Engrenagens com nova direção

A produção cultural é uma arte. Dominada por poucos, é verdade: não é fácil conciliar as diversas formas de expressão artística com prazos, escopo, dinheiro, mercado, qualificação para o mercado de trabalho, negócios, lucro. Carolina Di Deus sabe disso: fez o primeiro projeto cultural aos 15 anos focado para o teatro que vivenciava como atriz desde os 13 no interior de São Paulo. A precocidade na elaboração de projetos culturais ajudou a refinar o olhar e a fazê-la compreender os meandros que a burocracia do poder público construiu para identificar, formar, revelar e credenciar talentos.
Carolina
Carolina Di Deus é hoje a diretora da Usina de Artes, o espaço onde funcionou uma unidade de beneficiamento de castanha nos ano 80 e reinaugurado pelo ex-governador Jorge Viana em 2006, com a presença do então ministro da Cultura, Gilberto Gil. Carol, como é chamada, reforça a idéia de que a Usina de Arte deve ser um espaço para experimentação, uma espécie de “laboratório de vanguarda”. Entendendo que as inovações no setor de “produção cultural” para ter sustentabilidade devem responder às exigências do mundo contemporâneo.

De que forma a Usina pode contribuir para responder a esse aparente paradoxo e divulgar as mudanças que estão sendo executadas na atual gestão foi o que motivou a equipe de A GAZETA a ouvir a responsável por liderar o movimento das engrenagens de um espaço ainda a ser descoberto e valorizado.

A GAZETA – Está mais fácil defender a relação que existe entre produção cultural e mercado, negócios, lucros? Debater isso é uma preocupação da Usina?
Carolina
– É uma preocupação da Usina, sim. É preciso termos aqui pessoas com capacidade de análise crítica da sociedade, do Pensamento, da relação com o mundo, mas que também saibam elaborar um projeto, defendê-lo e promovê-lo. Tudo isso, hoje, faz parte do universo da produção de arte. Não se trata de termos aqui uma ‘maquininha de produção de projetos’ sem sentido. Há uma nova lógica na produção cultural e temos que estar sintonizados com isso. Você não pode ser somente artista. Ou o artista encontra um grande produtor que vá venda arte dele ou o artista se adapta à nova realidade. Não basta produzir. É preciso promover o seu produto.

A GAZETA – Qual o perfil do “novo artista”?
Carolina
– A existência de várias instâncias de discussão sobre cultura evidencia esse novo perfil. Os coletivos de cultura são um exemplo. Ali, você tem o advogado… que também é artista. Você tem o dentista… que também é artista. Você tem o professor… que também é artista. Existe, é claro, os artistas que vivem exclusivamente da sua arte, fazendo os seus shows, circulando com seus espetáculos, vendendo os seus quadros.

A GAZETA – A Usina vai ter um Núcleo de Projetos?
Carolina
– Sim. É uma necessidade. E temos que fazer isso não só com os alunos que já estão aqui, mas com os que ainda virão. E estamos pensando em fazer isso agregando novos parceiros, seja no setor público, na iniciativa privada ou no Terceiro Setor. Precisamos fazer esse estudo de mercado. No Plano Político Pedagógico que estamos elaborando, isso será uma das prioridades. Qual caminho o aluno tem aqui dentro? Como ele ingressa? Como ele sai? Que perfil profissional o aluno tem ao sair daqui? Estamos pensando em várias possibilidades e não só uma estrutura com cursos formais, com disciplinas específicas.

A GAZETA – A Usina de Artes tem cinco anos de cria-ção. Já não deveria existir um Plano Político Pedagógico [PPP]?
Carolina
– Não posso falar pela gestão passada. Nós estamos em um processo de busca de identidade para a Usina. Ainda não foi definido o formato ideal, o jeito ideal. O PPP não é um instrumento simples de ser construído. É, ao contrário, muito complexo. Isso é algo que já vinha sendo discutido há muito tempo. É demorado mesmo. Em se tratando de Educação, e a Usina está inserida em um processo pedagógico, cinco anos é pouco tempo. E ainda mais em uma situação que você não tem modelos a seguir, entendendo que também não queremos seguir nenhum modelo. Temos que construir algo novo. Para construir um PPP, precisamos entender primeiro o contexto em que aquele espaço está. A Usina passou e ainda vive um processo de experimentação.

A GAZETA – O que você destacaria quanto às mudanças reiniciadas aqui?
Carolina
– Estamos trabalhando para implantação do Laboratório de Práticas Artísticas: o artista que tem uma área específica de atuação participa de um laboratório especializado na área de trabalho. Ao final desse período, o aluno terá contato com um profissional de renome naquela área, escolhido pelos professores do laboratório. Dessa forma, o workshop com a autoridade de área será a uma turma que já tem uma base necessária para o aprimoramento da arte que ele já desenvolve.

A GAZETA – Qual é a Usina de Artes que você quer estar dirigindo daqui a três anos e seis meses?
Carolina
– Já me fiz essa pergunta várias vezes. Não sou ‘eu que gostaria que ela fosse’. Tenho uma equipe que me acompanha. Mas, há um pensamento que, desconfio, norteia todo grupo: o de fazer deste espaço um espaço onde os alunos possam viver integralmente e intensamente a arte, em todas as formas de expressão. Temos que viver a arte. Temos que deixar sementes.

Usina retoma produção
A Usina de Arte reiniciou atividades. As aulas dos cursos de “Cinema e Vídeo”, “Teatro”, “Música” e “Artes Visuais” foram paralisadas em setembro do ano passado. A atual diretoria retomou as aulas e abriu inscrições para novas turmas. Os interessados em obter informações mais detalhadas devem ligar para 3229-6892 em horário comercial.

O destaque das novas atividades da Usina de Artes é o seminário “Cultura e Acreanidade” que inicia na próxima segunda-feira e termina na próxima sexta-feira, dia 29/07.

Seminário “Cultura e Acreanidade”
Local:
Teatro da Usina de Arte
Programação:
Dia 25 de julho (segunda):
Das 18h30 às 19h30 – Credenciamento
Das 19h00 às 21h00 – “Que Papo é esse de Cultura?”, com Toinho Alves
Dia 26 de julho (terça-feira):
Das 19h00 às 21h00 – “Cultura e Mercado – Uma visão sobre a gestão de projetos culturais” com Carolina Di Deus
Dia 27 de julho (quarta-feira):
Das 19h00 às 21h00 – A Arte do Mito, com Vladimir Sena
Dia 28 de julho (quinta-feira):
Das 19h00 às 21h00 – “Arte Amazônica”, com Laélia Rodrigues
Dia 29 de julho (sexta-feira):
Das 19h00 às 21h00 – “Musicalidade Acreana: que som é esse?”, com Écio Rogério

 

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