A luz e as trevas são coisas dos homens

De fato, a filosofia surgiu da preocupação do homem em saber como viver melhor em razão de ele ser o único ser vivente que sabe que vai morrer em data desconhecida. Afinal, na regularidade que rege os fenômenos da existência tudo passa incessantemente, todos os seres são finitos.  Somente o homem sabe que vai morrer. O boi treme ante o cheiro da morte no matadouro, mas, durante todo o tempo que está no pasto ele morde o capim calmamente. Não há preocupação entre os animais, apenas instinto de sobrevivência. Dessa consciência da morte surgiu a filosofia e o empenho em esboçar um melhor modo de se viver para morrer bem.

As religiões e em especial o cristianismo vieram em socorro do homem com a promessa de uma vida após a morte. Isso permitiu às pessoas viveram as suas vidas como os bois no pasto, como se nunca fossem morrer ou como se isso fosse somente uma “passagem” como atestam vários textos de conteúdo religioso.

O problema é que os textos religiosos trouxeram um forte conteúdo moral para disciplinar os homens no seu comportamento e no relacionamento de uns com os outros, mas, tendo como base uma sociedade de senhores e escravos, num cenário pastoril e num tipo patriarcal de família. Passaram-se os séculos e esse conteúdo e apelo moral continua sendo seguido e obedecido como regra máxima, enquanto foram surgindo as ciências, em primeiro lugar, as da natureza, em segundo as das sociedades humanas, em terceiro aquelas da mente humana, sem que os cientistas estivessem preocupados com a moral, colocando-se a serviço dos ricos seus patrocinadores e, da sua própria ascensão social.

Com as ciências da natureza teve inicio esse processo de dominação da natureza em função dos comércios e, por conseguinte, dos lucros de alguns, inventando-se máquinas e  instrumentos de medição, de longo alcance, de precisão, que possibilitaram o conhecimento das leis que regem os fenômenos naturais permitindo isso o surgimento da máquina à vapor, por exemplo, das vacinas, da iluminação à gás e depois da elétrica, num processo que nunca mais cessou, estando hoje na era do chip, do transplante de medula e tantas outras tecnologias.

De forma paralela, a relação do senhor com o seu escravo vem sendo remodelada conforme todas essas mudanças, mas, sem perder a sua essência, qual seja, a superioridade de uns sobre outros em função de algum tipo de poder ou força, quase que invariavelmente a propriedade da terra e demais coisas por parte dos primeiros que  vêm explorando o trabalho dos segundos, a grande maioria, ad infinitum.

A essa altura já é fácil perceber que ocorrem múltiplas inovações tecnológicas a toda hora, em alta velocidade sendo que no pano de fundo permanece inalterada a base única, qual seja, o direito inatacável e inquestionável de uma parte dos homens de dominar a tudo e todos, passando por cima, inclusive de grupos humanos que não possuem esse traço sócio-cultural de existência e aceitação de dominação de uns sobre os homens como ocorre entre os povos indígenas da América e de outros continentes.

A conseqüência de tudo isso é a destruição dos bens naturais para satisfazer as necessidades de poder, a obtenção de lucros e a vaidade dos proprietários das coisas. Isso porque nos tempos antigos essa satisfação era propiciada sem incorrer em danos para o ambiente – que sempre redundam em danos para os seres vivos em geral – porque seus instrumentos de trabalho eram rústicos. Hoje em dia, a motosserra, o maquinário agrícola, os agrotóxicos, dão garantia ao grande proprietário da produção de toneladas de carne e grãos, sem riscos de pragas, inclusive, possibilitando a elevação dos seus lucros e a aquisição de mais terras e mais florestas para desmatar e explorar a madeira, como se ele fosse um eleito de Deus e tudo aquilo que se chama de biodiversidade devesse desaparecer para a obtenção de seus lucros. E ainda, com amparo das leis. E, com o pomposo nome de progresso.

Por parte dos escravos as mudanças tais como liberdade, salários, benefícios, determinação por lei da jornada de trabalho, férias remuneradas, licença-maternidade, foi uma conquista lenta através de duras batalhas ao longo dos séculos, sem contar que o seu acesso ao conhecimento tem sido muito restrito, exigindo esforço de Hércules para que seus filhos possam estudar e entre eles nem todos conseguem chegar às esferas médias e altas, havendo aqui e ali um caso como o de Serra, por exemplo, cujos pais foram vendedores em feiras de hortifrutigranjeiros, continuando, sempre, a maioria esmagadora alijada das luzes do conhecimento, impossibilitados de ler para compreender a sua própria posição no jogo social e econômico e, conduzidos, como rebanhos, para as milhares de igrejas, templos e mesquitas com o fito de impressioná-los com o temor de Deus e domesticá-los com a  moral salvacionista e protecionista, afinal,  dos bens dos proprietários seus patrões.

No meio, ou no recheio, alguns milhares constituem o que comu-mente se chama de camadas mé-dias buscando a sombra dos ricos, buscando fazer parte do seu meio, competindo em função disso, lutando entre si pelas sobras, defendendo os seus próprios interesses, a sua posição, sonhando em chegar a ser como eles tais burros que andam em direção ao alimento que está preso a uma vara logo a frente do seu focinho. Uma parte dessas camadas médias permanece indiferente ganhando seu dinheirinho depois de ter conquistado um diploma, um lugar no serviço público, um quinhão-zinho de casas para alugar, uma mercearia ou qualquer pequeno negócio para viver sob aquele conforto com a tensão permanente de pegar no batente cedo para o seu negócio não parar.

Nada contra, o primeiro problema, no nosso caso específico, é que nossas árvores centenárias estão sendo abatidas e levadas em troncos para longe, para o lucro de poucos, em prejuízo nosso e de nossos descendentes, de todos os seres vivos, das nossas águas e do nosso conforto térmico nesta cidade que mais parece uma estufa por todo o ano com poucos dias de friagem. O segundo é que o acesso ao conhecimento e à cultura sendo restrito faz com que todas essas pessoas que pululam pelas ruas estejam em tempos diversos, umas raras leram Platão mas, não entenderam, um punhado delas chegou a era moderna, sabe pilotar, exercer a própria racionalidade em quaisquer circunstâncias, uma grande parte continua na era medieval esperando milagres do céu e, milhares vivem ainda na era das cavernas propensos assaltar, estuprar, e até a matar um filósofo desavisado que acredita mesmo que pode  iluminar a mente dos que vivem nas trevas com seus escritos ou palestras.
 

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