Considerações sobre a cidade de São Paulo

O modo de viver na cidade de São Paulo é intenso e apressado, além de que um consumismo exacerbado é como um monstro devorador que atrai, mastiga e engole a todos, indistintamente, de todas as faixas etárias, salariais, étnicas, etc..Desde o Brás , Bom Retiro, Liberdade, aos shoppings o movimento é incessante, quando as pessoas olham, procuram, compram, compram e comem, ainda, todas essas coisas embaladas pela indústria alimentícia, doces, salgados, melecados, gordurosos, coloridos.  Ironicamente, a cidade motor, consumista, materialista, nos remete para a noção muito difundida pelos espíritas de vir a ser essa  existência uma mera passagem e, o planeta, uma estação. Isso porque tudo parece fugaz.

São Paulo, contudo, são muitas cidades, tantas quantas são as expectativas e as necessidades, bem como a experiência das pessoas. Podemos encontrar uma jovenzinha que ali chegou há um ano para um posto de trabalho numa livraria da glamourosa Avenida Paulista, com a ajuda de um parente, tendo deixado os pais lavradores numa cidadezinha erma na fronteira do Piauí com o Ceará porque ali, disse ela, só consegue trabalho quem tem ajuda dos políticos. Podemos encontrar também senhoras descendentes de europeus que mal conhecem a cidade, pois nasceram e viveram sempre em seus bairros.

Por toda parte uma profusão de livros em estandes de livrarias e bancas, afora sebos, junto com publicações de todo tipo denota que em São Paulo a indústria editorial caminha a todo vapor. De fato, pessoas costumam ler por toda parte, nas filas, dentro do metrô, em qualquer lugar e ocasião onde quer que tenham que esperar e daí, ocupam sua mente com a leitura. Em algumas estações do metrô existem, inclusive, máquinas de moedas com mostruário de livros para compra direta, em vez de coca cola como era comum. Dá para perceber que  a prefeitura investe em campanhas de incentivo a leitura. Na parede ao lado da escada rolante da estação Paraíso está grafado com grandes letras um poema de Alphonsus de Guimarães: “quando Ismália enlouqueceu, pôs-se na Torre a sonhar, viu uma lua no céu, viu outra lua no mar”.

Mas os trabalhadores que conhecem de São Paulo apenas o seu itinerário do trabalho para casa, desta para o trabalho, passam por ali, centenas e milhares de vezes e não lêem nem sequer se dão conta porque seu tempo é curto, têm apenas uma folga em toda a semana, para cuidar das coisas de seu próprio interesse. Eles não querem saber de poesia, como aquela senhora que perdeu horas do seu dia de folga para despachar uma receita médica de um remédio controlado – pois estava com dor nos nervos – esperando por uma longa fila para ao final voltar sem o remédio porque os atendentes não entenderam a letra do médico.

A classe trabalhadora continua sendo muito explorada na terra do café, na terra dos barões do café, muito mais as mulheres, negras ou brancas. Apesar de que foi criado um ministério da mulher e secretarias estaduais, não se sabe para quer, talvez para orientar melhor a saúde pública, talvez para disseminar campanhas contra a violência contra a mulher, como saber? A maior violência contra a mulher, contudo, é a super exploração do seu trabalho num país onde não existe eficiência quanto à fiscalização.

Pelo menos trinta por cento da população brasileira é analfabeta funcional, ou seja, consegue ler, mas, entende minimamente o que lê. É por isso que muitas pessoas que trabalham na cidade de São Paulo não a conhecem nem por inteiro, nem por pedaços. Além de que, é óbvio que para se conhecer uma cidade se faz necessário ter conhecimentos pré-vios sobre a mesma, qual a sua evolução histórica, por exemplo.

Mesmo no MASP onde existem obras de arte do mesmo status que as demais no Louvre, no Museu do Prado e outros, muitas pessoas passam, olham para as obras e seguem adian-te sem que denotem ter captado significado algum. Visitam o MASP mais como um passeio ou apoio aos trabalhos escolares do filho ou ainda, para parecer Cult. Afinal, como é possível alguém parar frente a uma obra de Modigliani sem esboçar nenhuma expressão carregada de emoção? O mesmo quanto aos Renoirs, Ingres, Picassos, etc…

A cidade de São Paulo é tão grande mas apresenta os mesmos defeitos que as médias e menores: a pouca sensibilidade para o universo da arte. Na Pinacoteca, um óleo de Anita Mafaltti figura exposto com um texto colado ao lado dizendo se trata de uma doação “em cumprimento à lei do pensionato artístico de 1929”. Ou seja, algum apoio que o Estado lhe deu na qualidade de artista, foi compensado com a doação compulsória do quadro. Lembro-me que há muitos anos encontrei meu velho amigo Hélio Mélio na calçada da antiga prefeitura parecendo muito chateado quando desabafou que tinha ido à Fundação Municipal de Cultura pedir apoio para imprimir seus livros quando a diretora exigiu que ele doasse um dos seus quadros, em troca, para a tal Fundação. Ele estava indignado! E eu compreendi perfeitamente porque ele estava se sentindo daquela forma. Do mesmo modo senti uma indignação enorme quando vi que mesmo Anita Mafaltti teve sua obra travestida em meio de ganho.

De todo modo, todo ser humano, morando em São Paulo ou em quaisquer outras cidades precisa, naturalmente, criar espaços pró-prios de silêncio, de estar consigo mesmo, seja no longo trajeto de um ônibus, seja numa das várias igrejas que existem por toda a cidade, caso contrário, enlouqueceria. As Igrejas de São Paulo constituem, de fato, patrimônios históricos. A Sé é um monumento arquitetônico impressionante. A imagem de Santa Ana, um ícone bizantino é uma prova inconteste não só do poder da Igreja Católica como do café. A cidade é uma verdadeira aula de História.  Sofisticada, multinacional ou – multi-étnica, luminosa, racional, funcional, real, glamourosa, mas, ainda é uma sociedade de escravos.
 

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