Não quero ser homem!

A cada dia que passa mais acredito que a minha vida seria diferente se eu fosse homem. Seria mais fácil.

A barba não está crescendo e eu não consigo fazer xixi em pé mas esse mundo globalizado está me exigindo ações e comportamentos masculinos.

Estou perdendo a minha essência feminina e tendo que falar grosso para ser respeitada pelo cara que faz serviços elétricos. Se não for dessa forma, o cara faz um serviço malfeito, cobra os olhos da cara e demora uma década para terminar um serviço que demoraria uma hora.

O machismo predomina e muitos homens não aceitam ser comandados por mulheres e nos boicotam só para provar que nem sabemos “mandar”.

Além de saber mandar, temos saber o que é que eles têm que fazer. Já estou pensando em fazer uns cursos básicos de pedreiro, marceneiro, encanador e eletricista para poder discutir, de igual para igual, qual é o melhor conduíte para a fiação elétrica.

Voz mansa, delicada, não funciona com o mecânico. Se você ousar dizer que acha que o problema é na embreagem é capaz de o cara te dar um murro na cara!
Mulher não pode achar nada, não pode sugerir nada. Eles sabem tudo e fazem tudo errado e a gente tem que pagar pelos serviços duas vezes pois não acreditaram em nossa intuição e  “consertam” o que não precisava ser consertado.

No trânsito as mulheres são consideradas barbeiras. Gritam com as coitadas o tempo inteiro. Esquecem que quem as ensinam são os próprios homens. Ainda bem que aprendi sozinha.

Esquecem também que o “sexo frágil” hoje é quem comanda as famílias. Ganhamos menores salários e sustentamos e educamos os filhos porque os homens caem fora. Fora da relação com a mulher e, o que é pior, fora da relação com os filhos.

Tem que ser muito macho para segurar uma parada dessas.

É porrada de todo lado.

É a violência, é a competição no mercado de trabalho, é a exigência por um padrão de beleza que nos massacra o tempo todo e é o tempo passando como um rolo compressor nos avisando que precisamos ir mais rápido, sermos mais efi-cientes, mais inteligentes, mais letradas, mais capacitadas para continuarmos tendo um lugar ao sol.

São as outras mulheres nos apontado as celulites, o esmalte que está descascando e a depilação que está vencida.

Misericórdia!

Se não nos respeitam como mulheres, pelo menos nos respeitem como seres humanos!

Respeitem as nossas idéias (pelo menos ouçam!), respeitem nosso ciclo menstrual, nossa TPM, nossa falta de tempo para ir ao cabeleireiro e nossa falta de grana para comprar uma lingerie.

Não é fácil ser mulher no mundo de hoje. Mas não precisamos ser homens, com um enorme órgão fálico, para sermos respeitadas. Somos gente. E isso basta!
Quando finalmente acabar as disputas entre os sexos e homens e mulheres caminharem lado a lado, entraremos no paraíso.
        
Eliane Sinhasique é jornalista, radialista e publicitária
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