Homens, sois deuses?

Nenhuma sociedade pode estar livre de Deus ou da idéia de Deus.  Esse é o grande tema da filosofia e quase sempre aparece como pano de fundo da história. No Egito antigo que nos parece tão distante no tempo, o Faraó era tido como um Deus e na sua presença um simples mortal sequer podia olhá-lo nos olhos. Seu corpo não podia parecer simplesmente como o de um mortal. E para abrigar os restos mortais dos Faraós erigiram-se colossais pirâmides no deserto. A casta sacerdotal era encarregada pela educação do povo, pela sedimentação dessas crenças. Mesmo Alexandre confiou totalmente na idéia de que descendia por linha materna do semi-Deus Ulisses.

Luis XIV que reinou por sete décadas foi o soberano que mais reuniu efeitos propagandísticos em função de sua imagem pública. O teatro, a Literatura, a Igreja, as artes plásticas, as impressoras, a cunhagem de moedas, efígies, tapeçarias, balés, óperas e todo tipo de espetáculos, além das histórias, tudo girava em torno do Rei Sol, não só na França como no exterior. Além do que ele era visto como a imagem de Deus, só contestada pelos protestantes que num panfleto se queixavam: o rei tomou o lugar do Estado.

Os reis ungidos bem como sua sagração faziam parte da encenação cerimonial, sob a responsabilidade da Igreja Católica. Luis XIV tanto representava o Estado como a majestade divina. O pacote do monarca reunia ideologia, propaganda e manipulação da opinião pública, Luis sabia como vender suas palavras, seu sorriso e até seus olhares. Embora esses conceitos propaganda, ideologia e opinião pública inexistissem no século XVII todas aquelas representações de Luis eram encomendadas para aumentar sua gloria, afinal, o louvor é dado  por indivíduos, a gloria por todo mundo. Para isso acontecer, o próprio Luis junto com seus ministros davam atenção a todo o sistema de comunicação. Leia-se Peter Burke.

É muito bom infundir a própria vontade a todos e ver que a ela todos se curvam e obedecem. A idéia de Deus no antigo testamento traz essa imagem de um ser superior que sentia necessidade de ser obedecido, enchendo-se de cólera quando isso não ocorria. Um dos últimos romances de José Saramago, escritor português comunista é uma narrativa sobre a saga de Caim em sua luta contra Deus, até derrotá-lo matando todas as pessoas férteis da arca de Noé. A tese do romance é que Deus, ao preferir Abel, gerou a inveja e com esta, o crime.

Mesmos os comunistas tidos como ateus alimentam-se da idéia de Deus subjacente à promessa de um paraíso, o comunismo, quando todos se tornam irmãos e iguais, sem distinção de nenhum tipo. O problema é que o Estado passou a materializar Deus e como tal, a pretender ser obedecido, e, para isso, a exercer controle sobre todos, de forma policialesca.

Fidel Castro realizou um feito inédito na História do mundo, ao tornar uma ilha produtora de açúcar referência mundial enquanto contraposição ao modelo capitalista, nas barbas dos EUA. Mas ele teme sair do comando, teme que tudo se perca, teme que a democracia, com a formação de partidos destrua tudo que ele fez. Até parece que Fidel venceu a morte, tamanho seu afinco em ser o que é: um Deus-Estado na ilha pagã.

O Che experimentou o conflito de sendo médico se ver obrigado a matar. Como é possível a alguém que fez juramento a Hipócrates poder sair matando? Para se redimir partiu para conquistar o impossível, erguer toda a América Latina de joelhos para o imperialismo norte-americano. E como ele era movido por uma causa que estava acima dos interesses pessoais e da simples sede de comando, ao se entregar para o sacrifício teve sua imagem projetada com a de um Cristo. Até hoje, jovens do mundo inteiro usam a estampa da foto do Che em suas camisetas e mantém pôster com sua imagem em seus quartos. Foi santificado.

O Brasil tornou-se um Estado Nacional sob a égide da monarquia européia que se modernizava no lado de lá. Na França, Napoleão Bonaparte, um oficial do exército, fez-se imperador e no ato da coroação tomou a coroa das mãos do Papa colocando-a, ele mesmo, sobre sua própria cabeça. Ele criou um novo código e escolas públicas laicas e gratuitas ao modo do liberalismo. No Brasil, até as primeiras décadas oitenta por cento da população morava no meio rural e era analfabeta. Toda evolução política e seus eventos dos quais temos registros foram movidos por elites intelectuais e/ou aristocratas. As revoltas das camadas populares foram sempre cruelmente massacradas, ora pela monarquia ora pela  República.

Tivemos monarcas, presidentes militares autoritários e aristocratas que manobravam o Estado em função dos seus interesses agro-exportadores, com breve intervalo de democratas: JK, Jânio e Jango. O país entrou no eixo com Itamar Franco, mas, seu sucessor, FHC, sociólogo, professor emérito da Sorbonne, engenheiro do Plano Real, promoveu um retrocesso histórico com aquela página negra da compra de votos no Congresso para aprovação da reeleição. Quis o trono, governou com as MPs, vendeu o patrimônio público como um autêntico monarca. Pariu o monstro e agora, seu partido luta pela lança de São Jorge.

Mas o pior é que toda essa encenação eleitoral tem seu palco ocupado só pelas elites de São Paulo. Sarney e Collor são das oligarquias do Nordeste que participam do poder desde a monarquia. O Acre é irrelevante, não conta. O próprio Lula apoiou Sarney contra o jovem senador acreano que despontava no cenário e angariava a simpatia nacional, seguindo a lógica da governa-bilidade que pressupõe as alianças mais espúrias. É chamado, por isso, de pragmático, termo que se usa de forma elegante quando não queremos dizer que uma pessoa é oportunista do tipo que acende uma vela para Deus e outra para o Diabo.

Quem dera que os eleitores do Brasil chutassem o pau da barraca, digo, as pernas do velho trono português que infunde esse continuísmo num país onde a democracia é duvidosa devido a abissal desigualdade social. O programa bolsa-família não deveria ser um fim em si mesmo e sim um programa provisório. A questão não é Lula dá, é a sociedade poder conquistar. Por causa do aparelhamento político-partidário do Estado, por toda parte, ficamos assim, como nos tempos do Rei Luis: L’ État c’est moi.

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