Quase amor de Expoacre

Ele não tinha grandes expectativas ao ir ao Parque de Exposições naquela noite de terça. Nenhum grande plano mirabolante ou audaz. De fato, não tinha programa melhor pra fazer. A cidade estava deserta. Então, decidiu ir para a tão famosa Expoacre. Andança vai, andança vem e o rapaz pôde ver um montão de bugigangas que nem fazia idéia de que existia no seu Estado. No entanto, o melhor para a sua vista ficou reservado para o final da noite.

Ao dar várias voltas e reviravoltas no parque, cansado de ver o nada por entre os punhados de pessoas que passavam ao seu redor, seus olhos pararam na mais linda cowgirl que já vira na vida. Hã, bem… Na verdade, ela não era lá bem uma cowgirl. Tava mais para uma ‘funcionária-familiada’ de um destes empreiteiros novos aí que aparecem do nada.  Também não estava vestida a caráter. E, talvez, não fosse a mais bela que já viu na vida, mas com certeza era a daquela semana. De repente, quem sabe até do mês?

Maravilhado com tamanha formosura, ele sentou num canto estratégico perto do stand dela e demarcou ali seu lugar preferido do recinto. Dali pra frente, o jovem foi todas as noites da feira atrás de se agraciar com a ‘sua’ fonte inspiradora. E a admiração assim foi crescendo até o ponto em que ele só queria olhar sua musa. Contava as horas do dia para a abertura da exposição e, ao se aconchegar no ‘seu’ canto, mal via as horas passarem.

Tímido, ficava imaginando formas ‘garanhescas’ de abordá-la. Mil e uma situações que para ela seriam ‘acasos’ e, para ele, seriam ‘esquemas premeditados’. Ia divagando sobre hipóteses, quais horas seriam mais oportunas, o tipo de garota que ela é e assim por diante. Mas a sua imaginação não o fazia agir. Arriscar o famoso ‘chegar junto’. No entanto, na sua condição de observador, ele já se mostrava feliz. Hã, melhor dizendo, ‘satisfeito’ (leia-se ‘iludido’).

Até que o inesperado aconteceu!

Bem no fim de uma das noites, numa das suas vigílias, o rapaz ganhou um resquício de espaço na percepção da sua estonteante veneração. A moça o fitou momentaneamente. Mas bem rápido desviou o olhar, com um avexado rubro-sorrisinho que deixava à mostra a correspondência de seu interesse até ao mais tolo dos homens. Diante do fato ‘sorrissinho’, ele ganhou a confiança que precisava para ‘tacar o horror’ na amada. Porém, já era tarde. Então, o abobalhado galante deixou a abordagem para a noite seguinte.

Mal sabia ele que tal decisão seria um descaso grande, colossal, com a sua sorte. Após se produzir ‘todo todo’  pra feira na tarde do outro dia ele rumou pro parque e teve de encarar sua triste sina. Os 9 dias da Expoacre já haviam se passado, sem ele se dar conta. A garota não mais lá estaria. Indignado, ele a procurou, mas nunca mais achou o paradeiro de ‘sua’ amada.

A chance para a paixão passou pro rapaz. Só o que ele consegue agora é lamentar: “mas por que raios essa feira dura tão pouco e só tem uma vez no ano se dizem que dá tanto dinheiro assim?”

*Tiago Martinello é jornalista.
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