Mulheres e abortos

Não quero entrar numa discussão moral, ética, legal ou religiosa sobre o aborto até porque, ao longo da história mundial, há mais de 4 mil anos, essas discussões não evoluem e não se chega a um consenso.

O que quero dizer é que, independentemente de ser imoral, antiético, ilegal ou demonizado, o aborto induzido, procurado, voluntário existe, está aí e é praticado por todo tipo de mulher.

No Brasil são mais de três milhões e meio de mulheres que o praticam através de medicamentos ou de intervenções cirúrgicas nada aconselháveis.

Já me deparei com uma empregada doméstica, de 18 anos, que morava na minha casa, com febre altíssima e toda ensangüentada. Eu nem sabia que ela estava grávida. Ela procurou uma “clínica” no fim de semana de folga e na segunda não conseguia sair da cama. Me desesperei ao ver a cena. Como ela poderia ter um filho de um cara que conheceu num inferninho e nunca mais voltou a vê-lo?

Já acompanhei uma amiga de 45 anos, casada, mãe de dois filhos universitários, para uma clínica melhorzinha. Como ela explicaria uma gravidez para o marido se há muito tempo eles não mantinham relações sexuais? Ela deveria correr o risco e jogar fora um casamento com mais de 26 anos? Só por causa de uma transa de fim de noite?

Já aconselhei uma amiga médica, de 47 anos, a não fazer um aborto e suas argumentações colocaram as minhas no chinelo. Como ter um filho de um cara que não amo? Com a idade que eu tenho? Vou ser avó dessa criança e ela tem enormes riscos de nascer com síndrome de Down.

Cada mulher tem seus motivos, suas razões. O que não pode é um homem querer tomar essa decisão por ela. Muitas mulheres acabam também fazendo aborto por imposição do parceiro que às vezes já é casado ou é separado mas já tem muitos filhos ou ainda porque não tem condições financeiras de sustentar mais uma criança. Temos ainda os casos dos caras que já estavam pensando em sair da relação e se sentem aprisionados pela chegada de um filho.

Os casos são muitos. As motivações são muitas. Eu sou contra o aborto mas, pode até parecer contraditório, não tenho condições de criticar ou julgar qualquer mulher por praticá-lo.

Cada uma sabe o que deve ou não fazer. Cada uma deve saber das conseqüên-cias físicas e emocionais de um aborto.

Advogo que cada mulher tem o poder de optar por gerar ou não gerar, interromper ou não uma gravidez. O que cabe a qualquer outra pessoa é apoiar sua decisão. E o que cabe ao poder público é garantir que sua decisão seja respeitada e amparada até porque, se o aborto clandestino não der certo, é na maternidade pública que essas mulheres vão parar em estado gravíssimo.

Eliane Sinhasique é jornalista, radialista e publicitária
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