A BR mais Brasil das estradas

Quem pode percorrer a BR-364, ligando o Acre de Norte a Sul, ou melhor, abrindo de vez a Capital até Cruzeiro do Sul e, poste-riormente, sendo o elo de ligação para outros países, outros continentes, não pode imaginar o que significa para as cidades que mar-geiam ela, suas comunidades, vilas, sua população.

Recentemente tive a grata satisfação de percorrer até Tarauacá, passando ainda pelos municípios de Manoel Urbano e Feijó, constatando o que vem sendo feito nesta BR, as dificuldades geográficas pró-prias do Acre, sua terra incomum e a certeza que o trabalho ainda irá perdurar mais de um ano.

Porém a certeza de que existe a possibilidade de mantê-la abertura mesmo durante o período de chuvas, enche de alegria as várias comunidades em seu trajeto. Alguns “entendidos” do assunto – isso mesmo, os engenheiros de fundo de quintal – afirmam que isso iria comprometer a terraplanagem e serviria muito mais como resposta política, do que mesmo um trabalho a longo prazo.

Durante o trajeto, que perdura aproximadamente oito horas, isso se não chover, se complica ainda mais pelas várias travessias de balsas, os trechos ocupados por máquinas, paralisando o tráfego nos dois sentidos, mesmo que por alguns minutos. Todo esse investimento, que ultrapassa facilmente os R$ 100 milhões e quase uma dezena de pontes, irá resgatar a cidadania de um povo esquecido.

Segundo as palavras de moradores destes municípios, “durante vários meses a única estrada que conhecemos é a construída nas ‘veias dos rios’, possibilitando que não ‘venhamos’ a morrer na míngua”. Palavras sábias, vindas de pessoas que o documento pouco vale, porém a palavra do homem (ou mulher), servem como compromisso no “cartório de Deus”.

Bem sei que o progresso não trará apenas benfeitorias, mas mazelas também. Aqui mesmo em Rio Branco os benefícios demoram muito mais para chegar que a criminalidade, a pobreza, o abandono, dentre tantos fatores.

Sem a perspectiva de emprego em vários municípios, lazer ou outros fatores, as crianças e adolescentes caem muito cedo em caminhos tortuosos, onde poucos conseguem retornar. É muito fácil um prato de comida servir de troca por uma “inocência perdida”, um brinquedo por uma carícia, uma bebida por um engano.
“Haverá um tempo em que o homem servirá o prato de seu próximo de sabedoria e amor. Enquanto não chegamos nele, soframos com o pão que…”, mas esses dias estão por chegar.

Ramiro Marcelo é jornalista.
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