A fonte

Difícil encontrar uma/um jornalista que não ame sua profissão. Se não ama dá logo um jeito de abandonar. Os que decidem seguir em frente, com ou sem diploma, saem corajosos e cheios de energia e idéias para transformar o mundo ou simplesmente garantir a verba honesta com trabalho honesto dando visibilidade às informações mais importantes e que possam contribuir para que o planeta seja um lugar melhor onde todos possam coabitar de forma pacífica e justa. Que belo propósito para exercer uma profissão.

Mas no meio do caminho tinha tudo quanto é tipo de pedra. Quebrar pedreiras é uma constante na vida de uma/um jornalista. Tantas lições a aprender, tantas perguntas a fazer, tantas dúvidas a tirar, um verdadeiro especialista em coisa nenhuma e ao mesmo tempo em muitas áreas diversas, distintas, divergentes. Cansa querer saber de tudo quando o mundo não pára, o tempo não pára. Quando jornalista entra em crise não quer saber de perguntar mais nada. Meio que emudece por fora porque por dentro continua aquele por quê infinito batendo insistentemente na mesma tecla – tecle, tecle – o barulhinho que avisa que o pensamento está se materializando nas palavras que vão já já sair pro mundo várias vezes por dia, nas ondas sonoras, pretinhas impressas em papel pardo. E o por quê junto/separado/com acento/sem acento vem acompanhado de quem, onde, como, quando.

Quando se chega a esse ponto, o caminho não tem volta. Quem chegou até aqui sabe o que é ser abordado na rua e ter que ouvir a super pauta do ano sobre aquela história que já se escreveu ou se leu tantas vezes e ainda fazer cara de que “oh, que interessante”. E realmente buscar alguma coisa interessante nesta história pra poder contar novamente. Sabe o que é tomar um “chá de espera” de algumas horas para deixar que, quem quer que seja, fale suas grandes verdades para o mundo e nem ao menos ser reconhecido por isso? E receber uma proposta de trabalho vergonhosa? Não é fácil. Pior mesmo é ter que manter a discrição sobre pessoas físicas e jurídicas que contratam os valiosos serviços de comunicação e não pagam.

Manter a discrição em termos. Às vezes é possível revelar o pecado sem revelar o nome do pecador. Garantir o sigilo das fontes é um dever do jornalista, resguardá-lo é um dever e não falar publicamente sobre os maus empregadores é regra assimilada no cotidiano, mas que muitas vezes dá vontade de quebrar. Somos o espeto de pau na casa do ferreiro. Ironicamente este trabalho dá voz a quem não recebeu por um trabalho executado ou para quem pagou o trabalho não realizado e não nos serve. É uma vida dura. Nem sempre gratificante. A questão é que jornalistas amam sua profissão. Ou a deixam. Pelo menos é o que dizem por aí.  Mas eu não vou revelar a fonte.

Do blog www.golbypullig.com
Twitter: @golbypullig

Assuntos desta notícia


Join the Conversation