Oposicionistas e governistas debatem projeto madeireiro do Ratinho, na Aleac

A sessão de ontem na Aleac teve o quórum mínimo. Mesmo assim o debate entre a oposição e os deputados da base do Governo foi intenso. Tudo porque os índios Yawanawás divulgaram uma carta, na última terça-feira, questionando alguns pontos do projeto madeireiro do grupo Radam, que tem o apresentador Ratinho como maior acionista.
Ratinho-na-Aleac
O tiroteio verbal começou com as acusações do deputado N. Lima (DEM). “Estamos dando voz às denuncias dos índios Yawanawás. O grupo Radam é uma história que vem de muito tempo. Surgiu no governo do Jorge Viana (PT). De repente nós soubemos que o Ratinho tinha comprado uma área de terras, mas nós não denunciamos porque não havia prova. Agora, a denúncia é dos índios Yawanawá dizendo que vai sair do nosso Estado a madeira. É uma área de 150 mil hectares que tem a maior concentração de mogno da Amazônia. A selva lá está intacta e estamos ouvindo que esse grupo vai explorar a região e deixar os índios como?”, questionou.

Para N. Lima, o preocupante é que a madeira da propriedade sairá do Acre. “Os nossos marceneiros se acabaram porque não podem mais comprar uma árvore que não esteja certificada. Compram madeira por um preço absurdo para sobreviver. Quantos colonos já pediram para certificar as suas áreas de 100 hectares e até hoje não saiu do papel. Depois se descobre que uma área de 150 mil hectares está certificada. Nós não podemos pegar a nossa madeira e sem gerar emprego e renda dentro do Estado. A madeira vai sair toda bruta e cadê os empregos e o ICMS? Isso vai criar o maior problema sustentável do nosso Estado porque quem vai tirar a madeira são máquinas grandes numa região rica de fauna e flora. É isso que os índios estão questionando porque os bichos vão embora por causa das máquinas”, protestou.

O parlamentar da oposição não esconde um tom político eleitoral nas suas alegações. “A nossa madeira, no programa de governo da oposição, vai ficar aqui beneficiada e gerar milhares de empregos no Estado. As nossas marcena-rias vão voltar a funcionar e todos vão ter um armário, um guarda roupa de mogno de primeira qualidade no governo do Bocalom (PSDB)”, propagandeou.

Parlamentar governista contra-ataca
As acusações da oposição tiveram uma reação forte da situação. O líder do PT, deputado Ney Amorim, reagiu indignado. “Nós estamos às vésperas de uma eleição já num período de campanha. A oposição na Aleac não apresenta plano de governo. Eles partem para agredir pessoas que tem dignidade e uma história de vida casada com o desenvolvimento do nosso Estado. O ex-governador Jorge Viana (PT) transformou o nosso Estado e criou as condições para que os investidores quisessem vir montar suas empresas. Agora, está sendo caluniado por deputados de oposição que o acusaram de ser sócio numa grande área de terra. Quando começaram surgir prédios novos da Recol a oposição, naquela época, já dizia que tudo é do Jorge. Isso não passa de calunia e difamação num período eleitoral. Jamais o Jorge iria largar um projeto de desenvolvimento para mexer com madeira. O Jorge só tem o foco do desenvolvimento do nosso Estado para gerar empregos e rendas”, defendeu.

Thaumaturgo: “a oposição está em conflito existencial”
Outro que questionou os discursos oposicionistas foi o deputado Thaumaturgo Lima (PT). Ele acusou os deputados de oposição de oportunistas. “Nós não podemos confundir as coisas. O governo do PT, desde o início, se decidiu pelo desenvolvimento do Acre com base na economia florestal. Nós não escondemos que defendemos a floresta em pé, o meio-ambiente, a fauna e a flora. É uma forma de manter os ribeirinhos na sua terra, o produtor rural no seu ramal e preservar os rios e as florestas. A oposição entrou no desespero e num conflito existencial. Num momento defende o meio-ambiente. Logo depois defende a soja e o agronegócio. Estão atirando para todos os lados para ver se cola nesse período de eleição. Nós da base do Governo não podemos cair nesse discurso e a população tem que ficar atenta”, alertou.

O parlamentar petista explicou, no seu ponto de vista, a situação gerada pelo protesto dos índios. “As terras do Ratinho eram da Paranacre e estavam lá abandonadas porque não tinha como tocar um negócio por falta da estrada. Depois que se abriu a BR-364 criando condições de integrações do Vale do Juruá surgiu o interesse do grupo do Ratinho de comprar a área. A conversa de que vão explorar 100% da área não passa de delírio da oposição alegando que o Estado está dando licença para se devastar essas terras. O nosso Governo tem compromisso com os povos tradicionais para levar saúde e educação”, garantiu.

Moisés: “o Governo da FPA duplicou a área dos Yawanawás”
O líder do governo, deputado Moisés Diniz (PCdoB), argumentou sobre as questões de investimento do grupo Radam, em Tarauacá, e os indígenas da região. “Todo o procedimento da denúncia aconteceu no governo Jorge Viana. Nessa época, os índios Yawanawás tinham 90 mil hectares de terras demarcadas. Numa luta da Aleac e da deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC) a terra foi ampliada para 180 mil hectares. Além disso, dos 200 mil hectares que o Ratinho comprou entre a estrada e a aldeia indígena, foi doada para a aldeia indígena uma faixa de 50 mil hectares. O objetivo foi formar uma zona de silêncio entre a atividade industrial e a vida ancestral dos povos indígenas. Naquela região há cemitérios ancestrais e poderia haver problemas com os igarapés. Essa é uma grande conquista”, explicou. 

Índios suspendem ameaça de bloqueio da BR-364

DULCINÉIA AZEVEDO
A ameaça de bloqueio da BR-364, no trecho entre Tarauacá e Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá, está suspensa em virtude de acordo mantido entre lideranças indígenas e o governo do Estado, em reunião realizada ontem em Rio Branco. Participaram da discussão, representantes das sete aldeias indígenas do Rio Gregório e das Secretarias de Estado de Educação, Articulação Política e Floresta.

De acordo com o cacique Biraci Brasil Yawanawá, o governo se comprometeu em encaminhar as reivindicações contidas numa carta que foi enviada ao governador Binho Marques (PT), no início da semana. “Nós abrimos a ponte do entendimento. O povo yawanawá sempre primou pelo diálogo e resolvemos dar um prazo ao Governo”, disse.

Ele reconhece o avanço que o governo da Frente Popular trouxe para a política indígena no Estado do Acre, mas admite que na prática as coisas não acontecem da mesma forma que são admitidas. Diante a necessidade de rever algumas questões, os indígenas decidiram apelar diretamente ao governador. 

“Em nossa avaliação, temos sido um grande parceiro deste Governo e temos feito de tudo para respeitar e esperar um apoio significativo para nosso povo, no entanto, estamos vendo chegar o final deste terceiro mandato da Frente Popular do Acre e o seu governo pouco ou quase nada de significativo tem feito para ajudar concretamente as nossas comunidades indígenas”, diz um dos trechos da carta.

Os índios também questionaram o projeto madeireiro que será desenvolvido no Acre pelo grupo ligado ao apresentador de TV, Carlos Massa, o Ratinho. “[…] estamos nos sentindo ameaçados com o projeto madeireiro do RATINHO no entorno de nossa terra indígena, que, junto com a pavimentação da BR-364”.

Eles reivindicaram acesso ao documento de licença ambiental que permite a exploração de madeira na região e solicitaram ainda o pagamento das indenizações das benfeitorias dos antigos moradores brancos da TI Rio Gregório. De acordo com Biraci, caso o acordo do governo não seja cumprido, as lideranças indígenas voltarão a fazer cobranças.

 

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