Ana Eunice: vítima da cultura da morte

O que pouca gente sabe é que Ana Eunice Moreira Lima era acadêmica da Sinal-Faculdade. Acabara de concluir o 1º Período do Curso de Filosofia. Vivia uma alegria intensa com o pensamento filosófico. Fato demonstrado ao receber suas Mé-dias Finais das matérias cursadas no período, num abraço aconchegante e palavras de agradecimento dadas ao coordenador acadêmico Profº Antonio Davi Sobrinho. Apesar de não ter sido minha aluna, especificamente, me rotulava como alguém “extremamente crítico”. Era autêntica!

Sua morte de forma covarde e brutal se soma a miríades de outras, não menos cruéis, que acontecem diariamente neste mundo. Essas mortes violentas que fazem a notícia, todos os dias, de jornais, revistas, dos noticiários de televisão, rádio e todo o meio de comunicação, revelam uma realidade: vivemos a cultura da morte!

A cultura da morte sobreveio ao mundo moderno e ninguém possui uma solução realística para debelá-la. Não se trata de pessimismo exagerado; qualquer cidadão, mesmo que não seja adepto de reflexões sobre violência, tem que reconhecer que habitamos num mundo em que a vida não está valendo um picolé. Mata-se por um simples cigarro, uma dose de pinga ou por R$ 0,50 (cinqüenta centavos). Sim, vivemos a cultura da morte. Um verdadeiro horror à vida. Talvez produto de uma crença popular de que o poder, a supremacia, o dinheiro e o prazer sejam mais importantes do que a vida humana.

No mundo do crime, chefões da droga mandam matar famílias inteiras. Eles camuflam (sentido figurado) seus crimes com expressões como “apagar”, “silenciar”, “queima de arquivo”, ou “executar” as vítimas, que encaram como “encomendas”.

As nações estão em guerras constantes. Hoje, há  guerras em andamento e, nem o mau exemplo, catastrófico, que as guerras nos últimos anos nos deram, bem como as invasões covardes de “grandes nações” detonando pequenos países servem de alerta. Hoje, até, os “problemas” de caráter conjugal, não se resolvem mais com diálogo, mas na bala. Há uma crescente falta de respeito pela vida “declaram psicólogos, filósofos, teólogos, educadores, cientistas sociais e magos da mídia”.

Contudo, quais são as causas dessa cultura da morte, desse horror à vida, em favor da morte? Como esse fenômeno se manifesta hoje?

A cultura da morte manifesta-se primeiro no fácil acesso de armas de fogo. Esse fácil acesso público, especialmente por bandidos, às armas provoca um aterrador e constante aumento na morte de pessoas e de grupos de pessoas. A propósito, quem fornece  escopetas e outras armas de grosso calibre aos jovens que, infelizmente, militam na criminalidade?

No mundo da diversão, muitos filmes exploram o tema da morte, o crime organizado, minimizando assim o valor da vida e dos princípios morais. Filme para ter sucesso de bilheteria, tem que ser o mais violento possível. Quanto mais morte, melhor. 

Os antigos videogames e os novos jogos eletrônicos são, também, em grande parte uma manifestação da cultura da morte, com seus “virtuais” combates mortais e “jogos da morte”, que permitem às crianças “virtualmente” matar pessoas.

Li numa revista de circulação mundial, que 11 milhões de adolescentes ligados na internet, nos EUA, estão muito mais insensíveis à violência do que qualquer outra geração.

 Alguns pensadores imbuídos de otimismo irracional enxergam o problema pelo prisma da incidência de depressão, angústia, vício de drogas, comportamento autodestrutivo, fanatismo religioso, suicido e chacinas. Para autoridades religiosas o significado da crise mundial atual contém todos os elementos que constituem um preparativo natural para os fins dos tempos. Mas enquanto o fim não vem, o fim pode estar a séculos de distância de nós, compete a todos, sem charangas, buscar soluções, no mínimo, plausíveis para esse mal que nos aflige.

Quando autoridades policiais consideram positivo o alto índice de homicídios ocorridos em seus estados de origem, é porque a coisa é insustentável mesmo. Em Rio Branco para cada caso solucionado pela polícia, surgem mais dez. É essa a proporção do crime em nossa cidade. Não tem para onde correr.

Quanto a mim, simples mortal, enquanto não vislumbro no horizonte medidas reparadoras para essa cultura da morte, peço a Deus, depois de longos anos de luta, pois que já passei dos 60 anos, que não me deixes morrer nas mãos desses moleques perpetradores de horrores aos cidadãos de bem.
Descansa em paz, Ana Eunice!
 
* Francisco Assis dos Santos é professor e pesquisador (de gabinete) em Filosofia e Ciências da Religião. E-mail: [email protected] yahoo.com.br

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