O estrelato do governo e as solidões

Os programas de governos são criados em gabinetes e na maioria das vezes, conduzidos por consultores ou lobbistas para proteger interesses dessa ou daquela instituição financeira, dessa ou daquela empresa. Enfim, os programas do Governo Federal são massificadores, não levam em conta as especificidades regionais, são genéricos.

Cidadania não é uma coisa pronta e acabada, é uma situação de continuidade, constância na aquisição de conhecimentos e experiência tendo por base a participação de fato. O que se vê é uma situação de passividade que coloca a todos no anonimato em função do estrelato do Governo.

A maioria dos problemas do mundo atual decorre da natureza do que vem a ser uma sociedade de massas, que tende, progressivamente, a se tornar totalmente urbana. Os laços afetivos das formações comunitárias são destruídos pelo individualismo típico, pelas relações de estranheza da burocracia, pela competitividade, pelo rebaixamento do indivíduo a sua mera condição no âmbito das relações de mercado, como mercadorias.

Deveria ser prioridade dos partidos mais à esquerda ao chegar ao poder apresentar projetos de inclusão onde o modelo fosse o estímulo à formação e fortalecimento dos laços comunitários. Os homens são tribais, as tribos são hostis umas com as outras, mas as guerras podem ser transformadas em campeonatos de futebol entre bairros, por exemplo.

Antes da era moderna, da economia monetária, do surgimento da propriedade privada registrada em cartório, do comércio a longa distância, o modelo de organização social que existia por toda parte era o comunitário, tanto entre os brancos, como entre os negros e indígenas. Mesmo na Europa, as comunidades de aldeões apresentavam, em média, duzentas pessoas em sua formação de famílias extensas. A família nuclear, como existe hoje, pai, mãe e filhos lutando por um lugar ao sol, e produzindo  herdades  é produto dessa era moderna.

O surgimento de cidades, a apropriação das terras por empresários capitalistas para produção em grande escala, de alimentos e matérias-primas, promoveu a desarticulação dessas comunidades, e, uma saída em massa para as cidades que surgiam de modo que os laços comunitários e afetivos soçobraram em razão da sobrevivência em um meio hostil, onde o alimento dependia das horas trabalhadas nas primeiras fábricas, quando não era mais possível possuir sequer um quintalzinho para plantar alface e o antigo vizinho passou a ser mais um concorrente disputando a vaga na fábrica.

As experiências com o sistema comunista também resultaram nesse modo de apropriação do trabalho das massas, seja nas fábricas, seja nas fazendas do Estado, regido por uma casta dirigente, produzindo o mesmo efeito, qual seja, o desaparecimento das comunidades em favor de uma sociedade de massas. Comenta-se que o elevado consumo de vodka que gerou números astronômicos de bêbados nas ruas de Moscou levou o regime comunista a sucumbir.  Certo é que ambos os sistemas pensam o ser humano como uma peça de uma grande engrenagem. O ideal de todos é a alta concentração urbana.

A economia, a competitividade é que dão o dom deixando-se de lado quaisquer opções do tipo humanitárias. É por isso mesmo que as massas hoje procuram tanto as igrejas porque sentem solidão, antes de tudo, sentem o isolamento de sua condição de vida, a sua impotência e a de seus vizinhos para solucionar os problemas mais simples.

Há um mês, mais ou menos, fui testemunha de uma ação movida por mulheres residentes no começo da BR-364, sentido RB-Porto Velho que colocaram pneus e paus velhos na rodovia onde atearam fogo para impedir o tráfego numa forma de chamar a atenção da Eletroacre para o fato de estarem sem luz há onze dias.  Um rapaz tinha sido assassinato ali mesmo junto ao muro do restaurante Caçimbas, nas cercanias, sendo que os moradores não puderam ver quem fez isso devido à escuridão.

A ira dos caminhoneiros para com aquelas mulheres era evidente, um deles, de um carro-pipa ameaçou passar por cima dos entulhos incendiados. A indiferença aos problemas dos outros é muito flagrante.

Em questão de minutos surgiram duas viaturas da Polícia Rodoviária e da PM que colocaram as mulheres para correr, liberando o trânsito. Nem apareceram câmeras de TV, nem a Eletroacre sequer soube do evento.

As donas-de-casa voltaram para suas casas humilhadas. É desse modo que se entende o poder do Estado, a manutenção da ordem, mas a ordem que interessa àqueles que não estão passando por problemas nenhum e não se sentem responsáveis pelos problemas dos demais. Nem são respeitadas ações políticas, espontâneas, por parte das comunidades. Os policiais não pensaram na possibilidade de fazer a mediação entre as manifestantes e a Eletroacre, mesmo liberando o tráfego como fizeram.

Se um profissional é técnico agrícola, por exemplo, ele quer ficar na repartição onde trabalha, podendo, no máximo fazer uma visita em algum pólo produtor. Ele não quer viver junto à comunidade para acompanhar, anotar, interpretar os problemas, ele nem está preparado para fazer uma leitura satisfatória que contemple não apenas a acidez do solo, mas as condições de educação, saúde, entretenimento e lazer das comunidades. Ele precisaria ficar inverno e verão trabalhando junto à comunidade, melhor ainda se acompanhado por pedagogos, agentes de saúde, para um trabalho conjunto o tempo que fosse necessário para que aquela comunidade passasse a produzir, gerando renda, segurando as novas gerações na terra.

Fazendo, com responsabilidade, a mediação entre as comunidades e Estado, de maneira que os programas fossem elaborados de baixo para cima e não o contrário, como se vê, o velho estado na condição de pai, dando as coisas, posando nas páginas dos jornais sob a aparência  daquele que o encarna no momento, em pleno fulgor do estrelato.

Em quaisquer ramais que se andar, num breve olhar, já se percebe que a população de crianças e adolescentes ultrapassa em dois terços a de adultos. A pressão por empregos, na cidade, só tenderá a aumentar. Bem como o montante dos programas do tipo bolsa família que vai atingir níveis insuportáveis para os cofres públicos. Enquanto isso, os protegidos não querem trabalhar, ficar sob a proteção do governo é o objetivo ao qual  todos eles perseguem.

Assuntos desta notícia

Join the Conversation