Famílias de jovens denunciam ‘castigos’ que fugiram de unidade sócioeducativa

Mães, irmãs e amigos dos jovens que fugiram da Unidade Socioeducativa Aquiry e foram recapturados afirmam que eles sofrem torturas e maus-tratos pelos agentes, numa forma de castigo e represália pelo o que fizeram na noite do último domingo (26), quando escaparam do local.

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Sem ter contato com os menores, as famílias afirmam que as informações de maus-tratos chegam por meio dos próprios funcionários. A Gazeta ouviu ontem duas famílias que, morando em bairros distantes um do outro, apresentam relatos semelhantes. Por questão de segurança e medo de vingança, elas preferem não se identificar.

Além da violência que sofreriam com tapas e pontapés, os agentes estariam deixando os infratores somente de cueca, além de não disponibilizar colchões. Uma das mães afirmou que ia devolver o filho à unidade, mas ao ser informada do que passava no interior preferiu deixá-lo foragido.

Outra mãe do bairro Taquari também tomou a mesma decisão ao saber do espancamento. Até mesmo os que não fugiram são penalizados. Não bastasse o sofrimento ocasionado pela situação da fuga, muitas delas passaram a ter a casa invadida por policiais militares que estão na capturas dos menores.
Até mesmo a residência dos jovens que ficaram na unidade têm recebido a visita de PMs. Moradora do Montanhês, a irmã de um deles afirma que presenciou a cena da apreensão de um procurado.

 Segundo ela, os policias desferiram dois murros nas costas dele. Ao imobilizá-lo disseram: “Nós não vamos fazer nada, mas lá dentro [da unidade] a coisa tá pegando.”

Ao procurar informações na direção da unidade sobre o que estava acontecendo, uma das mães foi informada “de que lá dentro eles tinham as próprias leis”. Uma declaração de afronta diante de pessoas humildes e sem muita noção dos direitos garantidos.

Questionadas se relatos de agressões são comuns pelos jovens, as mães dizem que antes da fuga houve o caso de espancamento e isolamento de um deles. “Ele ficou tão traumatizado com a surra que nem conseguiu fugir no domingo”, afirma a prima.

Outro lado

Procurado para falar sobre as denúncias, o presidente do Instituto Sócioeducativo, órgão responsável por cuidar dos menores infratores, Casio Silveira, negou os relatos de violência e maus-tratos. “Não há nenhuma norma interna para esse tipo de represália”, disse. Sem entrar em detalhes de caso de agressões, ele preferiu falar sobre a transferência deles de um pavilhão para outro.

Segundo ele, denúncias do tipo devem ser encaminhadas à direção da unidade, e então investigadas. Comprovada-as, os envolvidos serão punidos.  Também procurado, o comandante da Polícia Militar, coronel Romário Célio, afirmou que não é dada orientação para os policiais agir com violência.
De acordo com Célio, as denúncias de eventuais abusos devem ser formalizadas à Corregedoria para maiores apurações. 

“Nunca recebemos visita de juiz ou promotor”, diz ex-interna

A jovem Tatiane Oliveira de Souza, 20, foi apreendida e sentenciada pela Justiça em 2005. Ela prefere não falar o motivo por que perdeu a liberdade. Então com 15 anos, ela afirma que casos de maus-tratos pelos agentes sócioeducativos são comuns. Agora livre, ela vê o drama de seu irmão foragido da Unidade Aquiry.

Durante o tempo que ficou recolhida, Tatiane afirma que nunca recebeu a visita de juízes ou promotores para acompanhar as condições do local. “Eles só sabem nos jogar lá e esquecem”, diz.

Ela afirma que os jovens estão sujeitos aos temperamentos e boa vontade dos agentes. “Dependemos deles para tudo; para beber água, comer e ir ao banheiro.” Quando estão de bom humor, fazem o trabalho sem reclames. Já quando as coisas não vão bem, os infratores ficam à mercê. 

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