“Passageiros da agonia”

A palavra portuguesa “tempo”, em sua origem, vem do latim tempus derivado do termo grego temno, “cortar”, “decepar”. O tempo é aquilo que divide o dia em frações. Podemos, ainda, conceber períodos de tempo os mais diversos, como dias, semanas, meses, anos, séculos, milênios, eras, etc. Os termos gregos usados especificamente para indicar o tempo são chronos e aion. O primeiro indica o tempo em geral, e o segundo, longos períodos de tempo, como eras. 

A inspiradora filosofia platônica definia o tempo como à imagem móvel da eternidade. O neoplatonismo (Plotino)  asseverava que o tempo é uma energia incansável da alma do mundo, cujo intuito seria imprimir nas formas materiais, a plenitude infinita do ser. Agostinho de Hipona foi quem melhor formulou com extraordinária lucidez o problema, ou melhor, o enigma do tempo, sem não antes confessar sua ignorância quanto à natureza real do tempo, “Se ninguém me pergunta sei; se me perguntam, querendo que explique, não sei” (Confissões). Ainda assim, antecipou a teoria da relatividade ao dizer que o tempo está limitado à nossa esfera, e que existem esferas onde não prevalece o tempo, conforme o conhecemos. Ele também dizia que o tempo está presente em nós, sendo mensurado pela mente e pela memória do homem.

A meditação de Agostinho sobre o tempo mereceu de Edmund Husserl (1859-1938) o seguinte comentário: “Os capítulos 13 e 28, do livro XI das Confissões, devem, ainda hoje, ser estudados a fundo por quem se ocupa com o problema do tempo. Pois, nessa matéria, a época moderna, tão orgulhosa do seu saber, nada produziu de muito amplo e que vá muito além desse grande pensador que se debateu seriamente com o enigma”. Ao mesmo tempo, Agostinho é, no dizer do  professor Rolando Corbisier, um “grande pensador” porque pensa dialeticamente, porque pensa a contradição, que está em tudo, no homem, no tempo, nos corpos cuja instabilidade os faz deixar de ser o que eram e começar a ser o que não eram.

O Homem, por aptidão inata, vive através dos séculos, dando asas ao tempo, “o tempo voa” dizemos, não raras vezes, por aí. Outros aforismos se fazem presente no nosso cotidiano: “foi-se o tempo…” dos igarapés sadios, dos casamentos duradouros; foi-se o tempo em que as famílias dormiam em paz, à noite, de janelas abertas. Em outras ocasiões consolamos os aflitos e feridos dizendo-lhes que, “O tempo tudo cura”. Ou então damos sentimentos ao tempo e, numa linguagem antropopática (atribuição de sentimentos humanos a qualquer coisa não-humana, como objetos inanimados, animais, poderes da natureza, seres espirituais e Deus), afirmamos enfaticamente: “O tempo não perdoa!”

Parece que nestes dias muito afobados o tempo voa mesmo. Sem dúvida, o tempo voou, sem que nada de novo e fenomenal tenha aparecido abaixo do firmamento. O planeta terra, experiente e encanecido, por causa da maldade do homem, continua tropeçando nos mesmos erros dos anos de sua juventude.

Desde o ano passado, 2010, inaugurei a velhice. Estou vivendo, com algum vigor, provavelmente o último ciclo da minha vida existencial, pois que daqui para frente, se não fenecer pelo caminho, será canseira e enfado. Assim, tenho dedicado um “tempi-nho”  para refletir sobre as sábias palavras do Rei Salomão, na sua cogitação sobre o tempo, ponderando teologicamente debaixo dos  desígnios soberano de Deus, ao admitir que todos os acontecimentos da vida são divinamente ordenados. Isto é, tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu. Pensar e concordar com o jurássico Heráclito, que em função do tempo, dizia que tudo se acha em estado de fluxo e o tempo é o meio ambiente desse fluxo. Destarte num mundo que passa por grandes sussurros, chamados anos, somos todos, verdadeiros “passageiros da agonia” numa viagem em que sucedemos e somos sucedidos.

Nessas meditações constatei, com satisfação, que em longo dos últimos anos tenho lutado pela supressão, no seio da minha família e daqueles que me cercam,  contra o sentimento de pragmatismo e o populismo, o narcisismo e o consumismo, o demagogismo, o racismo e o fanatismo, notadamente o religioso, entre outros ismos que teimosamente resistem ao tempo. Igualmente, o meu desejo e a minha prece, é que o Senhor Jesus Cristo conceda-me o privilégio, pela sua Graça e Misericórdia, de não sucumbir aos modismos da presente época, mas que ilumine a minha alma para entender e me fazer aprofundar na compreensão do “Ser” na sua interioridade.
Quase que eu digo: Amém!   
 
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