Brasiléia: cem anos de vida e um sem fim de histórias a serem contadas…

Astrio-MoreiraTalvez a expressão “cem anos não são cem dias” seja única na língua portuguesa. As pessoas costumam usá-la para destacar um sentimento. É como se fatos acontecidos ao longo desse tempo valessem mais que um século. Por mil anos, por exemplo, quiçá uma eternidade. Se pudéssemos juntar em um só lugar todas as pessoas que ocuparam, colonizaram, fundaram, viveram e vivem em Brasiléia nos últimos cem anos teríamos muitas histórias e estórias para contar. Cada um contaria a sua história.

Desde os primeiros colonizadores, cada um narraria a sua própria história. Todos! Mortos e vivos. Da cidade e das matas. Cada um em cada família contaria sua história de vida. Até os solitários. Os que vieram de terras distantes sozinhos aventurar. Se pudéssemos fazer isso, cem anos ganhariam uma expressão de eternidade.

É assim que me sinto em relação aos “Cem anos de Brasiléia”. Cada palavra, cada frase, cada gesto e sentimento, cada casa, beco, rua, praça ou escola ditas e feitas nesses cem anos tem algo a nos dizer. Somos parte de um todo que ganha vida quando nos referimos a nossa cidade de Brasiléia. Cem anos pode parecer muito pouco em relação à existência, mas quando juntamos todas as histórias e estórias mergulhamos na eternidade. Cada um de nós trás em si a própria eternidade.

Conheço histórias de muitas famílias de Brasiléia. De homens que do nada extraíram fortunas, de afortunados que perderam tudo. Histórias de descendentes árabes, judeus, portugueses espanhóis, bolivianos e outras nacionalidades. Dos brasileiros nordestinos e dos sulistas. Dos que mataram e dos que morreram. De seringalistas, seringueiros, comboieiros, colonos, parceleiros do Incra, vaqueiros, comerciantes, professores, políticos e até histórias e estórias de prostitutas e de jagunços.

As escutei a luz de velas, de candeeiros, em volta de fogueiras, nas noites de luar ou ao cair da tarde. Nas embarcações, nos velhos barracões dos seringais, nas colocações, nas estradas de seringas, nos varadouros e ramais. Nos bares, nos botecos nas caçadas e pescarias. As ouvi com a alma como se eu mesmo fizesse parte delas.

Sei, por exemplo, que o Mauro Chagas, veio do Ceará quando tinha pouco mais de dez anos. Que sua mãe morreu ferrada de cobra e seu pai foi embora com o restante da família e que ele ficou sozinho. Um menino sozinho embrenhado nas matas cortando seringa no Seringal São João. Varei uma madrugada chorando com ele ouvindo atentamente sua história, sentindo sua dor e vivenciando o seu drama.

Sei de muitas outras histórias contadas suavemente pelo “Seu Dadá”, pai do falecido amigo, professor Mário Lima. Outras contadas pelo Gaspar, Antônio Pelado, finado Chicão, Mário Mansour, João Pacífico, Leonardo Barbosa, Vicente Cruz, Vicente “Caboquin”, Adolfo Saad, doutor Tufic, Chico Frota e tantos outros amigos. Contaram-me das festas que aconteciam nos barracões dos seringais no Sete de Setembro. Histórias contadas pela minha família.

Soube que no seringal Baturité tinha uma sepultura cercada de correntes. Grossas correntes. Curioso que só fui lá vê. Era verdade! O dono do seringal, contavam nas redondezas, era gente ruim. Costumava matar seringueiros a quem devia amarrando sernambi nas costas e ateando fogo. O “home” era ruim. Tinha participado da Revolução. As correntes eram para impedir sua alma de sair para fazer mais maldade ou assombração. Sei de muitas outras histórias e estórias. Da época da fartura dos tracajás, de quando os couros de onça, de vea-dos, de “porquim do mato” po-diam ser comercializados.

As histórias e estórias mais curtas que já ouvi eram contadas nas travessias das catraias pelo “Alemão”, pelo “Cabeção” e pelo seu “Chagas”. Durava a travessia do rio. Às vezes a outra parte era contada na volta de Epitaciolândia ou da Cobija. Era quase sempre sobre “causos” do cotidiano. As melhores histórias e estórias que ouvi foram no comércio do Amadeo da Silva, na beira do barranco do rio. Maranhense de Bacabal, brabo que virou seringueiro, que virou colono, que virou comerciante.

No comércio dele, do Chico Pirananbú, do Albene era ponto de encontro de comerciante, pé-inchado, médico, advogado, seringueiro, colono e um sem fim de gente para contar histórias passadas, comentar notícias da política e da polícia.

Em tempos mais distantes as histórias eram narradas no “Bar Moreira”, na “Barbearia do T.H.”, nos comércios do Tuma, dos Saad, dos Mansour, do Zeca Paixão, dos Cordeiros, dos Campos, dos Gadelhas, na boate do Coqueiro, na Delegacia e no velho Fórum da cidade. Como disse, são muitas histórias e estó-rias. Tem a morte do senador Kairala, tem a eleição do Messias Ribeiro. Ah! As do prefeito Elson Dantas, do Lau Barroso, Valdemir Lopes, Zezé Hassem e a morte do delegado Hilário Meireles, quando a lancha veio a pique no São Luís do Remanso.

Enfim, Brasiléia é isso: histórias de vidas de pessoas que se foram e de outras que estão fazendo muita coisa boa acontecer. Quis Deus que ao completar cem anos, Brasiléia estivesse sendo administrada pela prefeita Ana Leila Galvão Maia Moreira, a professorinha honesta e trabalhadora, mulher do Nelsinho, a filha do seu Neném Pedrosa e da dona Amélia Galvão, lá dos “Três Botequins”, um velho bairro da cidade também cheio de histórias e estórias, inclusive da morte do prefeito Rolando Moreira e do pastor Corinto em um tempo que já vai bem longe. Como disse, são cem anos e um sem fim de histórias e estórias a serem contadas…

Algumas ouvi, outras vivi, afinal de contas, como filho de Brasiléia também tenho a minha história para contar!

Astério Moreira
Jornalista, vereador em Rio Branco e filho de Brasiléia

 

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