Índio quer apito

Apesar de ter passado uma semana na Europa acompanhei de perto pela internet o noticiário político brasileiro. Confesso que fiquei chocado com as recentes declarações do candidato a vice-presidente Índio da Costa (DEM), da chapa do José Serra (PSDB). Nunca vi tamanho desconhecimento da história política brasileira.

 Acusar a candidata Dilma Rousseff PT) de “terrorista” e o PT de ter ligações com as Farcs e o tráfico internacional de drogas é de uma irresponsabilidade sem limites para quem pretende ser vice-presidente da República.

Acho que o tal Índio se esqueceu que se ele pode concorrer livremente ao atual pleito é porque justamente muitas pessoas resistiram à Ditadura Militar para garantir a volta da democracia ao país. Atacar a sua adversária Dilma é o óbvio. Mas o rapaz se esqueceu que o próprio Serra foi perseguido e exilado durante os anos de chumbo por ter militado na clandestinidade. Quando ele classifica aqueles que lutaram contra a Ditadura de terroristas está apontando o dedo para o seu próprio candidato, Serra. Nunca vi tamanha desinformação e despreparo.

Mas por outro lado, considero natural esse tipo de atitude do candidato a vice da chapa tucana. O personagem é pouco conhecido nacionalmente. Mas me lembro das primeiras eleições que Índio da Costa participou como candidato a ve-reador no Rio de Janeiro. Nessa época eu trabalhava na imprensa carioca. A votação do rapaz sempre esteve concentrada na Barra da Tijuca, bairro de classe média alta. Além disso, o Índio sempre foi o apoiado pelas oligarquias imobiliárias da Zona Sul do Rio. Um verdadeiro representante das elites. No entanto, jamais imaginei que depois de vários mandatos como deputado federal o rapaz continuasse tão des-preparado. Também não entendi porque o Serra o aceitou como candidato a vice. Mas isso já faz parte da democracia.

Agora, as afirmações disparatadas do Índio, que de indígena não tem nada, merecem uma reflexão. Há 40 anos a Ditadura começou a se dissipar gradualmente. Os eleitores das novas gerações não têm idéia do barbarismo e do atraso desse período negro da história brasileira. Alguns podem achar que a democracia brasileira que vivemos atualmente sempre foi assim. Isso não é verdade. Foi preciso muita mobilização da nossa sociedade e sacrifícios para podermos respirar os ares de liberdade no Brasil.

Por outro lado, o registro positivo desse debate inútil e perigoso iniciado pelo Índio ficou por conta da posição da candidata Marina Silva (PV). Apesar dela só ter sido alfabetizada na adolescência e de ter vivido no isolamento das matas acreanas, a Marina, provou que jamais foi analfabeta política. Pode não ter nascido em berço de ouro e freqüentado as melhores faculdades do país como o Índio. Mas aprendeu com a luta pela liberdade. Evidentemente que a candidata verde rechaçou as besteiras que o Índio falou. Mesmo com os problemas que teve com a Dilma quando as duas eram ministras, Marina, colocou a democracia acima de questões mesquinhas eleitoreiras.

Na minha opinião, o Índio deveria fazer um estágio por algumas aldeias indígenas e seringais acreanos para conhecer um pouco mais a vida real do Brasil. Talvez assim deixasse de ficar soprando esse apito desafinado com tons cinzentos de extrema direita.

* Nelson Liano é jornalista
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