Jornalismo, o sacerdócio

Para alguns profissionais, o jornalismo é apenas um trabalho comum, algo que você cumpre um horário definido e no final do expediente dá por encerrado, retornando ao âmbito familiar, alheio as crises que possam assolar o mundo no seu período de repouso. Para outros, o jornalismo é um sacerdócio, com rituais sagrados e metas – éticas e morais – todas definidas para exercer esta profissão apaixonante.

Quando tento associar a profissão de jornalismo, sempre lembro um filme sobre furacão (Twister). No citado filme, a cena se passa em uma avenida de uma cidade qualquer americana. Todos os cidadãos comuns correndo para se proteger quando, no meio da multidão, surge uma pessoa comum, estatura dentro da média mundial – nenhum modelo de passarela – com um microfone na mão e acompanhado pelo seu eterno parceiro (não é o Robin e nem Batman), o repórter cinematográfico.

Na hora que vi a cena, apontei para minha esposa e disse: “esse é o jornalista”. Ele estava no momento do “turbilhão”, relatando o que ocorrido, suas conseqüências e alertando a população para os perigos do furacão. Infelizmente, para meu deleite, o meu herói não passou mais que alguns segundos no filme, pois acabara atingido por um objeto arremessado pelo furacão.

O que quis contex-tualizar nas linhas acima é que apesar do perigo que a profissão possa exercer para seus profissionais – não todos, é claro – , a profissão é a fagulha que permite que a democracia continue acessa nos países apontados como democráticos. É ela quem denuncia os ditadores, expõem os corruptos, auxilia os erros sociais (estes, infelizmente, são muitos) e elogia, é claro, quando é permitido.

Acredite em mim, leitor: a mesma pessoa que aponta o jornalismo pura e simplesmente como um “urubu espreitando as desgraças”, poucos ou quase nenhum deles tem a coragem para se expor e ajudar seu próximo. Lutar pelos direitos, enfrentar os poderosos não é para qualquer um. Certa vez reclamei que os estudantes, diferentes da minha época, tinham perdido a veia revolucionária, a mesma que permitiu o impeachment de Fernando Collor. O mesmo vem ocorrendo com alguns sindicatos que perderam seus líderes para os “DAS da vida” (política).

Não se preocupe que o jornalismo não perdeu sua pureza. O verdadeiro jornalista – na essência que me foi passada na sala de aula por um louco que sonhava (Mastrângelo) – é inocente, acredita que possa mudar o mundo, acabar com a desigualdade social, transformar o Brasil em um lugar melhor para se morar através de denúncias, mas apontando também soluções, pois do contrário será apenas mais um louco gritando que o fim do mundo será amanhã e não é isso que somos.

Se não falo sobre os elogios que devem sair nos jornais, é apenas porque isso fica a cargo das assessorias (também faço para – segundo meu colega Itaan – garantir o wisky dos meus filhos) que o fazem bem. Muito bem é claro. Jornalismo é, sim, um sacerdócio.

Ramiro Marcelo é jornalista.
e-mail: [email protected]
twitter: @ramiroacreano

Assuntos desta notícia


Join the Conversation