A janela imortal

Nesta quinta-feira, visitei o ateliê do Dalmir pela primeira vez desde que mudou de endereço há mais de ano e que não está no guia turístico da cidade mas,  bem que deveria estar porque reúne um acervo respeitável de obras de artes plásticas, biblioteca, artefatos do Acre antigo e tudo que se possa imaginar.  No final dos setenta, o ateliê do Dalmir era ponto de encontro dos artistas locais que elaboravam seus protestos em forma de poesia, desenhos, xilogravuras, composições musicais, peças teatrais, contra a pastorização do Acre, até então florestal. Várias mudanças de endereço já aconteceram nesses mais de trinta anos, mas, o fato do ateliê ser um locus da cultura acreana nunca mudou. Nesta quinta, estavam lá vários amigos desde artistas de décadas, em pleno si mesmos, sem barreiras nem censura, acalorados pelo vinho, pela cerveja, por certo,  mas, muito mais pelo retumbar dos corações, como se o contentamento de estar juntos estivesse a ponto de explodir e, alguns antenados representantes da nova geração como a própria filha do Dalmir, Dani, o publicitário Guilherme Noronha e uma jovem gaúcha que vem fazendo teatro de rua pelas capitais da Amazônia e tinha no rosto kenes da pintura corporal indígena desenhados com tinta de jenipapo.

Neste onze de agosto, aliás,  foi  o aniversário do Cleber Barros  que não estava lá, nesta noite, mas que participou de todo aquele movimento artístico do final dos setenta, em especial com a belíssima montagem de um espetáculo teatral ao ar livre, na antiga Praça dos Tocos – que era dos artistas e hoje dos comerciantes – intitulado Agonia de um Sonho, com foco no sacrifício de Tiradentes, mas, fazendo analogia a todos os crucificados pelas ditaduras militares da América Latina, como Victor Jara, a quem  ouvíamos junto com a voz da chilena Violeta Parra, alternando com Amália Rodrigues,  na casa da Leila Jalul.

Nessa noite, ouvia-se também de um dos aposentos da casa alugada onde está instalado o ateliê, ali no Ipase, acho que na antiga residência da Dra. Laélia Alcântara, ao lado da casa da Elvira Thomé, algo de que nunca sei ao certo,  pois,  sou cria do Segundo Distrito,  a voz de Amália Rodrigues, cristalina, singrando mares, eterna nau portuguesa, a grande alma de Portugal fazendo ecoar na memória outras noites memoráveis na casa da Leila Jalul onde o Cleber que amava Pasolini ficava também a falar o tempo todo em nossos ouvidos do filme As Noites de Cabíria de Fellini até que o projetamos em 16″ através do  Cineclube Aquiry.

Mas, a estrela desta quinta à noite foi Jorge Carlos, uma pessoa que vive o eterno presente, surpreendente, cosmopolita e provinciano, erudito e popular, alguém que abraçou o mundo e foi por ele abraçado, que andou por todos os lugares e residiu por mais de uma década em Portugal de onde trouxe composições musicais e poemas que nos apresentou tocando seu violão, e, ao mesmo tempo, a perguntar coisas tipo: e o Mané do Cavaquinho? Mas quem poderia se lembrar ainda do Mané do Cavaquinho? Só mesmo o Joãozinho Veras que foi da antiga Amac, Associação dos Músicos do Acre, um dos presentes e que disse onde o compositor pode ser encontrado, e como, nos dias de hoje, tal um inventariante da cultura musical local, sendo que Jorge Carlos não ficou só nisso, ele também cantou várias músicas do Mané do Cavaquinho, como se as houvesse escutado ontem, dramatizando inclusive, pelo  modo como o Mané ficava a cantar de forma “penosa” as agruras da vida no seringal, naqueles tempos em que se começava a valorizar a figura do seringueiro, muitos somente para efeito de aparentar ser politicamente correto.

Como é possível que Jorge Carlos que correu o mundo, literalmente, consiga lembrar-se de canções que pensávamos ter desaparecido no esquecimento como aquela sobre duas caveiras que se amavam a qual se ouvia na minha casa quando eu era criança e que eu morria de medo quando o Rui colocava o disco na eletrola, de propósito! É surpreendente. Um filósofo do romantismo alemão definiu, certa vez, o que é ser filósofo: “é sentir-se em casa em qualquer lugar”. Isso define o Jorge Carlos, porque ele é de casa e assim deve se sentir por todo lugar por onde passa, habita, cria fatos, eventos, mesmo porque está sempre em movimento. Agora mesmo ele publicou num bloco de páginas, acomodadas numa semi-caixinha de cartolina, as poesias dos acreanos e daqueles de outros lugares, em forma de calendário 2012, com datas memoráveis desse contexto próprio e já com todo um itinerário agendado para lançamento do mesmo. 

Em dado momento Jorge Carlos lembrou-se de um compositor chamado Eliakim Rufino com quem aprendeu uma canção do mesmo à margem do Rio Branco em Roraima sobre o mosquito da malária como o maior ecologista da Amazônia, a qual ele cantou para nós:  “não adianta mandar a Sucam, nem lançar DDT na sua área”. A sua atual companheira, minha velha amiga Eliana Castela falou para ele dos óbitos seguidos que ocorreram no ano passado com aposentados da Sucam. Ora, foi preciso Jorge Carlos dar uma passada por Rio Branco para trazer essa mensagem ou idéia que de tão óbvia parece surpreendente.

Realmente, sem querer ficar explicando muito as coisas, o mosquito da malária tem sido o principal responsável para frear a penetração do homem típico mercantilista. Como diz a canção “se não fosse o mosquito da malária, a floresta já teria virado palha”. É claro que ninguém por aqui nunca pensou nisso, pois as pessoas pensam a ecologia como sendo unicamente o homem o sujeito desse processo de luta pela preservação sem perceberem que a mãe natureza cria suas próprias defesas sendo que os biólogos e ditos “cientistas da natureza” trabalham contra essas defesas. Afinal, se há foco de malária é indício de que os moradores da área devam ser evacuados e não motivo envenenar a área com veneno do pior tipo pelo efeito prolongado e carcinogênico.

Eu voltei para a casa mais convicta ainda de que a função do artista é exatamente essa de destronar as crenças estabelecidas devido ao seu pensamento divergente. E é por isso mesmo que os artistas sempre são mal vistos, porque ameaçam a estabilidade e o equilíbrio de um mundo bem constituído nas mentalidades onde predomina o pensamento convergente. E de que a espontaneidade é o passaporte para o território livre da criatividade como ocorre numa reunião de artistas quando idéias, imagens e experiências são transferidas, o espírito do coletivo emerge e o individualismo desaparece. Quando Jorge Carlos cantou uma musica que Mané do Cavaquinho compôs para a Cidade Nova, Isabel de Castela lembrou que acompanhou o surgimento dela pela janela de sua casa que ficava no final da Benjamin Constant,  próxima ao rio, onde até via bois que o cruzavam a nado  e de como a paisagem foi mudando dentro da moldura da sua janela com a ocupação do outro lado depois da expulsão das famílias dos seringais e,  que a paisagem, antes, era tão bonita que uma pessoa, certa vez, aproximou-se daquela janela imortal e falou assim: que lindo, parece uma televisão…

 

Assuntos desta notícia


Join the Conversation