Yes, nós falamos english

A língua portuguesa tem recebido vocábulos de muitas línguas modernas, como resultado das relações políticas, culturais e comerciais com outros países. Na área técnica, o inglês tem fornecido uma vasta nomenclatura, demonstrando que o processo de mudança lingüística está intimamente relacionado com a história sócio-cultural de um povo.

A “americanização” da língua portuguesa é vista, no Brasil, como uma verdadeira invasão cultural. Todavia o Brasil não é o único país que se sente colonizado pela invasão de vocábulos estrangeiros, particularmente de origem inglesa, proveniente de uma gama de campos semânticos, como a informática, a economia, a propaganda, o desporto, dentre tantos outros.

Nota-se que muitas palavras de origem estrangeira são imprescindíveis na língua portuguesa por preencherem lacunas lingüísticas no idioma. A existência de termos de origem estrangeira como “leitmotiv”, “sashimi”, “blinis”, “honoris causa” ou “réveillon”, de nenhuma forma ameaça a soberania da nação.

O ingresso de palavras e termos técnicos, de origem anglo-saxônica, não é resultado direto da globalização – um fenômeno relativamente recente. A expansão da língua inglesa pode ser vista em quatro momentos históricos: 1) no século XVII – com a migração de europeus para o continente americano, Austrália e Nova Zelândia; 2) séculos XVIII e XIX – com o estabelecimento de verdadeiras “esferas de influência” ou colônias, principalmente por parte de Grã-Bretanha, na África, no Oriente Médio, na Ásia e na Oceania; 3) a partir do fim da Segunda Grande Guerra, em 1945 – com  o surgi-mento dos EUA como poderio econômico-técnico-científico; 4) neste início de milênio – numa reflexão sobre a consolidação do inglês como língua internacional ou “língua ponte”. Isso porque há bastante tempo o inglês deixou de ser propriedade exclusiva de uma nação ou raça. O referido idioma é oficial ou semi-oficial em 60 diferentes países e tem uma posição de proeminência em outros 20. Por este motivo, pode-se falar de “inglês indiano”, “inglês filipino” ou “inglês nige-riano” etc. Assim, existem, no mundo de fala inglesa, diferentes identidades e culturas.

O povo brasileiro, abrigado em colônia cultural de países desenvolvidos, tende a inventar palavras em inglês que não existem nem nos Estados Unidos, quanto menos na Inglaterra. Um exemplo clássico é a palavra “outdoor”, que em inglês significa: exterior, promovida ao ar livre, ação fora de qualquer cobertura. No Brasil a palavra ganhou nova significação: cartaz enorme em avenidas, ruas e muros das cidades. O nome do tal <> brasileiro, em inglês, é Billboard. Definitivamente, as influências do inglês, no português brasileiro, não terminam aqui, há numerosas palavras, uma verdadeira invasão, como nos exemplos:  marketing, merchandising, software, hardware,  deletar, formatar, disquete, e- mail, off-set, franchising, spray, pole position, Grid, record, ombudsman, kit,  Free, Jazz, milk-shake, hot-dog, hamburguer, light, diet, celular, fashion, corner, escanteio, futebol, time, chute, beque, pênalti, gool etc.

A língua inglesa invadiu o Brasil, virou moda em toda parte. Assim, não vamos fazer compras, vamos ao shopping, contratamos um promoter ou promoteur para preparar uma festa. As nossas propagandas, as colunas sociais, os noticiários e reportagens esportivas de revistas, jornais, rádio e televisão, estão repletos de termos estrangeiros. E essa “invasão” demonstra a forte influência da cultura estrangeira entre nós. Evidencia, também, que a língua precisa renovar-se para acompanhar o desenvolvimento tecno-lógico, econômico, político da sociedade. E, por mais que os puristas condenem a entrada de expressões estrangeiras, no léxico do português, tal processo é perfeitamente natural em qualquer língua do mundo.

DICAS DE GRAMÁTICA A PÉ, DE PÉ, EM PÉ
– Como estava a pé, pedi ao José uma carona. Ele aproveitou para me dizer que a nossa Coluna Letras & Letras, deste domingo, está de pé. Acabei pegando um ônibus lotado e fiz em pé todo o trajeto de volta a casa. Acho que teria sido preferível vir a pé, o centro da cidade estava repleto de carros, caminhões, caçambeiros, todos em protesto.

Estar a pé = estar sem carro, “desmotorizado”. Ir (vir, viajar etc.)
a pé = deslocar-se sem qualquer tipo de veículo.
Estar / ficar de pé = conti-nuar firme, subsistir, resistir, manter-se.
Estar em pé = estar ereto sobre seus próprios pés, sem ser sentado ou deitado. Nesta acepção, também se diz de pé: Permaneci de pé / em pé a missa toda

CAPÍTULO DEZ OU CAPÍTULO DÉCIMO?
Capítulo décimo. Sempre que o numeral vier depois do substantivo, emprega-se a forma ordinal até décimo. Daí em diante, usa-se a forma cardinal. Assim:
Pedro I (primeiro)
Paulo VI (sexto)
Capítulo X (décimo)
Luís XIV (catorze)
Tomo XXI (vinte e um)

Se o numeral anteceder o substantivo, usa-se a forma ordinal:
Oitava parte.
Décimo capítulo.
Décimo quarto tomo.
Vigésimo primeiro século.
35.º Distrito Policial (trigésimo quinto).

Luísa Galvão Lessa É Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá. Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Pesquisadora Sênio da CAPES.

 

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