Sonho de consumo

Se alguém perguntar hoje qual o meu maior sonho de consumo respondo sem hesitar: um tratamento dentário completo. Parece ridículo para quem conseguiu manter intacto esse bem preciosíssimo (e que custa milhares de reais recuperar), mas pra mim e milhões de pessoas que sofrem as conseqüências da falta de cuidados com a saúde dental, este é um desejo verdadeiro. Tratamento dentário sempre foi um dos serviços de saúde mais caros e tenho certeza que não só Brasil. Barato mesmo é a profilaxia, esse cuidado diário que necessita apenas de uma escova simples e a disciplina que se aprende desde criancinha.

Não aprendi desde criança a cuidar melhor dos dentes e eles nunca foram mesmo muito fortes. Sou da geração intermediária. Estou entre a dos meus pais, que cedo perderam os deles por falta de orientação e de dinheiro, e a dos meus filhos, que têm acesso à informação de que preservar é melhor do que tratar. Meu filho, atualmente com 18 anos, teve apenas uma cárie na vida identificada cedo e tratada adequadamente. Um luxo. Estou me referindo à população de renda baixa ou média baixa, é claro. Os que estão abaixo da linha da pobreza nem vou citar.

Penso que é possível descobrir a classe social da pessoa pelos dentes, independente da roupa que vista, da casa que ostente ou quantidade de vezes que troca de carro. Infelizmente o serviço público de saúde ainda não democratizou esta ação imprescindível. As filas são imensas. O programa Brasil Sorridente, uma tentativa de resolver o problema dos desdentados ou quase desdentados no país, atende de forma irrepreensível portadores de necessidades especiais e idosos. Uma pena que para adolescentes e adultos o serviço não chegou a tempo, segundo informações do próprio Ministério da Saúde. Em abril, o ministro Alexandre Padilha anunciou que o SUS passaria a oferecer tratamento ortodôntico e implantes por meio do Brasil Sorridente. Nem me animei. Imaginem quando estariam disponíveis no Acre…É preciso antes estruturar os centros de saúde com o atendimento básico para dar conta da demanda imensa. O tempo de espera é longo. Dá tempo de perder um dente, podem ter certeza.

Não atribuo a culpa somente aos meus pais ou à falta de atendimento nos serviços públicos. Tenho minha parcela de responsabilidade, bem como a dinâmica que minha vida tomou nos últimos 10 anos. Desde cedo fui freqüentadora de consultórios odon-tológicos pelos problemas que tive. Aprendi a abstrair. Não conheço outra pessoa que durma na cadeira do dentista durante o tratamento. Abro a boca e chego a sonhar. O fato é que eu gosto de ouvir o barulhinho daquele motor que a maioria dos mortais acha insuportável, mas pra isso é preciso antes se preparar psicologica e  financeiramente.

Uma amiga que está em Santa Cruz de la Sierra para uma correção estética descobriu que lá (onde a cirurgia plástica é procedimento mais do que comum e com custo bastante acessível), tratamento dentário tem os mesmos preços cobrados no Brasil. Ou seja: é mais barato aumentar ou diminuir seios, tirar as rugas, reduzir medidas do que ter um sorriso perfeito. Sorte das crianças até 12 anos que têm acesso à escola. É nesse ambiente que elas aprendem a valorizar a dentição e são monitoradas por programas especiais de prevenção. Tudo de forma lúdica. E é nessa faixa etária que os índices de cáries caíram, conforme dados do MS, porque agora há investimento no futuro dos dentes dos brasileiros. Um luxo que pra mim continua sendo um caríssimo sonho de consumo.

* Golby Pullig é jornalista
Twitter: @golbypullig

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