A odisséia da BR-364

Tarauacá – Acompanho os trabalhos de construção do trecho da BR-364 que liga Cruzeiro do Sul até Sena Madureira desde 2003. Durante esse tempo percorri a estrada em diferentes ocasiões. O fato é que as obras nunca pararam e a cada viagem o cenário da rodovia se transforma. Dessa vez pude ter uma nova visão sobre a BR-364. Não mais relacionada às obras físicas, mas aos efeitos que a estrada teve sobre a vida de milhares de pessoas.

Saí de Cruzeiro do Sul no sábado passado. Acostumado a pilotar voadeiras no Rio Juruá, a primeira mudança notável foi ao passar debaixo da ponte que ligará o Centro da cidade ao bairro do Miritizal. Uma obra exuberante de estética arquitetônica fantástica. Talvez uma das mais bonitas construídas no Brasil. Ao ver aquela imponência toda fiquei pensando que só um presidente da República comprometido com as populações brasileiras mais desfavorecidas como o Lula (PT) teria coragem de investir numa obra em uma cidade amazônica isolada na Floresta com poucos mais de 80 mil habitantes.

Desci pelo Rio Juruá de voadeira por um dia até chegar à foz do Rio Liberdade. De lá segui pelo Liberdade durante o dia inteiro fotografando e conversando com habitantes de dezenas de comunidades de ribeirinhos dos Estados do Amazonas e do Acre. O fato é que o advento da BR-364 influenciou a logística da vida tanto de ribeirinhos amazonenses quanto acreanos. Imaginem que antes da Rodovia quem saía de Cruzeiro do Sul para chegar onde atualmente está a ponte do Liberdade demorava três ou quatro dias em embarcações tipo recreio. Pela estrada hoje são cerca de 100 Km. Num automóvel normal a viagem dura cerca de duas horas.       

A facilidade da estrada direcionou toda a produção de farinha, milho e arroz das famílias do Liberdade para a comercialização em Cruzeiro do Sul ou Tarauacá. Antes da Rodovia esse comércio acontecia com o município de Ipixuna (AM), localizado no Baixo Juruá. Atualmente os próprios produtores de Ipixuna preferem negociar com os municípios acreanos utilizando a rota do Liberdade até a ponte da BR-364 onde fica fácil transferir as mercadorias para caminhões.

Agora, o mais incrível foi ver aumentar a integração econômica com o longínquo município de Eirunepé (AM). Tem havido negócios de transporte de gado e de farinha de mandioca através do Rio Gregório. Os produtos são transportados subindo o Rio Juruá e entram pela foz do Gregório até na rodovia de onde podem seguir para diferentes destinos. Também os comerciantes de Eirunepé estão se abastecendo através da nova rota.

Parece inacreditável que a geografia e os costumes das populações do Juruá tanto do Amazonas quanto do Acre tenham mudado em tão pouco tempo por conta da construção da rodovia. No entanto, uma reflexão importante: é preciso aumentar e melhorar tanto a fiscalização ambiental quanto física da estrada que tem uma manutenção complexa. Além de garantir recursos e conhecimentos técnicos para as comunidades das margens da BR-364 e também dos rios que têm as suas logísticas atreladas à estrada.

* Nelson Liano é jornalista
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