Ave, César!

Sem dúvida, a maior invenção de todos os tempos foi o relógio. Tudo o mais decorreu disso. Enquanto os navegantes portugueses e espanhóis descobriam o Brasil e a América deixando o velho mundo em polvorosa com a grande novidade, a existência dessas terras além mar, a invenção do relógio começava os alicerces do tipo de sociedade que existe hoje.

Até a Igreja Católica sofreu um abalo com a descoberta do novo mundo porque não sabia como justificar a existência dos negros da África e dos indígenas americanos já que os mesmos não constavam das sagradas escrituras. Foi um imbróglio. Alguns religiosos perceberam que não dava mais para manter a população analfabeta, que seria necessário instruir as pessoas, inclusive para fazer a contabilidade, redigir documentos de todo tipo em especial aqueles relativos ao mundo dos negócios que então começou a crescer sem parar, daí, eles traduziram a Bíblia redigida em línguas clássicas para as línguas que os povos falavam. Os árabes deram uma contribuição substancial a essa transição de um mundo agrário para outro comercial e urbano quando trouxeram para a Europa os algarismos que possibilitam fazer contas, já que com os algarismos romanos tudo isso seria impossível.

A invenção do relógio possibilitou a ciência moderna, por ser um instrumento de medição do tempo em horas, minutos e segundos. Então foram possíveis as experiências em laboratórios e daí, surgiram a Química e a Física que possibilitaram as demais invenções que se seguiram como a máquina a vapor revolucionou as comunicações e os transportes com os trens e os navios a vapor, afora as tinturas, as drogas farmacêuticas, os conservantes etc..

O mais importante, no entanto, foi que essa invenção tornou possível determinar as horas trabalhadas pelos operários e demais empregados, por um eficiente auxiliar do patrão: o relógio de ponto. De modo que o relógio tornou-se, com o tempo, o grande patrão,  onipresente, de todo o mundo. Usurpou do rei Sol a sua majestade.

Existem ainda por todo o planeta inúmeros povos que mantém ainda seu estilo de vida indiferente ao uso do relógio, que se guiam pelo aparente movimento solar organizando seu trabalho pela simples aptidão dos sexos e faixas etárias, obedecendo aos ditames da natureza, ou seja, aos períodos de estio e chuva, sem maiores sacrifícios de seus organismos, sem exploração de uns pelos outros, mesmo porque não existe, entre eles, desigualdade social já que não existe propriedade privada. Tudo é comum de todos e todos são um. E, o mais importante, sem retirar do ambiente mais do que o necessário para a sobrevivência. No Brasil, desde 1500 eles vêm sendo mortos, empurrados para as cabeceiras, caçados como animais, escravizados. Nesta semana, índios isolados das cabeceiras do Envira estão sendo assolados por paramilitares, traficantes que já botaram até roçado e contrabandistas de madeira.

A busca desenfreada por lucros movida pelo espírito do capitalismo dentro e fora da lei, causou e vem causando danos ao equilíbrio que existia no planeta desde a época que Deus o criou conforme o conhecemos pelas descrições das variadas espécies, dos reinos vegetal, mineral e animal, dos climas e dos ciclos das águas. As guerras, os vazamentos, a poluição, a devastação da Amazônia e a escravização  das pessoas aos ponteiros do relógio que nem têm tempo para pensar, refletir e agira, ocorrem para o aumento dos lucros de uns poucos mas recaem em prejuízo social e ambiental. E todos nós pagamos a conta! E ainda vamos ter que enfrentar a face de Deus depois de mortos! Afinal, Ele tem a sua própria contabilidade: vem cá, cadê as onças que eu coloquei na Amazônia e você matou pra vender os couros? Cadê os ninhos dos gaviãozinhos que você torrou com suas queimadas? Você achava que a sua vida valia mais que a de um gaviãozinho? Pois, se enganou,  meu filho, leu tudo errado. E a lista não tem fim… Ah! Não foi você? E por que consentiu? Não lhe dei voz? Pegue aqui seus chifres, vá gemer…

Aqui mesmo as chuvas começaram em agosto, algo que ocorria somente em setembro. É impressionante o tráfego de carretas com pesadas toras pela BR-364, inclusive aos domingos, e de madrugada. Para diminuir os custos e com isso aumentar os lucros retiram tantas árvores o mais próximo das vias asfaltadas, onde estão as cidades. A estátua de Chico Mendes está ali numa pracinha a receber coco dos pombos. O discurso de desenvolvimento sustentável é uma fraude. O empenho em avançar as horas do nosso fuso horário tem por fulcro incentivar esse ritmo acelerado de destruição. Em nenhum momento o governo da Frente Popular apresentou programas de reflorestamento, afinal, nunca vi nenhuma área degradada sendo reflorestada. Alguém já viu isso?

Para piorar as coisas o nosso Governo coloca os pequenos produtores rurais em pé de guerra contra os órgãos que deveriam priorizar a preservação que os multam como eu já vi acontecer, quando um agricultor serrou uma castanheira e foi multado em 1.500 reais. Para que fazem isso? Eles não podem pagar e se o fazem para onde vai o dinheiro? Não seria mais adequado oferecer subsídios para reflorestamento? Levar mudas com acompanhamento técnico? A favelização de Rio Branco é visível e gritante ao custo de mais áreas verdes sendo sacrificadas, sem contar a poluição de igarapés e da água potável. Não há controle algum.

A tão propalada frente popular não existe de fato, existe apenas a soberania de um grupo familiar da tradicional política acreana filha dileta do coronelismo que ainda reina nos Maranhões e nas Alagoas. Os partidos que compõem a frente não têm base social. Qual a base social do Partido Verde? Ele encampa a luta de algum sindicato rural, de alguma associação de produtores extrativistas? Dos índios isolados do Envira que estão sendo atacados por traficantes e madeireiros? O partido verde favorece o surgimento de canais de participação, favorece a mobilização, em especial dos jovens? Ora, tem muita gente indignada com essa devastação toda, mas não têm como manifestar isso de forma organizada, porque o mais que a “Frente” fez foi desarmar a sociedade, retirar dela as suas armas próprias de luta por democracia e igualdade social: a planfetagem, a liberdade de expressão, as manifestações, as paralisações, os atos públicos, que desapareceram com a perseguição, a censura, o cabresto, a divinização do soberano que passa por cima até mesmo de um referendum popular. Ave César!

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