunca vi programas religiosos nesses canais.
Naquela roda de amigos, expus a idéia de que esse fenômeno que ocorre no país, uma profusão de igrejas evangélicas e seus pastores, pode ser conseqüência da mordaça a que o povo brasileiro sempre esteve submetido. Junto a isso, uma humana ânsia de poder.

A palavra igreja, de origem grega, quer dizer “assembléia” e tem esse significado de uma reunião entre homens para o exercício da política. Nas mesquitas os árabes podem se pronunciar, com ampla liberdade de expressão, sem que sofram quaisquer tipos de censura ou repressão. Mulheres não entram, é claro.

 Impossibilitados de participação política no clube fechado dos partidos, cujos mandatários são das elites, em nosso país, os homens do povo tornam-se pastores, atendendo ao instinto do poder, comum a todos, sejam ricos ou pobres.

Alfred Adler – um dos quatro membros originais do círculo de neurologistas e psiquiatras, em torno de Freud, criado em 1902 – jamais aceitou a primazia da teoria da libido, a origem sexual da neurose ou a importância dos desejos infantis, de Sigmund Freud, fundador da Psicanálise, desenvolvendo sua própria teoria do desenvolvimento socialmente consciente.

Sua teoria da personalidade postulou um empenho por auto-estima e tentativa de superar um sentimento de inferio-ridade, conforme li no site psiquiatria geral.com. Adler igualava saúde psicológica à consciência social construtiva.

A pedra fundamental da teoria da personalidade de Adler é o conceito de passar de um sentimento de inferioridade para um sentimento de domínio. Cedo na vida, todos têm um sentimento de inferioridade resultante da comparação realista com o tamanho e as habilidades dos adultos. Passar deste sentimento de inferioridade para um sentimento de adequação é o tema principal motivacional na vida de todos.

Deste modo, a pessoa empenha-se por superioridade e o faz através de alto interesse social e da atividade; a pessoa emocionalmente incapacitada continua a sentir-se inferior e reforça esta posição através de falta de empenho e interesse social.

Ora, em sociedades castradoras, como a brasileira, da participação política e sem democracia ampla, os homens comuns tendem a buscar válvulas de escape para exercer domínio e poder. Veja-se a violência contra mulheres e crianças! A liberdade política, livre expressão e participação sem retaliações nem perseguições, incluindo mulheres e trabalhadores, é condição para uma sociedade mais saudável.

É larga a diferença entre uma liderança sindical e um pastor. O texto bíblico é inadequado para se enfrentar os desafios e as demandas da sociedade atual, ainda mais porque é receituário de um regime patriarcal que preconiza a obediência às leis que resguardam a propriedade privada, bem como a submissão das mulheres, filhos e escravos.

Essa defasagem diante da nossa sociedade tecnologicamente desenvolvida e, avançada no que se refere às conquistas das minorias tem o inconveniente de fomentar a intolerância, típica dos fundamentalismos, que pode eclodir em histeria coletiva. Afora o retrocesso.

Um documentário que vi, nesta quarta, pela GNT, mostra o drama dos árabes, palestinos e cristãos, gays, em Jerusalém, em sua luta por liberdade. Do outro lado, jovens judeus, cristãos e palestinos, heterossexuais, também unidos, só para massacrar os manifestantes da Parada Gay de Jerusalém.

No resto do tempo, os três grupos étnico-religiosos habitam subúrbios separados por cercas. Um judeu gay assumido abriu o único bar onde todos eles, gays árabes, cristãos e palestinos, freqüentavam e de onde diziam ser o único lugar onde realmente se sentiam “em casa”. A GNT está com a programação “semana da diversidade”.

A câmera focalizou um casal de rapazes onde um é judeu e o outro palestino! O dono do bar tornou-se vereador, em Jerusalém, lutou por tolerância, desistindo, porém, da reeleição e até fechando o bar, cansado de tantas hostilidades. Uma moça palestina que vive com uma médica judia disse que a mãe dela prefere que ela seja lésbica a vir a casar-se com um judeu e ter filhos com ele, o que denota diversos níveis de intolerância. E muita confusão.

 Um rapaz palestino, residente em Ramallah, foi obrigado a ficar em casa, desistir de trabalhar e fazer faculdade, pelo fato de ser gay, sob o risco de vir a ser morto nas ruas. Ele mudou-se, por fim, para os Estados Unidos, onde a união estável entre os homossexuais, por sua vez, não garante o green card, devido a uma lei de 2006. Ou seja, aquele gay palestino flutua, sem identidade, nem lugar.

 Os palestinos são os mais agressivos e intolerantes com relação aos seus gays, entre todos os grupos étnico-religiosos que residem em Jerusalém, mas, aparecem no cenário como vítimas históricas de Israel. E o mais surpreendente é que homossexuais judeus vão às ruas em Jerusalém exigindo o fim da barreira, feita por Israel, seu próprio país, na faixa de Gaza. Que loco.

A ausência de tolerância por parte dos fundamentalistas se manifesta em vários aspectos. Na Bandsnews, também quarta-feira, a apresentadora noticiou que a ONU estava enviando apelo ao presidente do Irã para que impedisse a execução de uma mulher, prisioneira desde 2006, por adultério, que será apedrejada até a morte, pena capital, no Irã fundamentalista.

O presidente Lula, que tanto lutou por liberdade, democracia e direitos humanos não fez nenhum apelo, mesmo sendo amigo do presidente do Irã. Amigo de Fidel, também não faz apelo quando aquele ditador manda executar prisioneiros políticos.

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