O outro lado

Estive nesses dias acompanhando a comitiva de integração do Acre com Pucallpa, no Peru. Foram muitas horas de solenidades de autoridades debatendo o assunto. Longos discursos sobre a aproximação cultural e comercial entre as regiões de Ucayali e do Juruá. Um processo que me parece necessário para ampliar as novas oportunidades sociais das duas regiões amazônicas.

Depois de realizar o meu trabalho profissional fui convidado pelo jornalista Leandro Altheman a visitar um curandeiro Chipibo. Saímos do hotel onde estávamos no centro de Pucallpa e fomos para o distrito de Yarina Cocha. Chegamos a um galpão comercial imenso em péssimo estado de conservação onde pelo menos uns 20 índios se acomodavam em condições subumanas num único cômodo.

No local, havia apenas uma enorme televisão e um computador. Nada de cadeiras, mesas e camas. Os nativos estavam espalhados pelo chão ou em redes e saudaram com entusiasmo o retorno do meu amigo jornalista que havia feito uma iniciação espiritual há alguns meses na tradição xamânica Chipibo.  

Começamos a conversar com o mestre Miguel que demonstrou uma sabedoria imensa. Mas às vésperas das eleições presiden-ciais peruanas que acontecem no próximo domingo (dia 10) o sábio ayuasqueiro queria mesmo falar sobre política. Ele reclamava que os principais candidatos presidenciais peruanos não haviam apresentado nenhuma proposta para ajudar os cam-pesinos e nativos do país.

Lembrava de um recente massacre contra povos indígenas promovido pelo Exército Peruano em defesa de uma empresa multinacional que está se instalando na região. Contestava o esquecimento para uma assistência social adequada às milhares de pessoas que estão desabrigadas devido às cheias do caudaloso Rio Ucayali.

“Vocês têm que divulgar isso para o mundo saber”, pedia o velho mestre espiritual. Aquela situação de abandono me fez refletir sobre todas as solenidades de autoridades que havia assistido algumas horas antes. Acho que ainda existe uma grande falta de foco para os políticos do mundo inteiro para tocarem os verdadeiros problemas que afligem a humanidade.

É preciso despertar à sensibilidade dos gestores planetários para a realidade de milhões de pessoas que ainda carecem de uma atenção social básica. Não adianta falar muito e ficar numa eterna e vaidosa troca de homenagens enquanto as pessoas ainda padecem de enfermidades por falta de água potável. Já passou da hora de haver transformações nos atuais paradigmas sociais que favorecem a Lei de Gerson de levar vantagem em tudo. 

Pelo depoimento do mestre Miguel o ultra nacionalista peruano Ollanta Umala caminha para a vitória. Se isso acontecer, teremos mais um país na América do Sul com um governo nacionalista. Agora, a elite capitalista deveria perguntar para si própria quem são os culpados pela ascensão do nacionalismo radical no nosso continente.

* Nelson Liano é jornalista
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