Universidade para quê?

Quando me formei não senti um friozinho na barriga. Não me emocionei. Não senti nada de diferente. Para mim, a formatura foi mais um ritual chato e sem sentido.

Usando uma beca ridícula e com os sapatos machucando os meus pés, resolvi ficar descalça. Uma cerimônia demorada, cheia de formandos e parentes. Não fui à missa e nem ao culto. Sou avessa a rituais.

Hoje descobri porque minha sensação na formatura foi diferente da dos demais. Para mim, esse ritual de passagem não fazia sentido porque eu já estava no mercado de trabalho e já havia alcançado o êxito profissional, diferentemente do restante da turma.

Quando mais moça, passei no vestibular da Ufac por duas vezes e abandonei os cursos. Naquela época eu estava muito mais preocupada em trabalhar e ganhar dinheiro do que em me formar.

Vou contrariar algumas pessoas mas não me importo.

Existem vários serviços rentáveis que não exigem uma graduação. Exigem apenas boa vontade, determinação, espírito empreendedor e uma boa dose de coragem para encarar. É preciso mandar a preguiça ir para o espaço, arregaçar as mangas e fazer o que tem que ser feito.

Para isso não é preciso um canudo. Só conhecimento técnico ou empírico.

O que percebo é que os jovens, estimulados pelos próprios pais, não querem trabalhar antes de se formar. Que bobagem!

Fiz o primeiro e o segundo graus da forma mais inadequada possível. Provões, Desu, Supletivo, Mobral etc, fizeram parte da minha vida e ao mesmo tempo sempre trabalhei.

Comecei a lidar com dinheiro ainda na pequena mercearia do meu pai. Fui agente de saúde no Ramal Novo Horizonte, trabalhei na roça, na lanchonete, vendi comerciais, filtros de água, cosméticos, calcinhas, regularizei documentos de casas para quem não tinha tempo e ainda descolava uma graninha para cuidar de crianças enquanto os pais saiam para se divertir.

No rádio, substituía todos que faltavam, gravava comerciais de graça só para mostrar que tinha capacidade e em pouco tempo já tinha meu próprio programa.

Tudo isso sem diploma. Com insistência e persistência e uns cursinhos no Senac.

Depois que eu já tinha um lugar para morar e um carro para andar, foi que fui para a universidade. Com uma responsabilidade que os jovens não têm. Com uma sede de aprender que a grande maioria dos jovens não tem. Com uma visão de mundo que os jovens só terão depois de muita ralação.

Vejo, com tristeza, que muitos estudantes, que até pagam na rede particular de ensino superior, querem mesmo é que o professor falte para não ter aula.
Meu filho vai terminar o segundo grau. Como ainda é muito jovem, não sabe que profissão seguir, me pediu um conselho para saber qual curso fazer na universidade.

Curta e grossa, disse para ele: Faça como eu. Trabalhe. Depois você decide. Afinal, graduação e pós-graduação só me deram status, coisa que não enche barriga.

Eliane Sinhasique é jornalista, radialista e publicitária
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