O “homem-massa”

Historiadores renomados dizem que  aquilo que o Contrato Social de Rousseau foi para o século XVIII e o Capital de Marx para o século XIX, A Rebelião das Massas de José Ortega y Gasset (1883-1955) catedrático de filosofia na Universidade de Madri, deveria sê-lo para o século XX e, por alcance, para o século XXI.

Em A Rebelião das Massas, Ortega diz que o homem-massa não designa uma classe social; é um idealtipo, um modo de ser que hoje se encontra em todas as classes. O “homem-massa seria aquele que desfruta dos progressos da técnica sem reconhecer que foram recebidos por tradição das gerações anteriores, não se sente devedor de nada nem de ninguém; é aproveitador das vantagens sociais. O homem-massa não percebe que a cultura e as instituições em que vive são realidades  precárias; é, portanto, um irresponsável; é um especialista incapaz de enfrentar um problema geral; é decidido em rejeitar a discussão. No homem-massa detesta-se toda forma de convivência que por si mesma comporta o respeito de normas objetivas. Suprimem-se todos os trâmites normativos e se corre diretamente para a imposição daquilo que se deseja.

O homem-massa é um novo bárbaro que não se limita considerar-se excelente enquanto é vulgar, mas pretende impor vulgaridade como direito e o direito à vulgaridade. Ortega, diz ainda, que nosso tempo ou época se orgulha dessa monstruosa novidade: O direito de não ter razão, a razão da não-razão. Novidade esta tanto mais clara se considerarmos o fato de que o homem-massa confiou totalmente sua vida ao poder público, ao Estado. O fascismo e o bolchevismo representam exatamente movimentos de homens-massa dirigidos por homens por vezes rudes e privados de qualquer cultura. Homem-massa, em outros termos, é um homem que “deu as costas aos valores  da tradição liberal e introduziu na vida pública um estilo de ação baseado sobre a sistemática agressão e cancelamento do outro, sobre idolatria do chefe carismático e sobre o estatismo totalitário”.

O mundo que circunda o homem, diz Gasset, é um mundo rico, que não conhece mais as privações de um tempo. Contudo, é justamente aqui que a razão caiu em grande  ilusão. Em vez de tornar o homem consciente dos benefícios e das vantagens da nova sociedade, em vez de fazer refletir sobre os esforços gigantescos dos quais a nova ordem nasceu e sobre os esforços necessários para mantê-lo em vida, irresponsavelmente fez acreditar que qualquer coisa é possível. Nasceu assim o “homem-massa”, um “menino viciado”, cujo “diagrama psicológico” caracteriza-se pela “livre expansão de seus desejos vitais, isto é, de sua pessoa, e absoluta ingratidão para com tudo que  tornou possível a facilidade de sua existência”.

O homem-massa encontra mais tarde em Martin Heidegger (1889-1976), numa mesmice histórica da filosofia, um novo perfil. Trata-se de um conceito filosófico do reputado existencialista  mostrando a queda do homem no plano das coisas do mundo, ou seja, a queda da existência ao nível da inautenticidade e banalidade das agruras quotidianas. “O estado de dejeção é aquele em que a existência se distância de si, esconde a si mesma sua possibilidade própria e se abandona ao modo de ser anônimo que se caracteriza pela tagarelice, pela curiosidade e pelo equívoco”.

O termo dejeção, usado por Heidegger, se aplica de forma fenomenal aos dias de hoje, já que vivemos a época da falação, das tagarelices e dos discursos falaciosos. A crise financeira mundial é uma amostra do quanto estamos equivocados nas nossas ações; pelo menos 1 bilhão de pessoas está, no planeta terra, passando fome. Fome que avança implacavelmente em, pelo menos, 29 países. O Brasil, particularmente, é um país moderno, onde milhões de cidadãos, embora titulares de direitos subjetivos vive à margem da lei e da própria constituição, sem direitos objetivos, mesmo os mais fundamentais.

 Vivemos num país onde há pessoas, em sua maioria, mergulhadas na ausência de conhecimento sobre as causas da pobreza, e sobre a extensão e gravidade da nossa própria cumplicidade nesta situação. À luz desse quadro de equívocos, basta uma simples olhadinha no panorama geral da vida moderna, nota-damente na vida urbana, para constatar que as nossas prioridades estão invertidas; isto é, estamos todos, ou quase todos, lutando por valores instrumentais (bens de consumo).  Enquanto que o conhecimento (como verdade), no dizer de Nicolai Hartmann; os valores morais (como o bom); os valores vitais (saúde e bem-estar) estão relegados ao terceiro plano.

O mundo, naturalmente, como pano de fundo dessa questão, é um protótipo do homem-massa. O homem-massa, principal protagonista desse circo mundial,  avança cada vez mais para a condição de objeto de administração centralizada e burocratizada (Horkheimer), preso a organizações de massa que nunca vão além do horizonte do capitalismo de Estado

* Francisco Assis dos Santos é professor e pesquisador  bibliográfico em Filosofia e Ciências da Religião.E-mail: [email protected]

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