LEONARDO, O VACILÃO

Depois de Ilha da Consciência, Corações de Borracha e Amanda, o jornalista e escritor Silvio Martinello  presenteia seus leitores com “Acre – Onde o Vento Faz a Curva”.  É um livro que, pelo rea-lismo fantástico dos passageiros dessa nave imaginária, agarra o leitor do começo ao fim, com um visgo que só os índios “nada fofinhos” são capazes de encontrar na floresta.
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Vou me ater a um personagem especial, Leonardo, o filósofo vacilão. Como gostaria de aprender com as reflexões e a tolerância que esse bom sujeito nos mostra.

Leonardo me parece um “filósofo” com lances de sabedoria que transcende o tempo e que percebe um pouco prá lá das estrelas. É admirável a capacidade dele ao questionar um pouco do “para quê” cada um expõe o melhor e o pior de si. Será no afã de defender virtudes, pontos de vista, saberes, tolices, equívocos, acertos, talentos? Ele mostra seres que blasfemam, mas que ao mesmo tempo também choram e quando isto ocorre, recobram, mesmo que por fração de segundos, o humano bom senso que é inerente a espécie que os identifica.

A irreverência bem humorada de Leonardo nos remete a rever posturas e formas num repensar sobre conceitos e atitudes que pensávamos ter alcançado como “verdade cristalina”. Nos induz a lembrar que “pensar que sabemos tudo” impede que aprendamos. Impede que o novo se apresente como opor-tunidade de perceber mais, inovar, enriquecer, aperfeiçoar, sobre uma realidade ou tema que já havíamos fechado o ponto, com um “é lógico que é assim”.

Se nos fechamos à possibilidade de ver de novo, muitas vezes somos impedidos de perceber, mesmo quem está bem pertinho ao nosso lado, imagine poder ver um pouco mais prá lá, “onde o vento faz a curva”. Leonardo nos lembra de saberes que transcendem o tempo dos humanos. Também instiga que deixemos que a brisa toque as moleiras e um pouco de sabedoria pura, milenar, ingênua, permeie o cérebro e amoleça o coração. Vacilão, sim. E quantas vezes somos vacilões? Quantas vezes que benção sermos vacilões. Quantas vezes atitudes de um “não sei” responsável,  significa a sabedoria maior, o dedo, a voz de Deus em nossas almas/corações e impedem que degeneremos a espécie, a sabedoria e o propósito para o qual fomos criados?

Leonardo, às vezes é também aguerrido e duro pelos equívocos incorporados da sociedade do dever e do fazer. Do que compensa, do que é moderno, do que convém, do que te deixa bem na foto. Mas Leonardo como eu, como você, como a maioria, senão todos, antes e acima de tudo é uma pessoa do bem, que quer acertar, quer sentir menos angústia e embalar a vida na serenidade possível.

Leonardo  medroso, viajão, genioso sim, mas tolerante e compassivo, ajuda a nos rever em forma e expressão. Estimula o diálogo e a indagação. Talvez nos ajude a sermos (mais) humanos.

O livro é o tipo de leitura que a imaginação corre solta e você vai montando a cena, com o entusiasmo aguçado para a próxima página.
Silvio tem o dom da escrita. Incorpora uma forma de escrever e contar que prende a atenção e você lê com a avidez de quero mais.  
Queres mais? Leia o livro.

Martinello, Silvio.  Acre – onde o vento faz a curva. Printac , Rio Branco. 222 pp.

Acre – onde o vento faz a curva

Desta feita, o jornalista e escritor Silvio Martinello exorbitou.

Depois de fazer a releitura dos três ciclos sócio-econômicos do Acre com seus livros – A Ilha da Consciência, Corações de Borracha e Amanda – vem com mais esta pérola, “Acre, onde o vento faz a curva”.

Silvio Martinello embarcou em um Boeing em Rio Branco, a Capital do Acre, e o que deveria ser mais um desses vôos sonolentos da madrugada se transformou em pesadelo.

Era uma noite estranha. Muito estranha. O Acre, pelo menos, parecia fora dos eixos. Não se sabe obra de quem, alguém conseguira reunir, naquele vôo, representantes de todas as classes sociais do Estado.

Além de gringos, ongueiros. Até artistas globais.

Bobagem do jornalista. Toda aquela gente e efervescência poderiam significar “o bom momento que o Acre está vivendo”.

Tanto é que, entre os passageiros, estava o indigenista Leonardo, que passa mais tempo nas alturas do que com os pés na terra. Além de indigenista, Leonardo é um companheiro hormonal. Fã do presidente Lula, vibra com o “novo Brasil”, pega briga feia de rua para defendê-lo se preciso for.
Seria então bobagem ou superstição?

Antes fossem. Porque assim que o Boeing levantou vôo foi tragado por uma forte ventania. Contrariando todas as leis da física, da aerodinâmica, o Boeing aterrissou – ou teria sido abduzido? – em uma clareira rasgada no meio da floresta amazônica.

Não era, porém, uma clareira qualquer. Ao amanhecer, Leonardo e os sobreviventes se deram conta de que o avião pousara em um descampado em forma de quadrilátero. Na queda, constataram que nada mais funcionava. Nem rádio, radar nem telefones ou laptop.

Pior do que isso. Nada que pudesse provocar qualquer faísca. Como homens das cavernas do Vale de Neanderthal, foram obrigados a começar tudo do zero, a esfregar os pauzinhos, para fazer uma simples fogueira. Além do que, divididos em partidos políticos, seitas religiosas, classes sociais teriam que se entender.

Seus problemas não pararam aí. Certo dia, o descampado rasgou-se de uma ponta a outra. Da fenda, os sobreviventes ouviram vozes, gemidos vindos das profundezas da terra.

Antes disso, o indigenista Leonardo foi salvo por uma mulher que aparecera do nada e o livrou de uma flecha envenenada. Ato contínuo, a mesma mulher revidou com um tiro de pistola, matando um índio isolado,  que vivia ainda em estado pré-colombiano.

A partir desse episódio tudo desmoronaria na vida de Leonardo, o bonitão, como era tratado pelas mulheres. Indigenista, humanista, marqueteiro do bem, sempre politicamente correto, de repente se viu no meio de uma guerra suja, sórdida, que está sendo travada na fronteira.

Obrigado a rever seus conceitos, deu-se conta de que não existe mais índio fofinho nem floresta bonitinha, boazinha com serezinhos azuis e outras platitudes.

Ao mesmo tempo, Leonardo envolveu-se em uma relação de ódio e amor com a mulher estranha que o salvara: Dani, que se pronuncia Daní e significa, em Huni Kui, seu povo, mulher de lindos cabelos. Dura, cruel no trato com os inimigos, insidiosa como uma cobra, Dani Huni

Kui – Kaxinawa na linguagem dos brancos – atrai Leonardo para seu esconderijo. Mesmo que seja por pouco tempo, ali vivem um amor intenso, selvagem.
Por todos esses ingredientes, vale a pena conferir mais este lançamento do jornalista e escritor Silvio Martinello, com seu texto ágil, sardônico e a análise sempre atenta e crítica da História.

 

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