Desculpem-nos o transtorno

É difícil diagnosticar. É preciso muito tempo, paciência e um olhar apurado, de médicos e da família, para se chegar à palavra que não se quer pronunciar: transtorno. Uma pessoa com transtorno mental, criança, jovem ou adulto, é vulnerável, frágil (apesar da força física) e deixa assim todos os que convivem diretamente com ela. Não importa o que seja, se bipolaridade, hiperatividade ou esqui-zofrenia, o transtorno mental mobiliza todas as atenções em torno de impon-derável, do desconhecido, do susto, do medo e de grandes obstáculos. Os momentos de tensão freqüentes criam um mundo à parte para o transtornado e para a família, que geralmente adoece ao presenciar ou tentar conter as crises e as dificuldades pertinentes.

Mesmo um conjunto de medidas (medicamento adequado e ministrado na hora correta, psicoterapia, atividade física, lazer, esporte, religião, socialização) não é suficiente para conter as crises de uma pessoa com transtorno e é justamente aí que um simples bom dia pode ser uma grande surpresa. Não há como prever como será o dia dessa pessoa e em conseqüência dos que estão ao seu redor. É como viver com a sensação de que se está prestes a virar a esquina para uma rua desconhecida. O que terá lá? É encontrar cacos de vidros em uma estrada em que não há desvios. Corre-se o risco de se ferir mas é preciso continuar.

Um grande aliado nessas horas é o silêncio. Como discutir com quem está prestes a perder o controle? Mas como se controlar diante de tanta agressão? Como manter a rotina de uma vida qualquer com tantos imprevistos e situações extremas? Como impor o limite para quem apresenta o comportamento limítrofe? Como será o amanhã? Não há respostas iguais para estas perguntas e há muito mais perguntas que respostas.

Não bastasse o sofrimento gerado internamente por situações como essas, existe o lado de fora, o lado cruel do lado de fora de quem insiste em discriminar, ridicularizar e perseguir essas pessoas que vivem drama tão intenso com suas próprias mentes. Difícil diagnosticar também a dor dos pais, dos irmãos, dos parentes, dos amigos diante das quedas, dos comportamentos extremados de quem apresenta um transtorno mental e ter que explicar isto de forma clara sem correr o risco de perder o emprego ou de se expor o tempo todo.

“Tão bonito”, “tão inteligente”, “bem sucedido”, “tão estudioso” são usados como uma tentativa de consolo, mas se constituem em uma grande armadilha que pode ferir muito mais. Não é fácil aceitar que aquele menino bonito, aquela menina estudiosa e inteligente, aquele músico ou profissional liberal tão talentosos e competentes não valorizem a própria beleza, capacidade mental ou o dinheiro que ganham deixando tudo para trás em um momento de crise, quebrando objetos caros, abandonando empregos incríveis. Mas isso é real.

Não há lágrimas suficientes, não há oração suficiente, nem medidas punitivas, nem compreensão, nem planejamento. Nada é suficiente. Tudo está além do que se imagina. Mais que o adicto que vence um dia de cada vez, o portador de transtornos mentais (e sua família) vence cada segundo. São vitórias que provém de perdas e não de lutas. E não é nada justo sair por aí pedindo desculpas pelo transtorno. Apesar de que é mais isso o que se faz.

* Golby Pullig é jornalista
Twitter: @golbypullig

 

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