O perigo do retrocesso

Lamentável os rumos que o debate político tomou na campanha presidencial do segundo turno. O foco está muito mais em questões moralistas do que assuntos que interessam verdadeiramente ao povo brasileiro. Na minha opinião, não é atribuição do presidente da República decidir se pode ou não haver a legalização do aborto. Quem vai decidir sobre essa questão é o Congresso Nacional que possui as atribuições das representatividades sociais manifestas nos seus deputados federais e senadores. Ao presidente cabe apenas sancionar aquilo que vier das duas Casas Parlamentares.

Outra questão preocupante é quando as seis famílias multimilionárias que detém o controle da mídia brasileira se arvoram em debater a liberdade de imprensa. Elas subestimam a inteligência do povo brasileiro escrevendo o que querem (sem censura), explicitando o apoio a Serra (PSDB) e ainda sugerindo que no caso de uma vitória de Dilma (PT) poderia haver censura. O engraçado é que a afirmação vem de algumas empresas que endossaram a verdadeira censura que houve no tempo da Ditadura Militar. Aliás, é bom lembrar que o vice do Serra, Índio da Costa (DEM), afirma que os que lutaram contra a Ditadura Militar são terroristas. Imaginem se acontecer algo ao Serra que não possa governar e o Índio assumir?       

Mais uma coisa vergonhosa é a postura de alguns grupos religiosos católicos e evangélicos que resolveram demonizar a candidatura de Dilma. Por interesses escusos determinaram o que é o bem e o que é o mal. Usam argumentos moralistas que, na verdade, beneficiam o que há de mais atrasado na nossa sociedade. Já dizia Gandhi: “A moral é humana e a verdade é divina”. Portanto, esses falsos líderes religiosos estão muito mais preocupados com a moral humana do que em dar aos seus fiéis verdadeiras orientações espirituais para alcançarem a verdade divina.  A preferência por uma ou outra candidatura é uma questão íntima de cada um garantida pelo nosso sistema democrático.

A mudança de paradigma econômico que o Serra quer promover no país para beneficiar os empresários paulistas, no meu ponto de vista, é um retrocesso. Lula fortaleceu o nosso mercado interno atraindo investimento externo e valorizando naturalmente o Real. Serra quer desvalorizar artificialmente o Real e incentivar as exportações. Se o tucano ganhar todos os brasileiros acordarão 40% mais pobres com a desvalorização da nossa moeda já anunciada pelo presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PSDB-PE).

A desculpa de que incentivando as exportações estará criando novos empregos é relativa. O Brasil sempre foi exportador antes da Era Lula. Nesse período só os mesmos da elite paulista enriqueceram. No atual Governo milhões de empregos foram gerados a partir do fortalecimento do nosso mercado consumidor interno. Houve mais distribuição de renda e o Brasil fortaleceu a sua imagem no exterior. O câmbio é flutuante e não pode ser mascarado para beneficiar meia dúzia de milionários que se incomodam com a melhoria do poder de consumo do povo brasileiro. Mas viva a democracia! E que nada interfira na escolha soberana do povo brasileiro.         

* Nelson Liano é jornalista
[email protected] – twitter.com/NelsonLiano   

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