Túmulos caiados

É lamentável a entrada da questão religiosa na campanha eleitoral. Mesmo no primeiro turno não foram poucos os padres e pastores que orientaram os seus fiéis para votarem num ou outro candidato. Parece que esqueceram que vivemos num país que tem uma Constituição laica e, portanto, admite a liberdade de religião sem nenhum tipo de restrição.

Existem poucos países do mundo que tem uma liberdade religiosa tão grande como o Brasil. Inclusive, talvez essa seja uma das razões de sermos também um povo pacífico na sua essência. A maioria das guerras e conflitos armados tem origem justamente na intolerância religiosa. As Irlandas, os países do Oriente Médio, a Índia e o Paquistão são alguns exemplos de nações com deflagrações sociais violentas geradas por disputas religiosas.

Também o comportamento social dos brasileiros em relação à religiosidade é bastante diverso. É comum uma mesma pessoa freqüentar a Igreja Católica e depois participar de um culto espiritual afro-brasileiro. Assistir a um culto evangélico e em seguida procurar um centro espírita. A religiosidade brasileira é pluralista na sua essência. Não é à-toa que por aqui surgiram reli-giões tipicamente brasileiras que têm as suas próprias doutrinas espirituais impregnadas do ecumenismo e do sincretismo como a Umbanda e o Santo Daime. 

O sincretismo religioso só seria possítilar com as deidades hindus depois que praticas yóguicas se tornaram moda nos grandes centros do país. A Rede Globo captou o momento e no ano passado exibiu a novela Caminhos da Índia de autoria da acreana Glória Perez.

Portanto, os supostos líderes religiosos que pregam o ódio contra candidatos e candidatas estão contradizendo a sua própria fé. Quem procura uma religião quer fazer o “religare” espiritual entre o mundo material e o transcendental. É um trabalho muito importante que demanda um tempo precioso para que seja perdido com discussões mundanas e moralistas de caráter político e partidário.

Na minha opinião, um líder religioso que está mais preocupado com um resultado eleitoral do que com o desenvolvimento espiritual do seu rebanho está perdido nas suas atribuições. Está mais preocupado com as riquezas do mundo que serão corrompidas pela inexorável ação do tempo do que com os tesouros perpétuos da eternidade. Eles são os verdadeiros túmulos caiados que belos e lustrosos por fora escondem todo tipo de podridão e iniqüidade por dentro.

Basta de hipocrisia! Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Vamos deixar os discursos políticos para os palanques e as orientações espirituais para os templos. Como diria o Rei Salomão: “o resto é tudo vaidade e vento que passa”.  

* Nelson Liano é jornalista
[email protected] – twitter.com/NelsonLiano     

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