Sim, nós temos bullying

Nós temos bullying? Temos mesmo, diria o acreano mais autêntico. A importação da palavra ou do conceito não altera o sentimento de quem é vítima da molestação moral, verbal, física que afeta milhares de pessoas em todo o mundo, inclusive no Acre. Bullying é a piada da vez, o verbete da moda tanto para o bem quanto para o mal. Temos outras experiências recentes com as palavras e os conceitos de estresse e depressão, males também ridicularizados, alvo de julgamentos. Sabe como é…pimenta nos olhos dos outros arde menos que no nosso. Hoje quem já passou por uma crise de estresse, entrou em quadro depressivo ou tem alguém próximo que sofreu com isso entende de outra forma. Assim será com o bullying.

Não foi o conceito que inventou a ação. Ela só recebeu um nome e um conceito e muita gente se identificou com ele. É como a Lei Maria da Penha. Aumentou o número de denúncias, mas não o número de agressões. Elas só foram reveladas porque agora as mulheres têm mais coragem de contar o que houve. O bullying existe desde sempre e só pra esclarecer: não é uma simples brincadeira. É uma grande e terrível brincadeira de mau gosto, insistente, que fere (física e psicologicamente), muitas vezes velada tendo como participante apenas quem pratica. Só a pessoa que pratica o bullying sente prazer. O que está sendo vítima dele, não. É isso o que todos precisam compreender.

Ouvir insistentemente um apelido que fere a autoestima, o ponto fraco; levar um tapinha na cabeça todos os dias no mesmo horário da mesma pessoa ou do mesmo grupo; ser xingado baixinho pra que não haja testemunhas; ser acuado, retido em seu direito de caminhar livremente entre outras práticas tão comuns e corriqueiras, principalmente no ambiente escolar, são exemplos de bullying. Talvez você aí que está lendo esse texto agora tenha outros exemplos pra dar, bem reais, sendo você a vítima ou o agressor. Se você é vítima procure ajuda, conte pros seus pais, pro diretor da escola, pra alguém sério e importante pra você. Se você é o agressor, pense um pouco, imagine aquilo que mais te chateia e imagine alguém repetindo isso todos os dias, várias vezes por dia e avalie se vai gostar ou não.

O que acontece muitas vezes é que quem sofre bullying também pratica numa tentativa de provar que não é fraco, que não se deixa vencer tão fácil. Infelizmente esse assunto ainda é muito novo dentro das escolas, nos grupos sociais formais e levará muito tempo até que todos entendam, identifiquem e combatam naturalmente. É preciso lutar. É preciso fazer com que as pessoas que praticam o bullying sintam muita vergonha por isso. Sim eu sei, somos humanos, demora um pouco mais pra mudarmos nossos comportamentos.

A comunidade escolar precisa se envolver mais: pais, professores, diretores de escola, coordenadores, psicólogos, secretários de educação, gestores. O assunto é sério e precisa de atenção urgente. Suicídios, agressões, violência, abandono escolar são algumas das conseqüências e eu não estou sendo fatalista. Não, eu não sou perfeita, também já fiz gozações e brincadeiras de mau gosto, mas bullying não consta no meu currículo. E você que se acha muito esperto e fica espalhando por aí que bullying é frescura, sai da sua zona de conforto e vai se informar melhor. Todos precisam saber mais sobre esse assunto, como hoje sabem um pouco melhor sobre o que é depressão e estresse.

* Golby Pullig é jornalista
Twitter: @golbypullig

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