Nos perdoe, Verônica, se puder…

Na página policial de  de quinta, neste diário, uma fotografia de uma mulher sozinha com o rosto exprimindo uma dor inimaginável, mesmo porque dor é algo que só sabe quem a sente, a cabeça inclinada como se a sua alma houvesse despencado em alguma fenda dessas que se abrem quando ocorrem grandes terremotos. E a notícia dizia de um acidente que ocorreu no bairro Airton Sena, onde os moradores são de baixíssima renda, quando um bebê de dois meses teve seu corpinho queimado em 70% vindo a morrer horas após ter sido socorrido pelos bombeiros.

A mãe, Verônica Oliveira, a da fotografia, que tem ainda uma menina de 4 anos  e cujo marido está na penitenciária, deixou o bebê dormindo numa rede enquanto se dirigia a uma mercearia próxima para fazer o que todas as mulheres domésticas fazem pela manhã, comprar alguma coisinha tipo leite e produto para fazer mingau. Um fio mal instalado causou o incêndio exatamente na rede onde o bebê dormia o suficiente para acabar sua vida, mas não para destruir a casa.

Anos atrás, no bairro Taquari, uma mãe saiu para trabalhar e deixou seus filhos menores trancados em casa para protegê-los contra gente inoportuna, assaltantes e estupradores, mas, ao ocorrer um incêndio em sua casa, não houve tempo de salvar suas crianças que morreram tostadas. E eu mesma publiquei uma matéria sugerindo a então secretaria de ação social que pedisse demissão. Afinal, para que existem essas secretarias e por que essas pessoas assumem esses cargos não sendo capazes por falta de competência ou de recursos ou de ambos de fazer o que lhes cabe fazer, no caso, proteger essas mães que precisam trabalhar e não têm como deixar seus filhos em segurança?

 Não vi nenhum braço amigo ao lado da Verônica e ao final da matéria li que apesar do incêndio ter sido acidental conforme laudo do Corpo de Bombeiros, a conselheira e presidente do conselho tutelar Maria Liberdade promoverá uma investigação que poderá responsabilizar a mãe pela morte da criança caso seja indiciada por negligência e/ou abandono de incapaz. É o cúmulo. É o fim. Se eu fosse advogada entraria com uma representação contra o Conselho Tutelar. A mulher perde o seu bebê porque está só com duas crianças, não tem como pagar alguém, não tem como arranjar emprego, estudar a noite, lutar para rea-lizar sonho algum, caso os tenha, com o marido na penitenciária e ainda sofre esse tipo de constrangimento, essa ameaça velada? Na verdade, só lêem as páginas policiais aqueles que vivem assombrados. Eu as leio todos os dias porque elas registram a situação dos que vivem nas bordas desesperados.

Não havia ninguém do Governo para amparar essa pobre mãe. Não há mais associação de moradores para bradar contra a falta de segurança nesses bairros, contra a pobreza que não permite instalações elétricas seguras, contra a falta de saneamento e de oportunidade de trabalho para essas mulheres que na ausência de creches públicas sequer podem sair atrás de emprego. As associações de bairros existiram de forma atuante e reivindicatória com uma federação atuante e com grande visibilidade nesta cidade, no tempo da Terezinha Mansur, quando o PT estava em escalada. Agora o que existe é um arremedo do que existiu no passado e com fins eleitoreiros. Sei disso porque anos atrás procurei a Emurb para resolver um problema na minha rua e me disseram que só quem poderia fazer a solicitação seria o presidente da associação do meu bairro que eu nem conheço, muito menos sabia da existência dessa associação, e até hoje não sei onde fica.

Todo problema de ordem social é emergencial e urgente. Não é possível esperar pela elaboração de um projeto que precisará ser aprovado num dia alhures para remessa de verbas em data indeterminada. Esse acidente que redundou na morte de um bebê, queimado, é uma evidência de que as secretarias de Estado da área social o mais que fazem é atuar em calamidades com desabri-gados por alagação. Nunca atuam de forma preventiva e científica. Existem centenas de alunos de Serviço Social, Enfermagem, Engenharia e outras que aceitariam de bom grado bolsas de estágio para entrar em campo e colher dados sobre famí-lias em estado de vulnerabilidade como a da Verônica, no que se refere a emprego, cuidado com as crianças, segurança, instalações elétricas e hidráulicas, lixo, água e esgoto. Para as bolsas bastaria cortar metade das diárias. Viajem menos, andem mais pela cidade!

 Talvez porque seja a prática comum dos governos em geral, neste país, de ocuparem-se apenas com os passos largos e esquecerem-se dos passos pequenos, ocuparem-se com mega orçamentos e desprezarem políticas que envolvam mutirões, por exemplo. Afora os comícios, não sabem se comunicar com os moradores de bairros para conclamar a participação e à parceria. Não querem envolvimento com os problemas dos moradores das áreas em risco e por isso não podem evitar que acidentes dolorosos como esses continuem ocorrendo. Só percorrem essas áreas quando existe um marketing político, uma inauguração por exemplo. E para piorar as coisas sempre adotam uma postura repressiva e punitiva exatamente com aqueles que estão mais vulneráveis.

Todos os dias ocorrem acidentes no trecho que inicia a BR-364, sentido Rio Branco-Porto Velho, duplicada com recursos do PAC. Semana passada uma moça teve a cabeça esmagada por uma carreta. Naqueles quatro quilômetros, de um lado e de outro, habitam uma quarenta mil pessoas, existem escolas e posto de saúde, onde crianças, estudantes e trabalhadores em geral, idosos, animais de estimação transitam por esse trecho de auto-estrada, sem a mínima segurança. A única rotatória fica a exatamente a quatro quilômetros, ao final dos bairros. O pessoal do Samu e os guardas da polícia rodoviária são obrigados a juntar pedaços de corpos, cabeças separadas dos corpos, carne e ossos esmagados quase todos os dias. É uma carnificina quase que diária ocorrendo naquele trecho. Será que o TCU sabe disso? Ele sabe do superfaturamento, um tipo de crime que ao final dos anos não dá em nada. E esses crimes de responsabilidade do Estado computados como acidentes de trânsito?

É por isso que o povão vive bradando aos céus por toda parte. Os programas dos governos são sempre programas de curral. Vida de rebanho é muito estres-sante mesmo porque todo momento um é abatido, filho de alguém, filha, neto, pai, avô, deixando a todos impotentes.

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