Passadas 2 décadas, Binho diz ter mudado de idéias sobre pecuaristas

Após discursar para uma platéia de ruralistas, receber e dar aplausos a falas conservadoras de representantes da direita na noite da última segunda-feira (19), o governador Binho Marques falou por alguns minutos ao jornal A GAZETA. Militante da esquerda desde jovem, Binho tem sua origem política dentro do movimento seringueiro de resistência ao avanço da Pecuária e seus bois dentro da Amazônia.
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Passadas 2 décadas desde a morte do ícone dessa resistência, Chico Mendes, o governador se disse estar “à vontade entre tantos pecuaristas”. “Eu nunca poderia imaginar enquanto organizava os ‘empates’ que um dia estaria aqui num am-biente com tantos pecuaristas; estou à vontade, me sentindo em casa”, declarou em seu discurso.

O encontro entre Binho Marques e a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), a voz ativa dos ruralistas dentro do Congresso Na-cional, causou certo desconforto e descontentamento nos pequenos grupos mais à esquerda que ainda existem dentro do governo e do Partido dos Trabalhadores no Acre. Binho diz não ser mais aquela pessoa que organizava os “empates” dentro da floresta; afirma ter outras idéias.
A seguir, os principais trechos da entrevista:

A GAZETA: Como é para o senhor estar entre os pecuaristas, depois de ter militado por tanto tempo contra a derrubada da floresta para dar lugar às grandes áreas de pastagem?
Binho:
Os pecuaristas do Acre, assim como nós [do movimento de esquerda], ao longo do tempo sofreram mudanças no que pensavam antes. Eu, particularmente, que lutei ao lado dos seringueiros, ajudei a organizar “empates” contra fazendeiros, já não sou a mesma pessoa daquele momento. Antigamente pensávamos que um lado só sobreviria, com a exclusão do outro. Eu não penso mais assim, como também eles. O Acre é um ambiente propício para todos. Deixamos de lado a tentativa de procurar nossas divergências e procuramos aquilo que temos em comum, e estamos encontrando muito mais aspectos comuns do que divergências. 

 A GAZETA: Qual a relação hoje da Pecuária acreana com a conservação da floresta?
Binho:
A Pecuária tem hoje um papel muito importante na nossa economia. Ela não só se adaptou ao novo momento como ajudou a construí-lo. Dizer que ela se adaptou não é justo, a Pecuária ajudou a construir esse novo momento. Os pecuaristas do Acre saíram da situação de aventureiros, especuladores e oportunistas que queriam ganhar dinheiro com a especulação fundiária nas décadas de 1970 e 80. Hoje temos pecuaristas de verdade. 

A GAZETA: Como se deu esse novo momento?
Binho:
Diante da legislação ambiental eles só tinham uma opção: aumentar a produtividade dentro das áreas abertas. Os pe-cuaristas não só toparam esse desafio como cresceram. Eu considero que o Acre tem um dos melhores resultados nessa atividade no Brasil, graças aos pecuaristas que investiram em tecnologia, que em parceria com governo venceram a [febre] aftosa e pudéssemos ter um “boi verde”.

A GAZETA: É possível incrementar o agronegócio com 88% do território com floresta nativa e protegida?
Binho:
Não tenho dúvidas disso. Tivemos um grande crescimento do rebanho bovino com queda nos níveis de desmatamento. Hoje, comemoramos os menores índices de desmatamento dos últimos 20 anos. A cada ano diminui-se o desmatamento e aumenta-se o número de gado. Para produzir não precisa mais desmatar. O Acre tem 88% de suas terras preservadas, mas tem 12% desflorestadas, que podem muito bem ser usadas para aumentar a produtividade da pecuária.

A GAZETA: Para isso é necessário o uso de tecnologias.
Binho:
O que já está acontecendo. O governo investiu na Embrapa para o melhoramento genético do rebanho. Em parceria com a Federação [da Agricultura e Pecuária] investimos na capacitação e formação de ambientes mais propícios e produtivos.

 

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