Brava gente acreana

Um prédio com equipamentos como uma escola particular, por exemplo, não pode, por si mesmo, enquanto capital imobilizado, gerar riqueza. É preciso que professores e funcionários trabalhem e que pais trabalhadores paguem as mensalidades de seus filhos. Quanto maior a mensalidade e menor o salário pago aos professores maiores os lucros. O mesmo ocorre nos demais negócios de todo tipo.

Ora, os partidos surgiram para representar esses interesses que são distintos. Aquele que representa a classe que trabalha vai procurar legislar em função de maiores benefícios sociais, por exemplo. Aquele que trabalha para os interesses dos patrões vai legislar em função da liberação dos lucros, sem restrição de nenhum tipo; do congelamento dos salários e do aumento das mensalidades. E quando se constitui em maioria como sempre acontece pode até mesmo forçar o Estado a ser autoritário e reprimir manifestações e greves, cooptar lideranças sindicais para manter um imobilismo propício à crescente capitalização.

No Brasil, foram criados pelo próprio Vargas o PSD e o PTB, para defenderem os interesses dos que empregam e dos que são empregados, dentro de certos limites, no caso do PTB de reservar-se apenas às conquistas de melhorias, tipo ajustes salariais, alguns direitos e garantias. Nesse contexto, o Partido Comunista sempre fez o papel de fantasma a fazer búuuu para a classe empresarial, ao ponto de amedrontá-la o suficiente para forçar governos a colocá-lo na ilegalidade, perseguir, trancafiar, torturar e até mesmo matar seus filiados, com o consentimento geral de uma sociedade cristã em sua totalidade que abomina os comunistas porque são ateus.

Por diversas vezes o partido comunista ficou na ilegalidade, outras, participou de processos eleitorais, conforme o grau de risco que pudesse apresentar. A razão para isso é que os comunistas não buscam apenas melhorias para a classe trabalhadora e sim, mudanças radicais, como a reforma agrária, por exemplo. Afinal, a alta concentração de terras nas mãos de poucos em prejuízo de milhões que não podem comprar nem mesmo um lote 10 x 30 é a doença crônica da sociedade brasileira, o mal de todos os males.

Quando a classe empresarial dá folga à censura e à repressão é sinal de que os comunistas estão quietos, ou por estarem desfalcados e fragilizados ou porque estão ocupando cargos e gozando das benesses do Estado.

O bipartidarismo, em todo caso, sempre foi muito melhor para o processo político, por trazer maior nitidez, tanto para quem quer atuar na política de forma definida, seguindo um determinado programa, como para quem vota.

O pluripartidarismo trouxe essa confusão que não permite ver com nitidez o que esse ou aquele partido representa. Hoje em dias são tantas as siglas que mais parecem brincadeira de crianças com seus joguinhos de letras. Essa profusão de partidos está descolada da realidade social. Não existe mais, por exemplo, um candidato da categoria dos professores. O PT não representa mais a classe trabalhadora. Está tudo solto, valendo apenas a fidelidade partidária como ocorre com o PMDB do Acre e com o PT, mas, do mesmo modo como ocorre com as torcidas do Vasco e do Flamengo, sem bases sociais.

Mas na prática o que se configura é sempre o tradicional bipartidarismo, como vemos  hoje: PT e PSDB com seus respectivos aliados. E como os partidos se aliam de diversos modos conforme as conve-niências nos estados da federação, sem uma unidade programática, temos essa impressão de um quadro no mínimo confuso.

Na Capital do Acre, porém, um movimento inesperado irrompeu vindo da periferia para o centro, sem ter sido conduzido por nenhuma liderança “politizada” pela Igreja Católica como antigamente e que promoveu uma autêntica revolução acreana. E que não vai parar mais. Podem tirar o cavalinho da chuva porque o povo da Capital não vai votar em Dilma Rousseff. Tomou posse do seu voto, não vai mais obedecer às ordens de quem quer que seja.

Por si mesmo despertou o poder do povo para o povo, com unidade e firmeza, sem temor e de forma aguerrida. Seja a mídia, a internet, o aguçamento das contradições, o entendimento afinal de que o progresso só existe mesmo para as contas dos patrões, de que estão sozinhos, sem a proteção do Estado que sequer fiscaliza as condições de trabalho, de que não existem empregos para todos e de que os salários sempre serão infinitamente insuficientes para as suas necessidades, seja o sofrimento compartilhado e o  destino co-mum, o povo de Rio Branco adquiriu consciência de si e vai passar a existir para si, de agora em diante.

Esse tipo de despertar é irreversível e contrasta com a dormência no interior por duas razões: em Rio Branco o “progresso” veio de forma impactante, abrupta, excludente e alucinante. As igrejas evangélicas ofereceram o apoio moral, consti-tuindo-se em verdadeiras escolas de auto-gestão. As religiões, todas elas, com suas igrejas, templos e mesquitas são espaços de poder. Onde há hierarquia há poder. As críticas que fazem às lideranças evangélicas por sua penetração no espaço de poder mundano devem-se ao fato de não tolerarem essa emergência das camadas populares. Nunca foram feitas críticas à Igreja Católica por ter alçado o PT ao poder. O povo no poder é isso mesmo, deputados sem nem mesmo ter cursado o ensino médio. Queriam o que?
 Chegou ao fim o poder oligárquico no Acre. Quem veio das bases e fez sombra para a oligarquia desceu ladeira abaixo, virou estorvo. Libertou-se o Acre das fileiras dos estados currais das oligarquias, como ainda ocorre com o Alagoas e o Maranhão, por essa via.

Mas a cúpula do PT local ainda não sabe fazer outra coisa que lotear cargos em função do partido e dos interesses oligárquicos em vez de ouvir a sociedade. Esperamos não ser verdade o que estão dizendo que Edvaldo Magalhães irá para a pasta da Educação, para onde deveria ir, sem desmerecê-lo, alguém com embasamento teórico para formular uma educação voltada para a sustentabilidade, com mestrado ou doutorado em pedagogia, sem vícios partidários, de preferência um humanista. E é bom lembrar que os professores estão em pé de guerra e não esquecem que ele sequer desceu no elevador para dialogar com a categoria em greve. Os mandantes do PT não aprendem com os erros. Mas quem é que aprende? Eu mesma não aprendo. Mas eu não dependo de eleições.

 

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