Um bom trato até que cai bem

Aquela feira que reúne exposição de artesanato e venda de comidas típicas tais como Pirarucu de casaca, Salpicão de galinha, Rabada-no-Tucupi entre  outras, já se tornou tradicional em Rio Branco. Neste ano ela reapareceu frente ao quartel da PM desta Capital, sob tendas, sempre no último final de semana de cada mês. De uns tempos para cá ela adquiriu um novo nome: “economia solidária”, coisa que não importa muito para as famílias que se deslocam aos fins de tarde dos domingos para jantar, lanchar, comprar um jarro de plantas ou mesmo alguma peça do artesanato local.

A feira esteve instalada por diversas vezes em vários locais desta cidade: na praça Oscar Passos, nos idos de 1988, naquela rua situada entre o Palácio Rio Branco e a Catedral, outra, em frente ao SESC da Av. Brasil, outra, no espaço do Sebrae situado na Avenida Ceará e não sei mais quantos locais, sendo uma feira itinerante sem nem mesmo um calendário próprio porque em determinados períodos ela ressurge somente durante o verão, em outros, durante o inverno, de maneira que não poderia  nem mesmo constar em guias turísticos sobre Rio Branco.

Neste domingo em que a visitei, para comer alguma coisa diferente do rotineiro e também rever velhas amigas que sempre expõem seu artesanato naquelas barracas, fiquei   constrangida ao perceber que os alimentos são servidos em descartáveis de plástico requentados nos microondas. Sendo verdade ou mentira que  esse uso é danoso para a saúde desisti de comer a batata recheada.

O que se sabe é que todo objeto feito de plástico contém um composto orgânico chamado de dioxina que é gerado no processo de fabricação. A indústria não tem condições para aferir a qualidade da matéria-prima, somente a Petrobras, em nosso país, tem aparato técnico para isso. Mas os cientistas avisam para se ter precaução. Em condições normais de temperatura a dioxina não é liberada dos plásticos como brinquedos e garrafas pet, por isso recomenda-se que nunca se aqueça alimentos no aparelho de microondas em reci-pientes de plástico e sim de vidro. A dioxina é tóxica e carcinogênica. Com toda essa quantidade de plásticos jogados  por toda parte, em meio urbano e rural pode ocorrer com o excessivo calor do sol que a mesma fique suspensa nas águas que são absorvidas pelas plantas que são ingeridas pelos animais onde o composto permanece armazenado no tecido adiposo, ou seja, nas gorduras. Quem gosta de ingerir cerveja com picanha com  certa amiga minha está correndo risco.

Não contei o numero de bancas de produtos comestíveis, mas, deve ser por volta de vinte. Deve ser esse também o número de me-sinhas de plástico de modo que muitas pessoas terminavam comendo de pé, porque aqueles que conseguiam mesas não tinham pressa o que é natural numa tarde de domingo, ainda mais, com um toró despencando sobre a tenda.

Apesar de ter chegado pouco antes da chuva forte quando a tarde esmaecia e a atmosfera se tornava mais fresca pude perceber que havia fadiga na expressão das mulheres que atendiam nas bancas de alimentos e em alguns casos, aquela camada de gordura brilhando no rosto como ficam em geral algumas pessoas, em particular as brancas, quando passam muito tempo em ambientes abafados. A gente percebe claramente, basta ter um pouco de sensibilidade que as pessoas estão ali contidas pois estão com muita vontade de se refrescar.

O excessivo calor que faz sob aquelas tendas enormes feitas de plástico, ainda mais agora quando o Sol se põe mais tarde, sem ventilação e pior, sem nenhuma torneira para lavar as mãos, antebraços e o próprio rosto para refrescar é, no mínimo, humilhante. E não havendo torneira todos nós, os que comparecemos para saborear as guloseimas, também não temos como lavar as mãos. Num relance pude ver que havia dois banheiros químicos, um bom negócio nos dias atuais, pois são alugados para o Governo que pode pagar preços tão em alta, mas são impraticáveis para se lavar as mãos a toda hora, no caso das atendentes e dos fregueses de todas as faixas etárias.

Não fosse uma iniciativa apoiada pelo Governo,  por muito menos, receberia uma multa ou interdição por parte da Anvisa.

Alguém com quem conversava sobre esses detalhes comentou que o Governo aprecia muito os passos largos e negligencia os pequenos passos. E também, discutíamos, eu e algumas pes-soas, o fato de que o Governo está sempre a prestigiar ou privilegiar pessoas da classe alta quando se trata de ocupar ou administrar espaços restaurados ou construídos com recursos públicos e um pouco de glamour arquitetônico. 

Já se vão duas dezenas de anos que essa feira existe, mesmo que sob nomes diferentes. Não seria o caso de se criar para ela um espaço permanente, como ocorre em capitais do Nordeste? Em Salvador, o Mercado Modelo é uma referência para o turista que deseja saborear acarajé e vatapá baiano afora peças da produção artesa-nal. Do mesmo modo, em Recife, o Mercado de São Pedro. Em Fortaleza, a própria fortaleza e assim por diante, são espaços onde é possível saborear comidas típicas a preços razoáveis para turistas de dentro e de fora, de todas as faixas de renda e ainda comprar produtos do artesanato local, sejam souvenirs,  utilitários ou decorativos e ornamentais.

O Mercado dos Colonos recém-reformado daria um excelente Mercado Modelo, se houvessem pensado nisso, é óbvio. Quem sabe um dia, ao reformar e revitalizar algum espaço antigo do município, o Poder Público considere essa idéia de criar um local permanente para abrigar a feira. De todo modo, se a idéia é mesmo essa de que a feira seja itinerante e que reapareça vez por outra, de forma casual, aqui ou ali, que pelo menos seja de forma mais confortável e higiênica para quem trabalha nela e para quem a busca para se alimentar.

 

Assuntos desta notícia

Join the Conversation