Uma questão de humanidade

Sempre haverá de relevar-se à mãe que, em razão da morte da filha, desfecha violentas críticas a autoridades judiciais, governamentais ou de qualquer outra instância ou poder.

Espera-se ainda que a dor contida nas palavras daquela que perdeu a filha para uma ação imprudente, excessiva, abusiva e violenta por parte da polícia reverta-se, desde logo, em humanidade.

Em termos práticos, isso significa reparar ou pelo menos amenizar, desde logo, o dano causado. Já que não é possível devolver a vida à vítima que se ofereça o amparo necessário àqueles que sofrem as conseqüências.

Refiro-me ao caso da estudante Edna Maria Ambrósio, morta durante uma blitz de trânsito na Capital, tendo como possíveis autores dois agentes da lei.
Muitas promessas foram feitas à Maria Ambrósio, mãe da vítima, quando o caso explodiu na mídia e respingou de forma negativa no governo da Frente Popular.

Afinal, o melhor lugar do mundo para se viver não deveria produzir notícias do tipo “Estudante é fuzilada no trânsito”.

Todavia, à exceção de um sacolão, doado no dia do velório da estudante, nenhum outro auxilio foi concedido até hoje.

Dona Maria não vive mais, vegeta. Está depressiva, aflita, angustiada, insegura em relação ao destino dos responsáveis pela morte da filha. Suplica por um médico, tratamento psicológico, algo que lhe sirva de conforto, mas ninguém escuta.

Toda vez que aparece no jornal ou na tevê recebe ligações de um representante do Estado, via Secretaria de Direitos Humanos, mas todas restam infrutíferas. Não bastasse, sofre críticas por ser contra a exu-mação do corpo da filha. 

É no mínimo desumano exigir que uma mãe aguarde inerte ou aja com serenidade a notícia de que o cadáver da filha será exumado tendo como motivação “omissões” contidas no laudo pericial.

Imagine alguém dizendo para você: “desculpe, foram esquecidos alguns fragmentos de bala no corpo da sua filha, teremos que desenterrá-lo para fazer a remoção, é jogo rápido, depois a gente enterra novamente, tudo bem?”.

Como já dizia Padre Antônio Vieira em seus Sermões: “Amor e razão são duas coisas que não se ajuntam”. Quem dirá amor de mãe: concebido no útero e gerado no coração. Dona Maria nada mais quer que Justiça e o direito sagrado de sua filha descansar em paz. Exigir também – e tem esse direito – de ser comunicada de forma descente, não através da imprensa, todas as vezes que uma decisão do tipo for tomada.

*Dulcinéia Azevedo é jornalista e escreve às terças-feiras nesta coluna. E-mail: [email protected]

 

 

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