A droga e a opressão

Tragédias com famosos do show business continuam acontecendo, a intervalos regulares, chocando a todos, ainda mais porque remetem ao uso de drogas pesadas como heroína, o entorpecente que os cientistas norte-americanos inventaram para os soldados feridos e mutilados que estiveram no front da guerra do Vietnam.

O século vinte foi uma loucura total em razão dos pólos que se contrapunham em termos ideológicos: a ditadura do partido comunista na ex- União soviética e a liberal-democracia norte-americana. Por toda parte, governos alinhados aos Estados Unidos, como ocorreu na América Latina, moveram perseguição feroz contra as agremiações ou os partidos alinhados aos soviéticos. Países como a Coréia e o Vietnam foram devastados por guerras, partidos literalmente ao meio em razão de suas escolhas. Em geral, os jovens, de ambos os lados foram conduzidos pela pressão e opressão dos seus Estados com suas propagandas ideológicas e nacionalistas. Hoje existe um milhão de bêbados nas ruas por toda a Rússia.

O mercado da cocaína mobiliza bilhões de dólares e euros por toda parte no hemisfério norte.  Consumida pelos mais ricos e ávidos por expe-riências fora do comum, pode afetar em especial aqueles que possuem sensibilidade artística e são engolfados pela ansiedade que o ambiente do estrelato produz em razão da competição, da maldade e da inveja que sempre acompanham as pessoas ta-lentosas. Vera Fisher, uma figura amada por todos os brasileiros e brasileiras que acompanham seu desempenho nas novelas e mini-series está em tratamento numa clínica por conta da dependência de cocaína.

Na verdade, a droga não é nada, a ansiedade sim, é tudo. A ansiedade é filha dileta desses tempos de consumo desenfreado onde a beleza física tem que seguir os padrões estabelecidos propiciando uma rede sem fim de clínicas de cirurgia plástica, indústria de cosméticos, recursos os mais variados para se manter em forma e dentro dos padrões. Os olhares das mulheres são como flechas venenosas para os seios caídos das outras, para as suas roupas e rugas. Qualquer posição a que uma mulher como Vera Fisher ocupe exige uma infinidade de táticas e estratégias para manter-se no lugar. Todos dizem que só importa a beleza interior. Conversa fiada. O que conta é a aparência e o dinheiro no banco.

Vários homens também caem no poço da amargura tornando-se dependentes de entorpecentes os mais diversos. As explicações vão desde transtornos da personalidade, inadequação social, problemas fami-liares a problemas com o desempenho sexual e o tamanho do pênis.

Surgem nomes novos, tipo “bipolar” para nomear transtornos do comportamento. Mas, como bem lembra o poeta Bertold Brechet: “ ..do rio que tudo arrasta se diz violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem e o comprimem”.

A droga verdadeira é o próprio sistema em que as pessoas foram envolvidas e submergidas até o pescoço, desde o alto executivo à faxineira e que dispõe das vidas de todos, abocanhando as horas de todos os seus dias, acorrentando-o ao posto de trabalho. Mesmo nas folgas e férias todos são obrigados a lançar das ofertas que o sistema dispõe, desde férias no Caribe a aquisição de uma máquina de lavar roupas.

Estão todos imersos numa espécie de hipnose coletiva. Eu vi uma jovem estudante lendo o romance de Oscar Wilde, o Retrato de Dorian Gray, porque fizeram um filme dessa obra que está em cartaz em diversos cinemas de São Paulo, nos minutos em que ela esperava a chegada do trem estando o Tietê a sua frente, lerdo e negro de inacreditável poluição com suas margens cheias de lixo, com mau-cheiro e nauseabundo. É preciso moldar-se à temporalidade do sistema, estar no lugar certo à hora certa e ainda aproveitar os minutos em que se está “fora do lugar” para ler algo sobre algo que está acontecendo e assim parecer que está “in”. No mês seguinte, novo filme, novo livro para ela se pensar como alguém “cult”.

Se as pessoas sentem algum mal estar, uma azia ou indisposição, uma dificuldade de defecar, uma dor de cabeça, um tremor nas mãos, uma dor na coluna, insônia, seja lá o que for elas procuram os médicos, pegam receitas, compram medicamentos e pensam estar resolvendo tudo como se fossem máquinas que se conserta colocando uma peça nova ou um pouco de óleo.

Desde Vargas, há quase cem anos,  as pessoas são obrigadas a estar no seu posto por oito horas. Há um silêncio geral sobre isso. Mas isso é um absurdo, a tecnologia chegou a um nível de desenvolvimento tal que não se justifica manter as pessoas em seu posto por tantas horas. Mas a maldade é tanta e a vontade de poder tamanha que os patrões e dirigentes públicos só se sentem importantes sabendo que existem escravos sob seus pés, porque eles mesmos vivem prá lá e prá cá de Airbus.

Os hippies nos Estados Unidos rasgaram seus documentos e disseram não. Mas é quase impossível encontrar um modo de vida alternativo, mesmo porque o planeta é só um. Não adianta tentar ser ecologicamente correto se em torno uma turba insana não relaciona o calor infernal com a sua inércia e apatia com relação ao desmatamento desenfreado no entorno de sua cidade. Não existe lugar nenhum para onde ir.

Tanto o capitalismo como o comunismo adotaram o mesmo padrão de industrialização que é extremamente danoso ao meio ambiente e aos seres vivos em geral, que passa por cima de todos como tratores de esteira, sem contar que no caso do comunismo não é possível sequer fazer críticas, como em Cuba: centenas de poetas e escritores moram em outros países, exilados, simplesmente porque contestaram o regime de Fidel, estando o planeta morrendo.

Dá muito trabalho pensar, entender tudo isso, ainda mais quando nunca é possível um entendimento completo e satisfatório. Sem contar que o fato de entender é mais perigoso para a saúde, por causa do perigo de uma depressão do que não entender nada. A droga é todo o sistema espoliador, cruel e perverso, sumidouro de almas. Todos sucumbem de um modo ou de outro, ou pela droga concreta, objeto, ou pela droga abstrata do sistema, subjetiva, internalizada, cujo recheio é a prepotência. Mas,  quem crê e teme a Deus pode ter esperança conforme um salmo de Davi: …“somente um sopro são os homens comuns e apenas mentira os homens importantes”.

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