Com os pequenos passos se vai longe

Por toda parte ouço pais ou mães falarem a respeito de filhos que ini-ciaram alguma faculdade desistindo no meio do caminho ou até mesmo na reta final. Há alguns anos, um amigo meu, dos tempos de estudante, me contou que seu filho tinha ido cursar arquitetura no Rio de Janeiro tendo abandonado o curso, anos depois, para se tornar professor de dança. E também sobre filhos que cursaram Administração e depois decidiram fazer outro curso, como medicina, no país vizinho.

Ao que parece já se passaram muitos anos desde quando nós entrávamos numa faculdade, íamos até o final e depois seguíamos uma profissão, sem colocar em questão se a formação que tivemos era mesmo aquilo que queríamos, de fato, ou não. E despois, ao chegarem os filhos todos têm que seguir mesmo no seu emprego e na sua profissão.

O mundo está mudando muito rapidamente, em especial por causa da internet. Até mesmo a extremada corrupção no país tem seus dias contados por causa do acesso a dados e informações por hackers, por exemplo. Apesar disso, as nossas instituições que constituem as colunas da nossa sociedade, parecem conter ferro, permanecem rígidas num momento em que a palavra de ordem é a flexibilidade.

Seguindo por nossas estradas e ramais nós podemos apreciar uma paisagem totalmente verde, seja a cor dos pastos, seja da floresta que está lá, bem longe, na linha do horizonte. Aqui e ali, em determinados períodos do ano, podemos ver, em meio à imensidão verde, pontos coloridos devido às flores dos Ipês. No entanto, nas margens dessas estradas, asfaltadas ou não, bem que poderiam figurar flores das mais variadas espécies. No entanto, não existem cursos de paisagismo nem de jardinagem, em Rio Branco, a nível técnico ou médio, ou mesmo de graduação.

Um curso de paisagismo e outro de jardinagem poderiam gerar “emprego e renda”, algo que os políticos tanto propagam como essenciais para a nossa sociedade. Acredito que o essencial deva ser tornar as pessoas felizes ocupadas com os afazeres e atividades das quais elas gostam. Deveria haver, sim, uma secretaria da felicidade para coordenar todas as demais. Ora, fazer jardim e ornamentar ruas e avenidas requer muito mais do que vontade, bom gosto, predileção. Requer conhecimentos sobre botânica, por exemplo, afinal é preciso saber como as árvores se comportam, seus ritmos variados de crescimento, o tamanho de suas raízes na idade adulta, entre outras.

E o mais importante é que teríamos belas paisagens por toda parte, valendo a criatividade das pessoas junto com os tipos de solos, adubação e outros elementos necessários para o sucesso do cultivo de plantas ornamentais.

É necessário que cursos de direito, medicina, engenharia, e outros, continuem existindo, mas seria válido que as instituições de ensino superior abrissem outros cursos que não do tipo tradicionais, mas que estivessem à altura da demanda. Ouço pessoas falarem que desejariam estudar moda, por exemplo.

Existem inúmeras possibilidades de se gerar emprego e renda fora dos trilhos da pecuária e da máquina governamental, mas, precisa planejamento, claro, de forma participativa, visível e transparente. Para produção e designar de móveis de bambu, por exemplo, seria necessário trazer profissionais para dar cursos, planejar cultivares de bambu, áreas rurais, envolver produtores rurais e ter subsídios inclusive, para manter a fabricação dos móveis com material importado enquanto a produção local não atinge o nível necessário.

Enfim, existem inúmeras possibilidades de se gerar ocupações para as pessoas, em especial, os jovens, sem que os mesmos se sintam obrigados a ralar num emprego de segunda a sábado para pagar uma faculdade particular, por exemplo, a qual ele cursa sem nem ter certeza se é esse que ele quer realmente ou se a está cursando simplesmente por ser a mais barata. Só as pessoas das camadas mais afortunadas materialmente têm maiores possibilidades de se estabilizar no mercado de trabalho através de profissões tais como médicos, engenheiros, arquitetos, dentistas e outras.

Um segundo problema que detectamos é aquele referente aos cursos de formação em nível técnico que existem na cidade e que são pagos. Ora, um jovem desempregado não tem como pagar um curso de auxiliar de enfermagem, instrumentista cirúr-gico, designer de móveis e tantos outros, obrigando seus pais, tios ou avós a fazerem sacrifícios. Existem muitas, muitas pessoas, entre jovens e adultos, que não concluíram a educação básica, não pretendem voltar aos bancos escolares e desejam aprender sobre o ofício de pedreiros, mestre de obras, por exemplo. Só não sabem onde recorrer. Assentar tijolos até eu sei, mas ter uma compreensão de espaço, saber fazer cálculos estruturais, posição do sol e altura de pé direito para conforto térmico, é necessário um curso básico, ter noções básicas.

Existem oficinas de consertar eletrônicos por toda parte, como também de mecânica de automotores. Onde será que essas pessoas apreenderam a fazer isso? Na base do vendo e aprendendo, dando man-cadas, etc. No caso dos mecânicos, alguns raros fizeram cursos ou “treinamentos” bancados por alguma concessionária que mantém sua reserva de mercado, claro. Não seria válido e elegante se as concessionárias promovessem cursos para mecânicos e aprendizes? Mas, isso não ocorre. O pobre do usuário contribuinte é quem sofre quando leva uma batida no seu carro e o conduz para um lanterneiro que faz barbeiragens. Eu mesma retirei um carro de uma oficina de lanternagem todo lustroso e bonito, mas, toda vez que chovia a cabine virava uma banheira.

Um terceiro problema que notamos com relação a tudo isso é o enorme desperdício por toda parte de sobras de madeira sem que exista nesta cidade uma só fabriqueta de palitos de fósforos. No entanto, nada disso poderia acontecer sem apoio do Estado no sentido de elevar os impostos sobre palitos de fósforos ou de dentes, oriundos de outras praças. O Estado aqui precisa ser protecionista, pensar grande, mas, pensar também nos pequenos passos. Muitas e variadas possibilidades somadas podem fazer maior efeito que poucas e vultosas como a pecuária, por exemplo.

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