Vai-se o caucho, vem o gaucho

Existe grande dificuldade em concretizar novas idéias que emergem da experiência e da reflexão, e que poderiam solucionar os mais diversos problemas. Os refratários ou conservadores preferem que as coisas continuem sempre da mesma forma porque amam o poder, a fama e o dinheiro acima de tudo. Os progressistas vivem a perseguir as mudanças. A interdisciplinaridade é uma idéia que surgiu depois que se percebeu que existe uma excessiva fragmentação do conhecimento que conduz a uma visão das partes em detrimento da visão do todo. Isso é muito comum, por exemplo, na medicina alopática, esta que nos serve.

Certa vez fui acometida de diarréia com erupções e procurei a emergência da Unimed. Parecia óbvio que se tratava de uma intoxicação alimentar. Se eu tivesse sido atendida por Hipócrates ele receitaria uma lavagem intestinal e alguns dias de jejum, protegendo meu organismo, mas a plantonista mandou que me aplicassem uma seringa volumosa contendo cortisona. A maioria das pessoas não faz a devida ligação entre os sintomas e os seus hábitos alimentares, como peixes, morrem pela boca.

Os economistas, por sua vez, não apresentam conhecimentos no campo da cultura, cuja disciplina é a antropologia. Quando estão no governo planejam em função do mercado baseado nas leis de oferta e procura, em razão da importação e da exportação, dos lucros e dos salá-rios, dos impostos e assim por diante. Não têm perspectiva global nem se atêm à questão cultural.

Nesse sentido podemos entender o empenho do governo em fortalecer a pecuária e a construção civil em razão de que os investimentos dos capitalistas vêm se dando nessa direção, o que gera empregos em especial na área de serviços. A Feira Agropecuária hoje é uma tradição no Acre devido à lógica do mercado. E a cultura segue atrás. A cultura é  todo um modo de fazer e de pensar que tem por base, por sua vez, o modo como as sociedades produzem riquezas e a si mesmas, em sua singularidade em meio à pluralidade.

Nos tempos em que o Acre tinha sua economia baseada na exportação de borracha, castanha, couro de onça e de gato maracajá, o abastecimento por via fluvial e, os entrepostos comerciais ficavam em Belém e Manaus, a cultura seguia essa direção, daí o uso na culinária do tacacá e do pato-no-tucupi, afora vatapá, caruru, carne seca com jerimum, devido à predominância na população de nordestinos; uso de pasta de gergelim, lentinhas, grão-de-bico e outros, devido à colônia sírio-libanesa, restrito às classes médias altas. Atualmente, na culinária regional o churrasco é predominante, ocorrendo uma gaùchização do Acre.

Como os economistas governistas nunca estudaram antropologia não têm projetos ancorados na cultura. Para eles, as comunidades indígenas são apenas populações carentes às quais o governo deve dar assistência, em troca de votos. Eles não procuram adequar seus projetos aos saberes e costumes desses povos. Quem ler as crônicas de Gaspar de Carvajal, jesuí-ta espanhol que viajou pelo Rio Negro no século dezesseis, vai se surpreender com o intenso mercado de trocas entre as cidades indígenas daquela região, quando os habitantes das várzeas possuíam criadouros de peixe-boi, tartarugas e outras espécies, e, realizavam trocas com os indígenas da terra firme que cultivavam cereais. O boi não é um animal nativo da Amazônia.

Os economistas do governo determinam que os mais pobres sejam obrigados a morar em caixotes espremidos quando poderiam ter quintais ou áreas coletivas, como os indígenas, para pomares, açudes e macaxeiral. E deveriam condicionar as bolsas família, escola, gás, luz, etc, à responsabilidade para com a preservação, a seleção do lixo, o plantio de frutíferas, hortas, aliando nutrição com saneamento. Diminuiriam, inclusive, as filas nos postos de saúde.

No Acre, a caça predatória é incentivada, pois toda caça e pesca na região são predatórias. Os governos não fomentam a pesquisa sobre a fauna, seu comportamento, seu ciclo reprodutivo, seus habitat, e formas de manejo para permitir o consumo sem extinção; preservar a ecologia para evitar excesso de população de uma espécie e extinção de outras. Não existem políticas econômicas nem legislações de proteção e uso sustentável com respeito à nossa fauna. O boi é a saída mais fácil e barata. Isso tudo  vai custar muito caro para todos.

Há muitos anos conheci um pajé Apuriña que me receitou e vendeu um produto fitoterápico, fabricado por ele mesmo quando obtive um resultado surpreendente para a enfermidade que estava me acometendo. Lembro-me que voltei a procurá-lo para perguntar o nome da planta que me proporcionou um verdadeiro milagre. Mas, ele desconhecia o nome da mesma em português só na sua língua materna, não sendo possível, nunca, identificar a planta nas listas de classificação da nossa botânica.

Temos uma universidade pública onde disciplinas como lingüística e botânica são lecionadas há mais de trinta anos. Mas os profissionais desses campos de estudo não trabalham juntos, nem com os antropólogos.  A Universidade de Brasília, contudo, inseriu a disciplina saberes tradicionais em seus currículos. Aqueles universitários vão receber aulas de pajés e mestres da cultura popular, seis horas por semana, concretizando-se, somente agora, o sonho de Darcy Ribeiro, antropólogo brasileiro, seu idealizador e primeiro reitor. Entre os novos professores daquela universidade, consta Benki Pianko, daqui do Acre, na condição de especialista em reflorestamento e, o índio Mariwa, do Alto Xingu, cuja especialidade é a construção ao modo indígena.

Quando começou, no Brasil, a participação dos indígenas na política, o índio Marcos Terena falou, em certa ocasião: “terra não é lote, terra é planeta”. A lógica do sistema capitalista é a fragmentação de tudo e cada um quer fazer o que bem entende em sua propriedade. Ainda mais agora quando a bancada ruralista está detonando o Código Florestal brasileiro para diminuir as áreas de reserva legal. A lógica do mercado manobra tudo, governos, imprensa, universidades, parlamentos, igrejas, artistas, todos os setores que poderiam estender o debate e a informação para todos.

Recentemente, o Governo de Rondônia revogou os decretos de criação de oito Florestas Esta-duais em Colorado do Oeste, Cerejeiras, Alta Floresta do Oeste, Porto Velho, Costa Marques e São Miguel do Guaporé,  a maior parte delas circunscrita às nascentes, onde é mais premente a necessidade de preservação. Assim, sem mais nem menos. Nenhuma nota saiu nos noticiários televisivos. Acredito que nem mesmo os Governos Militares teriam permitido isso. Lula foi o chefe de Governo mais irresponsável e permissivo que já existiu.

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