Basta de apagão

A paciência dos acreanos dependentes do “linhão” já ultrapassou o seu limite há muito tempo. Desde o ano passado que os apagões se tornaram fatos corriqueiros no Estado. Uma situação muito preocupante que tem gerado prejuízos incalculáveis para a economia do Acre. Sem falar nas questões humanas. A cada apagão milhares de novas histórias pessoais com contornos de tragédia se delineiam. É o sorveteiro que perdeu a sua produção, o bar que teve prejuízos com o quebra-quebra dos clientes, as pessoas que foram assaltadas nas ruas durante a escuridão, a fábrica que teve que interromper a sua produção, o carro que colidiu por falta de semáforo e daí por diante.

Não vejo justificativa para esse tratamento cruel que o povo acreano está tendo em relação à distribuição de energia no Estado. No ano passado tivemos CPI da Energia Elétrica e a Audiência Pública da Aneel. Portanto, a Eletrobras está para lá de consciente da situação caótica que temos enfrentado. Falar que pagamos a energia mais cara do país e de péssima qualidade é chover no molhado. Também não foram poucos os deputados federais que se colocaram ao lado da população e fizeram questionamentos furiosos em Brasília. Também sem resultado prático.

Parecem ter se esquecido do nosso parque energético da Morada do Sol. A nível de energia elétrica o Acre é atualmente um carro que viaja sem estepe para trocar o pneu furado. A usina geradora da Eletronorte poderia servir para suprir as nossas necessidades em casos de apagões mais demorados. Mas parece estar desativado apesar dos protestos do Sindicato dos Urbani-tários e da imprensa. 

Está na hora da sociedade se organizar e fazer uma cobrança das autoridades responsáveis pela política energética do Acre. Não é possível que essa situação perdure estabelecida na passividade de quem deveria estar aos gritos com a Eletrobras. Só nos últimos dias foram três apagões seguidos. Haja resistência dos nossos bens eletrônicos para suportar os picos de energia e as suas idas e voltas. O que está acontecendo é uma afronta e um desrespeito à nossa população.

No domingo fui buscar uma pessoa no Aeroporto de Rio Branco. Os vôos atrasados e o saguão lotado de passageiros fazia o ambiente parecer uma sucursal do inferno. O sistema de refrigeração não funcionou durante a manhã inteira e o calor no nosso Aeroporto estava insuportável. No sábado atrasamos o fechamento da edição de A GAZETA porque ficamos quase uma hora sem energia. Os dois casos citados são os mais simples. Mas quantas pessoas estão sofrendo com essa situação ridícula? É preciso pensar mais em gente, em pessoas, em seres humanos, em cidadãos e cidadãs.

Decididamente pode vir o Papa falar comigo, mas não acredito no Linhão e nem no Sistema Interligado Nacional (SIN) que piorou a nossa situação nos últimos meses. Acredito menos ainda na política da Eletrobras para o suprimento energético da Região Norte. Fica difícil imaginar técnicos e burocratas que moram em Ipanema, no Rio de Janeiro, conhecerem o drama do picolezeiro do Quinari. É um paradoxo muito grande e uma vergonha para quem tem o mínimo de amor pelo Acre.              

* Nelson Liano é jornalista
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